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Copa do Mundo | 28 de junho de 2006

Logo no primeiro jogo, eu reparei. E no segundo, veio a comprovação. O André cria bordões. É isso mesmo, bordões. Para cada dia de atuação do Brasil na Copa, existe uma frase repetida exaustivamente durante 90 minutos. Umas dez vezes, para ser mais precisa. E se a gente for beber depois com amigos, eu ouço a tal frase mais umas 15 vezes.

Só para ficar mais claro: o bordão do primeiro jogo (Brasil e Croácia) foi "tem que tirar o Ronaldo". Já o do último (Brasil e Gana) foi "o Brasil, com essa escalação, ainda não fez nenhuma jogada de linha de fundo". Como se eu soubesse o que é uma jogada de linha de fundo... Eu sei, tive muitas oportunidades de perguntar, essa conversa de "linha de fundo" rolou várias vezes. Mas fiquei com vergonha.

Tudo isso para explicar que uma Copa do Mundo ao lado do namorado pode dizer muito sobre ele. E sobre você também. Além de lançar bordões, o André critica bastante uma mania minha. Pois é, eu não comento futebol, não faço muitas perguntas e não repito frases durante a partida. Tudo bem, eu comento os atributos físicos dos jogadores. Mas isso é só uma pequena implicância com o André e não vem ao caso. O que importa mesmo é que eu não consigo me segurar quando a bola está chegando perto do Dida. É quando me dou ao direito de tapar os olhos e mandar um "ai, ai, aiii", de tão nervosa que eu fico. Na segunda vez que fiz isso, logo no primeiro jogo, levei um olhar de reprovação dele. Foi quando eu quase mandei um "vê se te enxerga, menino do bordão!".

Mas me segurei para não ser tão grossa. Ainda bem. Porque eu descobri logo depois que, além desse lance dos bordões, o André tem a capacidade única de antecipar todas as falas dos comentaristas. Se é falta para cartão, qual é a estratégia do time, qual jogador vai entrar no lugar do que vai sair, se o cara se jogou para cavar uma falta... Qualquer coisa. Nem precisa de replay, juro. Ele manda uma análise logo de primeira, assim que o lance acontece. E foi assim que eu me lembrei por que cargas d'água sou tão apaixonada por ele. Porque ele é uma das poucas pessoas no mundo que tem a capacidade única de me surpreender. Mesmo que seja fazendo análises táticas de partidas de futebol, não importa. E não há nada que eu goste mais no mundo do que ser surpreendida.

seta Josy


Outro dia, pouco antes de começar a Copa, encontrei no banheiro de Josy um encarte dos supermercados Extra. Estava meio escondido, embaixo de umas toalhas. Além do preço do arroz Tio João e do feijão Princesa, havia, neste encarte, uma foto de corpo inteiro do Ronaldinho Gaúcho, todo gato. Ele pisava na bola com a perna esquerda, torneando a coxa.

A Copa do Mundo é assim mesmo e mexe com a paixão dos brasileiros. Assistir a um jogo a dois, portanto, cria momentos diferenciados, considerando que as paixões, por mais que assumam fins coletivos, manifestam-se individualmente. Assim, enquanto eu assisto ao jogo de forma serena, me exaltando apenas para xingar o Adriano (alguém anda precisando de um bom porteiro?), Josy fica nervosa e solta uns gritinhos "ai, ai, ai" nas situações de gol dos adversários.

Interlúdio: para ela, uma situação de gol do adversário pode significar um sujeito correr com a bola lá longe no meio campo com a cara de mau. "Ai, ai, ai, eu não consigo ver". Parece até filme de terror, naquelas horas mais sangrentas. Eu olho de lado, torço o nariz e acho graça.

Mas Josy não está sozinha nas esquisitices num jogo de Copa do Mundo da nossa seleção. No meu caso, sempre rola uma decepção quando a partida termina. Mas já? Eu quero mais futebol, eu quero toque de bola, dribles, gols. Eu quero que o bom livro nunca acabe, que as luzes do cinema nunca se acendam e que a banda volte para mais um bis. Eu elevo o futebol para o patamar de arte e lamento o fim de um bom jogo, tal como uma derrota - mesmo que tenhamos ganhado do Japão por 4 a 1 e jogado bem. Não estou nem aí se o time adversário faz pressão no fim e podemos perder. Eu quero mais futebol.

O único momento que, às vezes, me faz desejar o fim de um jogo é quando a paixão de Josy começa a incomodar o ambiente. Do "ai, ai, ai", eu acho graça. Mas ela adotou uma mania de ficar comentando os atributos físicos dos jogadores. O Kaká é tão bonito, né? E a bunda do Adriano (decidiram-se sobre o porteiro?)? Esse Juninho Pernambucano tem um jeito gato de surfista, não?

Não fico com ciúmes, mas a facada da provocação encontra o alvo. Ter uma foto do Ronaldinho Gaúcho no banheiro, até vai: o cara é o melhor do mundo e bonito para cacete. Mas o que quer dizer jeito de surfista?

seta André



seta Comentários Enviados
alborges2@hotmail.com em 07 de julho de 2006

Rá-Rá-Rá!!!!

A resposta é pros dois.

Tá ótima essa coluna!

Pô, André, concordo: Ronaldinho Gaúcho é gato mesmo...

E pena q acabou a Copa pro Brasil. Agora quero ver vcs dois gritando "Deutschland!", junto comigo.


Bruno em 07 de julho de 2006

Não, não... Não dá pra ver jogo de futebol com mulher. Definitivamente! Copa do Mundo então, nem se fala! Ficar tenso com lance do gol do adversário ainda vai. Mas "ai, ai, ai" não! ;)

E eu sou quase igual ao André: só não antecipo as falas dos comentaristas pq, normalmente, eles são muito ruinzinhos. Afinal, meu curso de treinador tinha que servir pra alguma coisa...


Marina G em 04 de julho de 2006

Por mais que a gente entenda de futebol (e eu entendo e tb me antecipo nos comentários, viu Josy?) não tem como não reparar: o que é a seleção da Inglaterra, meu Deus? Por que cargas d'água tiraram os caras da Copa?


Gabi Temer em 03 de julho de 2006

André, é que nós vemos os lances de bola de outro ângulo!!!! Outro dia me peguei falando para o Rico que o jogador da Itália (esqueci o nome, só me lembro dos atributos de bom jogador) era muito melhor que o Kaká! rsrsrsrs


Mila em 28 de junho de 2006

muito bom!
mas conta aí, o que vc fez com a foto do ronaldinho gaúcho...


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