Adoro o Paul Auster. Li quase todos os livros do sujeito e, quando pintou a oportunidade de entrevistá-lo por telefone para o jornal em que trabalho, cacetada, dei uma tremida. Uma coisa é entrevistar um sujeito fodão, ter que se esforçar para fazer bonito, e tal. Outra coisa é fazer isso com um sujeito fodão que você adora, admira, baba o ovo, e tal. Não é fácil.
Fiquei uns 15 minutos com o Auster no telefone. Falamos de literatura, ele perguntou minha idade, criticou Bush e me jurou que nunca iria escrever uma autobiografia. Ah, e falamos também de um assunto que impera em quase todos os livros do Auster, assunto pelo qual eu próprio me interesso absurdamente: o acaso. Nada de filosofar sobre o acaso na vida das pessoas. Gosto mesmo de ler, escrever ou ver histórias em que o acaso é trabalhado. Como ocorre no ótimo “Magnólia”, no razoável “Babel” ou no sofrível “Crash”, para citar exemplos recentes.
E como ocorre, também, num filme brasileiro que chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 7 de julho. O nome – não poderia ser mais apropriado – é “Não por acaso” e traz Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros vivendo dois personagens bastante masculinos (na forma com que querem controlar suas vidas e as vidas das mulheres a seu redor). O filme é ótimo, como são também os curtas de seu diretor, Philippe Barcinski – “Palíndromo” e “A janela aberta”, por exemplo.
Não deve ser fácil fazer um filme em que duas histórias independentes se encontram, se alteram e, depois, seguem novamente com independência. O diretor me contou dia desses que demorou cinco anos para escrever o roteiro – em parceria com sua mulher, Fabiana Werneck Barcinski, e Eugênio Puppo. E o resultado realmente surpreende. Nenhum diálogo é escolhido à toa. Nenhum plano foi aproveitado – desculpem o trocadilho – ao acaso.
Mas a coisa que chamou mesmo minha atenção no filme foi a atuação de uma menina chamada Rita Batata. Não sei quem ela é, nunca a tinha visto antes, mas sei que ela interpreta a filha do personagem do Medeiros. Ela não fala tanto e, assim, consegue fazer umas expressões ora de alegria, ora de tristeza, impressionantes. As outras atrizes, Letícia Sabatella e Branca Messina, também estão bem. Mas, para mim, a Rita roubou a cena.
André