Dama de Ferro | 19 de julho de 2006
O Dama de Ferro até que é bacana. Aliás, comecei este texto já com uma dúvida: é a Dama de Ferro ou o Dama de Ferro? Enfim, vou assumir que é no masculino, sem grandes preocupações. A noite de sábado foi lá, decidida desde que recebemos um daqueles e-mails tipo spam de um amigo avisando que ele e mais outro amigo tocariam no segundo andar da casa. Ninguém esperava nossa presença e seriam poucos os rostos conhecidos por lá, mas nada nos intimidou. Era mais uma noite de i-DJs, aqueles que tocam acompanhados de seus i-pods. Eu lembro que tocou “Voyage, voyage” e não sei falar mais sobre o repertório. O importante é que eu estava achando tudo engraçado. E engraçado, na minha opinião, é sempre bom.
Mas eu disse que o Dama é bacana, apesar do preço extorsivo. Desde a entrada deu para perceber que não tínhamos muito a ver com o local. Esbarramos ainda na rua em dois casais desconhecidos, que esperavam para entrar. “Você viu as roupas deles?”, perguntou o meu par. “André, as roupas deles estão muito apropriadas. Nós é que somos os estranhos aqui, a começar pelos nossos trajes” foi a minha resposta.
Entrar em um lugar com cara de quem vai a outro pode ser complicado para muita gente. Mas a questão é que isso realmente não tem cara de problema no Dama e foi assim que a casa ganhou pontos no meu quesito “bacana”. Além das roupas dos outros casais, André ainda me chamou a atenção para o lugar estar basicamente tomado por gente que gosta de gente do mesmo sexo. Não que isso fosse um problema, era apenas uma observação. Eu apontei para três meninas que estavam atrás da gente, mostrando que havia de tudo ali. Nem bem passou um minuto, percebemos que uma delas agarrava um outro alguém na pista. “Viu? Eu disse que éramos dos poucos heterossexuais aqui!”, falou o meu par. “André, ela está ficando com um homem, só que ele tem cabelo liso e muito comprido” foi a minha resposta.
O engraçado de sair só com o André para dançar é que nós não conseguimos fechar a matraca. Tudo vira assunto, ou até um longo papo, mesmo enquanto a gente dança e a música está nas alturas. As roupas das pessoas, suas coreografias, o ar-condicionado, os outros casais, o moço que está dando em cima dele... “Tem um cara loiro olhando para mim”, falou o meu par. “André, ele é um gatinho...” foi a minha resposta.
Mas eu percebi que é só com ele que consigo levar qualquer papo em um lugar como esses. Não sei como interagir com outras pessoas por muito tempo em uma boate. Sempre chega aquele momento em que você não entende o que o outro está falando por causa do som e passa vergonha respondendo apenas com um sorrisinho ridículo, fingindo estar compreendendo tudo e sem coragem de emitir uma opinião sequer. A verdade é que não há muita gente que possa falar tão ao pé do seu ouvido sobre qualquer assunto, sem ter que elaborar muito o pensamento, quanto o seu namorado. E além da proximidade para conversar, você ainda pode dar uns bons beijos nele durante a noite. E ainda pode pedir para ele pagar se tiver esquecido de levar o cartão. E ainda pode levá-lo para casa no fim da noite sem nenhum tipo de constrangimento. Acho que a partir de hoje vou lançar a campanha “leve o seu namorado para dançar”.
Josy
Quando a gente briga, Josy tem uma mania de soltar um "você não pode falar assim comigo". A frase, segundo ela, seria motivada por um tom agressivo que eu, supostamente, traria para a discussão. Refuto. Primeiramente porque o tal tom agressivo parte tanto deste lado quanto do lado de lá - experimentem discutir com ela qualquer coisa relacionada a Israel para entenderem o que quero dizer. Além disso, enxergo na frase uma variação da velha "você sabe com quem está falando?".
Só que é difícil para ela admitir. Como explica Roberto da Matta (tenho estudado ele para minha pós), o "você sabe com quem está falando?" traz uma carga pernóstica e antipática e, ainda, nega o tal jeitinho brasileiro para lidar com as coisas. Nós, os brasileiros, ainda de acordo com Da Matta, valorizamos a malandragem, a cordialidade e a simpatia como parte do que acreditamos ser a "identidade nacional". E não existe nada mais antipático do que um "você sabe com quem está falando?" dito para vencer uma discussão, principalmente quando o "jeitinho" falhou anteriormente. Usar a expressão é aceitar o conflito e um brasileiro nato não pode aceitar de forma alguma um conflito.
No último sábado, fomos para a Dama de Ferro e, na fila, dois casais discutiam com a hostess exatamente o "você sabe quem está falando?". Ela, a hostess, contava que ouvia usualemente de clientes a expressão. Era gente querendo furar fila ou pagar mais barato.
Um pequeno adendo é fundamental para que vocês, leitores menos antenados com o mundinho descolado do Rio, entendam o funcionamento da Dama de Ferro. A boate fica em Ipanema e aceita livremente a diversidade sexual. O problema, porém, é que uma boate que aceita diversidade sexual no Rio acaba virando, infelizmente, sinônimo de boate gay. De gay friendly (termo comum em alguns bares, restaurantes e hotéis) passa a gay exclusively. Ou quase isso. A Dama de Ferro, portanto, não é exatamente uma boate gay, mas está quase lá.
Assim, havia bem mais gays do que heteros na nossa saída de sábado - apenas eu, Josy e mais uns três ou quatro casais (isso sem considerar que, dizem, eu nem sou dos mais heterossexuais). Fomos para lá para prestigiar o bom som de dois amigos e seus ipods. Às 2h, um sujeito, gringo, alto, loiro e gato, ficou me olhando durante um bom tempo no segundo andar da casa. Ruborizei e resolvi sair para não ter que dar toco. Hey, gringo, eu não querer sexo anal esta noite, okay? Sai para lá, mona!
Descemos, justamente para evitar aquele conflito, entre mim e o gringo gato. Mas outro iria surgir enquanto esperávamos uns croquetes de carne. O cara do bar errou alguma coisa no forno e a comida queimou. Josy se emputeceu e queria cancelar. Calma, Josy, calma. "Mas ele não pode fazer assim com a gente". "Somos clientes".
Para mim, o "você (ele) não pode falar (fazer) assim comigo (com a gente)" de Josy soa exatamente como o "você sabe com quem está falando?" ouvido pela hostess da boate. É um jeito fácil de tentar ganhar a discussão pela falta de argumentos. É lógico que a malandragem da qual eu digo ser adepto pode ser confundida com retórica (Górgias era um malandro), mas isso não me faz preferir discutir em cima de supostos e imaginários títulos do que em cima de supostos e imaginários fatos.
Como para tudo, porém, aqui também temos um porém. A resposta para o "você sabe com quem está falando?" de Josy é "a mulher da sua vida". E este talvez seja um bom motivo para aceitar o argumento e pedir desculpas por "estar falando daquele jeito com ela". Talvez o que eu tenha que fazer mesmo é ler um pouco mais de Roberto da Matta.
André

Comentários Enviados
Terra em 25 de julho de 2006
André, admita: você ficou com medo do loiro, alto e solteiro ter a voz do Miguel Falabella. Seria o fim dessa ótima coluna...
Karina em 23 de julho de 2006
Essa idéia de sair para dançar só com o namorado é ótima, Josy, mas a gente tem sempre que ficar de olho, porque a mulherada hoje em dia tá um horror!
Eduardo em 22 de julho de 2006
A Josy é gostosa e chato é o André.
Agora, o que não entendo é pq a galera GLS só consegue pensar em bichos de duplo sentido!
André e Josy, que tal vocês irem numa feira e escreverem sobre as bananas?
Gustavo Ribeiro em 21 de julho de 2006
Chatinha eu não sei, mas parece gostosa!
Josy em 21 de julho de 2006
É, prazer! É ótimo saber o que as pessoas pensam disso daqui. De verdade. Mesmo quando o texto ou a colunista não agradam muito... Abs!
Andrea Vorel em 21 de julho de 2006
Prazer?
Josy em 21 de julho de 2006
Puxa, quanto amor no coração! Marcada a ida ao zoológico na semana que vem, André. E no mais, muito prazer, Andrea.
Andrea Vorel em 21 de julho de 2006
Sorry se o comentário pareceu mal educado. Você, André, um gentleman... Nossa senhora......
Me quebrou total. Vou ao Zológico, ao Dama, mas que essa sua namorada é penta, ah, isso ela é. Sorry. Beijos, Andrea.
Andy em 21 de julho de 2006
Andrea, se não conseguimos ser claros quando escrevemos alguma coisa, a falha é nossa. Ou seja, não sei o que um texto ou outro deu a entender, mas Josy não é chatinha. Espero que você volte e desfaça essa impressão.
Sobre ser cool, gay ou ter um pescoço comprido, eu adoro zoológicos e odeio rótulos. Você não?
Beijos
Andrea Vorel em 21 de julho de 2006
Essa Josy parece ser uma chatinha, daquelas que ninguém pode contrariar. E esse lance de ir em lugar gay e achar cool é tão ridiculo... Tipo, porque vocês não vão ao zológico e ficam comentando sobre o tamanho do pescoço das girafas, da próxima vez?
Mila em 21 de julho de 2006
Croquete? quem pede croquete em boate?
Dom Carlos em 20 de julho de 2006
Pô, André, cê vai num lugar desse pra fazer campanha do agasalho do croquete de carne?! Para com isso...
Andy em 20 de julho de 2006
Bee, em sociologia política, na PUC. Mas a verdadeira acadêmica do casal é a Josy.
Renato, sobre razão, origem e história do conflito, sempre digo à Josy que ela entende mais do que eu. A gente vai bem além disso. Nossa última discussão, aliás, foi sobre imprensa e semântica. E ela se emputece eventualmente porque eu sou chato pra cacete mesmo.
Abraços aos dois.
renato em 20 de julho de 2006
talvez a Josy fique puta com vc ao falar de israel em razão de vc repetir o q a imprensa fala e nao pesquisar, como deveria, a razão, origem e história do conflito. Leia bastante sobre o conflito e forme sua opiniao, e nao o que Jornal Nacional fica dizendo a vc. No mais, excelente a coluna!
Bee em 20 de julho de 2006
Vc faz pos de que e aonde, prezado andre? DaMatta é interessante...