Clique aqui para entrar na Página Principal do Portal
Veja os sites do Portal
Conheça nossos parceiros
topo
Projeto K | 05 de julho de 2006

Acontece com muita freqüência. O André chega do trabalho com uns cartões que dão desconto, ou entrada grátis, para alguma peça da cidade. A gente não aproveita 80% deles, é verdade. Mas no domingo eu lembrei de um que chegou há eras e que a peça ainda estava em cartaz. “Projeto K”, no Maria Clara Machado, uma “livre adaptação das obras de Kafka”, era assim que eles se definiam.

Não sei o que fui esperando. Não fui esperando nada. Aliás, fui esperando apenas que me sentasse na cadeira errada. Porque eu sempre faço isso: só eu, no mundo, tenho a invejável capacidade de me sentar no pior lugar de um teatro ou de um cinema, mesmo quando ainda existe uma infinidade de lugares vazios na sala. E tudo ficou ainda mais confuso quando vi que o teatro era uma arena. Muita informação para processar... Sentei errado e só tomei coragem para mudar de lugar segundos antes do início da peça. Foi quando a paciência do André começou a apresentar sinais de desgaste.

Mas não era sobre isso que eu queria falar. Era sobre a peça mesmo. Muito do que foi apresentado me pareceu se basear em “O processo”. E tudo estava me interessando. Alguém que é processado e não faz a menor idéia de por que vai ser levado a julgamento. E que a cada tentativa de defesa, mesmo sem saber o motivo daquilo tudo estar acontecendo, se sente mais culpado.

Estava tudo ótimo. Eu e meus devaneios sobre culpa, angústia e remorso estávamos indo muito bem, quando piscou uma luz vermelha no meu cérebro e eu resolvi olhar para o lado. Para dar uma conferida no André. Pensei logo que se eu estava gostando, ele deveria estar detestando. Porque é sempre assim, a gente não concorda em nada. Quando o filme se arrasta por longas horas e eu começo a olhar o relógio, tenho certeza de que ele está amando. Assim foi em “Flores partidas”, do Jim Jarmusch. Não peguem esse filme na locadora, por favor.

Foi só pensar nisso que o assunto virou uma espécie de fixação durante os 67 minutos de peça (esse tempo de duração foi um chute). Eu queria muito ter alguém do meu lado só para apostar que ouviria uma crítica negativa do André assim que acabasse. E não deu outra. “Achei fraco”, foi o que ele disse já no carro. “Isso não é exatamente uma novidade para mim“, pensei. “Gostei mesmo da mensagem de boas vindas com a voz do Miguel Falabella, no início”, confessou o moço, tempos depois. “Ei, eu também gostei disso!”, pensei de novo.

Pois é, os 67 minutos de fixação sobre as nossas discordâncias foram pelo ralo. Quando você pensa que já viu de tudo no seu relacionamento, vem uma mensagem do Falabella e te puxa o tapete.

seta Josy


O mais bacana de ir ao teatro no Rio é escutar aquela mensagem de boas vindas do Miguel Falabella. Portanto, como critério para escolher uma peça, tanto vale sua possível qualidade quanto o órgão responsável pelo teatro. Porque apenas os teatros da prefeitura trazem o vozeirão do Falabella. E ele faz questão de repetir o nome de todos os 10 teatros, 8 lonas culturais e, se minha memória não me deixa na mão, os 5 teatros de Guignol de administração municipal.

O conteúdo da mensagem não tem nada demais, mas sua entonação divina atua em mim como um passaporte para uma nova dimensão. Estou no teatro, caramba!

Era assim também quando eu era criança e escutava os três "bannnn" avisando para aquela cambada mal-educada a hora de se sentar. Vai começar, pensava, idolatrando cada um dos atores e me imaginando lá, um palco e quatro tons mais alto que os pobres mortais da platéia. A voz do Falabella, hoje, além de ascender aos céus aquele espetáculo, serve para impor a civilidade que cabia apenas ao "bannnn" no passado.

Mesmo assim, mesmo com tanto apreço, o teatro para mim e para a Josy acaba sendo apenas uma variação entre um cinema e outro. E, como vimos um filme no sábado (o ótimo "O Corte", do Costa Gavras, uma história cômica sobre a questão do desemprego na França), resolvemos atacar de teatro no domingo. A peça escolhida foi "Projeto K", no Teatro Maria Clara Machado. Da prefeitura.

A peça se inspira na obra de Franz Kafka (tem muito de "O Processo" ali) e, como o escritor checo, questiona família, trabalho, escola e religião. Questiona também o possível autoritarismo da Justiça sobre o homem, mas não reflete sobre a Justiça ser uma forma criada para solucionar o possível autoritarismo do homem.

Encenação bacana e texto fraco e óbvio, não curti muito. Josy, do lado de lá, gostou. A discordância, acredito, pode mostrar um tanto da personalidade de cada parte do casal. Josy acredita no senso natural de justiça do homem; eu não. Ela diz não acreditar em Deus, ou nada parecido; eu não só acredito, como acho impossível alguém não acreditar. Deus e justiça tem tudo a ver, espero que vocês, leitores capazes, compreendam.

Desta forma, nada pode ser mais divino e injusto do que "A prefeitura do Rio, através da Rioarte, administra... bom espetáculo" dito pelo Falabella numa sala escura - mesmo servindo como instrumento de civilidade. Eu só consigo entender "A prefeitura do Rio quer que vocês calem a boca e gostem da peça". A frase chega a dar arrepios e, no último domingo, provocou em mim sensações que "Projeto K" não conseguiu.

seta André



seta Comentários Enviados
Andy em 10 de julho de 2006

Vamos deixar claro: a gente sabe que "todas as quartas" não tem crase.


Andy em 07 de julho de 2006

Pelo "Data maxima venia", vê-se que o Marcos é advogado. E, como bom advogado, acredita cegamente na instituição do Poder Judiciário, como um Poder mesmo, com P maiúsculo e tudo. Deve ser ateu, até.

Mas, bem antes de qualquer contrato social, toda a moral que eu e você vivemos hoje era baseada nas leis de Deus. Aliás, nossa moral hoje é baseada nas leis de Deus. O que move nossa consciência é nossa cultura religiosa. E é sobre isso que eu me refiro.

No mais, muito prazer.


Marcos em 07 de julho de 2006

Data maxima venia, Justiça e DEUS nada tem a ver!!!! Justiça sob o prisma de Poder Judiciário é o homem julgado pelo homem ... se foi sob este prisma que se referiu a Justiça, nao tem a menor conexão entre uma coisa e outra, André!


Celso em 06 de julho de 2006

"O Corte" é genial, vou procurar saber mais sobre esse Projeto K


ARQUIVO DA COLUNA
© 2006 Casa da Matriz Produções Ltda | Todos os direitos reservados | Todas as mensagens enviadas pelos visitantes do site são de responsabilidade dos mesmos
Todos os preços estão sujeitos a alterações sem aviso prévio