Posse na ABL | 26 de julho de 2006
Eu sempre achei a edição dos reality shows americanos ótima. Por "reality shows americanos", entenda-se "Project Runway", "Extreme Makeover - Reconstrução Total", "America's Next Top Model" e por aí vai. Se você nunca viu um desses, uma explicação: são daqueles reality shows que mostram uma competição, a reforma de uma casa ou qualquer outra besteira. No desenrolar do programa, além de aparecerem interagindo, os participantes também são filmados em um lugar reservado, dizendo o que pensam uns dos outros e explicando seus sentimentos. No "Project Runway", sempre tem alguém chorando nesse "reservado" ou ainda detonando muito os outros competidores. Parece ser uma espécie de "câmara da verdade".
Um dia eu me peguei pensando se não seria ótimo ter isso na vida real. Imagina, você está no meio de uma entrevista de emprego e de repente surge na tela o seu entrevistador contando todas as impressões que está tendo de você. Uma grande viagem, não? Era o que eu achava. Até decidirmos, eu e o André, que o nosso programa de segunda-feira seria a posse do Nelson Pereira dos Santos na Academia Brasileira de Letras. A gente tinha convites e... Por que não? Uma festa com gente interessante, podia ser curioso.
Acontece que uma festa black-tie começa muito antes de uma festa black-tie. Ela começa no exato momento em que você olha para o céu e pergunta: "Deus, o que será que eu vou usar?". Por isso não estranhem se eu me der a liberdade de não falar tanto do Nelson ou da ABL. Mas que fique claro: eu adoro "Rio, 40 graus" e "Rio Zona Norte".
Comprei um vestido novo (estava na promoção) e me arrumei enquanto o André tomava banho. Quando ele apareceu enrolado na toalha, eu já estava pronta. Atenção, estamos chegando no momento "câmara da verdade". Ele me olhou e não esboçou uma reação sequer. Isso é normal. Desta vez, porém, a rotineira falta de reação veio acompanhada da pergunta "não quer saber o que eu achei?". Resposta: "Meu amor, se você tivesse gostado, eu já teria percebido". Réplica do moço: "Não! Até que está bonitinho". Ui... Silêncio. Era exatamente por isso que não tinha pedido opinião. Resolvi que era hora de acabar de me arrumar, dando um laço que faltava. Nova pergunta: "O que é isso? Está se embrulhando para presente?". Ui... Mais um minuto de silêncio. André estava detonando muito sua parceira de reality show.
Enfim, a festa na ABL foi regada. Não chegamos a tempo de ouvir os discursos, mas os risotos de funghi e de açafrão estavam divinos - do Buffet Aquim. O espumante também. Assim como a companhia da Mila, neta do Nelson, provedora dos convites. E não é todo dia que você cruza com os imortais e fica tentando lembrar os nomes dos menos famosos. Foi divertido, sem dúvida. Tão divertido que eu perdi a conta dos espumantes e acabei tendo o meu próprio momento "câmara da verdade", o que normalmente não aconteceria com a versão "Josy sóbria".
André me flagrou em mais um minuto de reflexão sobre o embrulho para presente e me perguntou onde estavam meus pensamentos. Como eu já estava achando graça da situação... "Você, André Miranda, passou do estágio da falta de reação para o confronto aberto. Mas tudo bem, não espero que você entre em êxtase com as minhas roupas e acessórios desde o dia em que te vi elogiando um colar de uma amiga sua que eu NUNCA usaria". Ui... Há mulheres que sabem como ser cruéis. O que eu não confessei é que o último laço (aquele do embrulho) deixou de ser feito, com o único intuito de agradar o meu parceiro. São essas mesmas mulheres que também sabem como ser doces.
Josy
Começo esta coluna pela conclusão, mesmo arriscando estragar a surpresa. Vou ouvir no Dia do Juízo que eu não presto. André Miranda, você vai passar a eternidade solitário por não ter aprendido em vida a ser gentil. Insensível, desumano, asqueroso. Vai ser um solitário como pareciam ser aqueles velhinhos de fardão caminhando sem rumo na posse de Nelson Pereira dos Santos na Academia Brasileira de Letras. Tudo por não saber o momento exato de elogiar o vestido de sua namorada.
É isso mesmo, o programa da semana foi uma posse na ABL. E vocês sabiam que nunca um André foi membro da academia? Miranda, por sua vez, houve um: Pontes de Miranda, um jurista eleito em 8 de março de 1979, oito dias antes de eu nascer e três depois de Josy. Ele foi o sexto ocupante da cadeira número 7, cujo patrono é o poeta Castro Alves e cujo fundador foi o jornalista, poeta, contista e boêmio Valentim Magalhães. Tenho certeza que eles eram menos tontos do que eu e elogiavam suas companheiras sempre que necessário.
Assim como tenho certeza que o cineasta Nelson Pereira dos Santos também o faz. Nelson foi o imortal cuja posse fomos prestigiar. Assumiu, por coincidência, a mesma cadeira número 7 de Pontes de Miranda. Sabem os meninos que vendem amendoim espalhados em todos os cantos do Rio? Bem, Nelson Pereira dos Santos já enxergava neles um "termômetro" da sociedade brasileira há mais de 50 anos. É só rever "Rio, 40 graus" para entender o que quero dizer - e, caso consigam uma cópia, por favor me emprestem para eu gravar. Um cara como esse merece todas as homenagens do mundo e, sem dúvida, tem muito mais sensibilidade com as mulheres do que eu.
Para a posse, Josy e eu deveríamos nos arrumar como se fôssemos para um casamento, de acordo com a neta do Nelson - linda, com um vestido vermelho. Pus meu melhor terno, um dos meus dois sapatos, briguei durante 20 minutos até o nó da gravata ficar num tamanho aparentemente correto e rumo à ABL. Josy também se produziu. Comprou um vestido novo, bonito toda a vida. Ela me perguntou o que eu tinha achado e eu perguntei de volta se a fita que ficava um pouco acima da cintura servia para embrulhar o presente. Ou, talvez, ela não tenha perguntado nada e eu tenha feito o comentário infeliz gratuitamente.
Tal como os meninos vendedores de amendoim, minha insensibilidade foi um exemplo de neo-realismo. Saíram os problemas sociais, entraram os emocionais, e gravando. Uma banda apareceu, subiu o som e tocou "Com que roupa?", de Noel Rosa, destacando o "agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta, pois eu quero me aprumar". Ao fundo, um bando de velhinhos imortais vagava para lá e para cá, como atores não profissionais fazendo uma figuração sem fala. O uísque, ao menos, não era ficção e foi meu consolo naquela noite de arrependimento depois da mancada.
Pensei, ainda, em papear com o Sarney, mas tive medo de que ele elogiasse o vestido de Josy. Entrar na fila para cumprimentar o Nelson, então, nem pensar. Como Josy puxou, na última coluna, uma campanha para que se leve os namorados a uma boate, agora é minha vez de fazer campanha: elogie, sempre que possível, sua namorada (mas cuidado ao elogiar demais: um pouco de insegurança nunca faz mal a ninguém, garanto).
Parágrafos invertidos, conclusão lá em cima, introdução cá embaixo. Não somos de forma alguma dândis que só frequentam a alta roda, bebem uísque de rótulos azuis, vão ao teatro em vez de cinema, tomam chá na ABL e discutem Cancline e Elias. Em breve escreveremos sobre zoológicos, provavelmente portenhos. Porque vocês, leitores vorazes que adoram fazer comentários adequados, espertos e marotos, já sabem: a gente escreve a vida e programa a coluna. E eu odeio usar terno, apesar de ter usado na história desta semana.
André

Comentários Enviados
André em 02 de agosto de 2006
Oká, oká, um dia eu fui um estudante bêbado e imaturo. Não sou mais (apenas) estudante, nem bêbado.
Será que restou a imaturidade?
E por que diabos vocês não se identificam ao deixar comentários?
c13h9o11 em 02 de agosto de 2006
Andre,
se metade das calouras q vc chamou de piranha gratuitamente, leêm isso....
Marina G em 28 de julho de 2006
No meu caso a ausência de uma reclamação é encarada como elogio: meu namorado nunca elogiou uma roupa minha (aliás, apenas uma que eu não gostava e só usava pq era presente). As minhas amigas já chegaram a querer fazer uma vaquinha e me dar um armário novo de presente. Acostumei.
Jaime em 28 de julho de 2006
Té que cês dois não escrevem totalmente mal, não. Mas aposto que tomam chope um pouco melhor. Pago pra ver!
Quer dizer, pago porra nenhuma. Vocês pagam. Eu só vejo.
Pin em 27 de julho de 2006
Definitivamente vc não precisa se preocupar com a roupa que vai usar. Vc não precisa ficar linda, vc é linda! Linda por fora e uma pessoa maravilhosa por dentro.
Júlia em 26 de julho de 2006
Josy, é assim mesmo! comprei um vestido desses outro dia e o pior, nenhum comentário! ainda bem que as amigas de trabalho (sempre as mulheres!) falaram do meu vestido novo. e viram como era bonito o meu laço de bolinhas! hahah na segunda vez de uso é que tive que perguntar. a resposta? "ah! eu adoro suas roupas"... não queria ouvir isso! queria saber sobre O TAL vestido...
Elogios são sempre bem-vindos, meu caro André!!!!!! isso pode salvar um relacionamento...
Adoro a coluna!! beijos nos dois
Mila em 26 de julho de 2006
Pegando o gancho dos comentários da outra coluna:
A josy tava gata!
E o cigarro da Miucha, vcs nem ligaram...