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Amir | 02 de agosto de 2006

O Amir, aquele restaurante árabe em Copacabana, é um dos poucos lugares da cidade onde se pode comer bem, muito bem, sem ter que desembolsar uma grana. Tipo assim: come um imenso prato de Shawarma, para duas pessoas, e gasta só uns R$ 30. O Falafel também é ótimo, mas mantenha uma certa distância dele se você morre de saudades de Israel, assim como eu. O do Amir é igual aos que são feitos por lá e eu acabo virando uma nostálgica chata toda vez que peço um. O mais importante, porém, ainda não foi dito. Depois de uma reforma que, acho, rolou há mais de um ano, o Amir virou amigo dos fumantes e, conseqüentemente, meu amigo também. A varanda do novo segundo andar da casa é fenomenal. Posso definir aquele espaço como tudo aquilo que um fumante, logo depois de comer, deseja para a sua vida.

Eu sempre fui uma fumante tímida e culpada. Fumar, para mim, é quase um exercício físico. Tento de todas as maneiras manter o braço esticado, longe de tudo e todos (até de mim!), para não incomodar ninguém. E, desde que aquela lei de não poder fumar em lugares fechados entrou em vigor, me sinto uma criminosa. Uma criminosa que sempre pensa duas vezes antes de escolher um lugar para jantar. Se o restaurante não tiver uma área aberta e ainda exibir um cartaz laranja e preto afixado na parede lembrando que não se pode mais fumar em lugares fechados, prefiro nem ir. Tudo isso, como vocês podem perceber, já poderia ser definido como “um problema na sua vida”. No meu caso, um problema muito maior desde que o meu namorado resolveu se engajar na campanha “morte aos fumantes”.

Foi no Amir, inclusive, que eu e o André demos início a uma pseudo-briga por causa disso há muito tempo atrás. A moça da porta perguntou onde gostaríamos de nos sentar e eu fui logo respondendo que o melhor lugar era a varanda. Recebi um carão do André, que não demorou nada para sacar a minha estratégia. Pouco depois, claro, veio o sermão do rapaz sobre os males do cigarro. Céus... Mas o Amir foi o programa escolhido para o sábado passado. Até porque os afazeres de sábado foram tantos que não tivemos tempo de almoçar. Quando pisamos no restaurante, eram sete da noite e o almoço já havia se transformado em jantar. O prato escolhido foi Lingüiça libanesa Makanek, que não vale tanto quanto o Shawarma, mas também não faz feio.

Eu ainda descobri outro produto da casa que não faz feio. Depois de encher a cara de comida, apelei para a narguila com fumo de maçã, para não ter que encarar a cara feia do André por causa do meu cigarro. O aluguel do imeeenso acessório custava R$ 25 (vale, garanto) e eu pude, enfim, compartilhar um fumo com o meu par (sem gracinhas com “compartilhar um fumo”, por favor). Ele não teve problemas com a narguila e eu entendi aquilo como um “vai, eu cedo, não quero te encher o saco por causa da fumaça. Vou, inclusive, fumar com você”.

E foi assim que eu lembrei de um livro do historiador Philippe Ariès que eu li há pouco tempo, em que ele aponta o velho ideal de casamento, do casal unido até a morte, como uma sentença de prisão perpétua em vigor em pleno século XXI. Um pensamento que faz todo o sentido: a morte, antigamente, costumava chegar muito mais cedo do que hoje e uma “vida inteira juntos”, com todos os desentendimentos, pequenas brigas e dificuldades para ceder, certamente durava muito menos tempo. O que eu tenho a dizer é que Ariès, apesar de ser um autor fantástico, provavelmente não conhecia a narguila. Nem qualquer outro mecanismo de convivência de um casal.

seta Josy





Sete colunas depois de começarmos a relatar pequenos detalhes do casal neste portal, eu e Josy conversamos, hoje, sobre a possibilidade de encerrar a "Não nos arrependemos daquele sábado" precocemente. Mas não confundam ficção e realidade em sua mais profunda essência, por favor: o namoro vai bem, obrigado. O motivo seria uma talvez exagerada exposição. E se você, José, sagaz leitor, colocou-se como objeto de nossa dúvida, parabéns pela perspicácia, é de você mesmo que estávamos falando.

Neste espaço, nós descrevemos alguns programas de nosso cotidiano para alguém como você, que nada tem a ver com isso. Só que eu encaro tudo o que escrevo como ficção, mesmo aquilo que tenha sido gerado como sombra próxima da realidade. Assim, por mais que eu possa estar me expondo, ignoro haver vários como você, vários Josés lendo isto aqui. Seus motivos para nos lerem são variados: acaso, curiosidade pela vida alheia, curiosidade por um pretenso texto razoável, tara pela foto da Josy... Não importa. Não é a realidade e você continua desconhecendo o que a gente faz da vida.

Não precisa, porém, se desapontar com tudo o que já foi escrito até agora. É lógico que vamos aos lugares sobre os quais escrevemos. E é lógico que alguns fatos relatados aconteceram, mesmo que não exatamente tais como foram relatados. Quer um exemplo, José? Eu adoro a comida do Amir. Adoro aquele cordeiro desfiado com arroz marroquino cujo preço é bastante acessível para gregos, troianos, israelenses ou libaneses. Adorei ter ido lá, bebido duas garrafas de vinho e fumado narguila no último sábado com Josy. A gente tem uma capacidade ímpar de conversar sobre qualquer assunto, sejam os planos para aproveitar minhas férias que acabavam de começar, seja o perfil dos tantos Josés que vêm aqui, seja o cigarro que ela fuma e que eu odeio, ou seja a razão de as folhas caírem das árvores no outono (apenas nos países de clima temperado, que fique bem claro).

Agora, José, se eu quisesse escrever uma coluna sobre o Amir (em vez de uma coluna sobre a coluna), eu provavelmente deixaria de lado a comida, os papos agradáveis e a narguila para falar da festa julina que estava rolando na Praça do Lido, em frente ao restaurante árabe. Quando saímos, Josy, serelepe e ébria - mais este do que aquele -, quis fazer de nós o único casal a dançar um forró de cara para o palco, embaixo de chuva, sob o olhar de uma dúzia de barraqueiros desconfiados. Quase deu para ouvir a moça que vendia quentão dizendo "ô, xente, os cabra só tão fazendo isso pra ter estória pra contá".

Pois bem, atendendo à quase previsão da vendedora, a dança da Praça do Lido veio parar aqui, como se fôssemos rebeldes burgueses a fim de se misturar com o proletariado selvagem e perigoso, depois de sair de um restaurante chique. Mas o Amir é ótimo justamente por não ter pompa; não somos donos de meio de produção algum; e continuamos não nos arrependendo daquele sábado. Se eu for contar o fato como ele se sucedeu, vou ter que dizer que após uma música e meia, cortei o barato de Josy porque estava com frio e queria ir embora. Como você pode ver, José, talvez um motivo para encerrar a coluna seja que eu ande chato demais e impeça minha namorada de dançar quando bem entender. Talvez eu também ande metalingüístico demais e nunca tenha havido uma conversa sobre se encerrar precocemente a coluna. Não por acaso, usualmente chamo Josy de José. E vou continuar chamando, pelo menos até a próxima vez que formos ao Amir - o que pode acontecer realmente num sábado ou virtualmente numa quarta. A gente vai muito ao Amir.

seta André



seta Comentários Enviados
Mariana Belmont em 06 de agosto de 2006

André, a amendoeira da minha rua está totalmente pelada, rs rs rs.


André em 03 de agosto de 2006

Por favor, gente, continuem gastando dinheiro com os colunistas citados abaixo. Meu salário depende disso. ;~)


Chauncey em 03 de agosto de 2006

Quando leio a coluna de vocês, me pergunto: pra que se gasta dinheiro com tantas Marthas Medeiros e Arnaldos Blochs, meu Deus?

parabéns!


Bruno Trink em 02 de agosto de 2006

Come o falafel do Narguila Café, ali na Ronald de Carvalho, que também é muito bom. Nada como o Shwarma do shopping de Beer Sheva que eu comi há umas duas semanas... (Só pra te botar inveja!!! hehehehe)

E me faz um favor: não fuma mais no Amir não! É muito caro! No Narguila acho que está R$15 e, mesmo assim, é caro. Nem estou pretendendo fazer propaganda não!
Ou melhor, até estou, mas do meu irmão. O Fernando está vendendo narguilas e tudo que diz respeito a elas. Vale muito mais a pena, até porque você disse que gostou. Ou então vai fumar comigo em frente a Matriz qualquer dia desses! ;)


Veronica em 02 de agosto de 2006

Ótima mesmo. Por favor, não matem precocemente uma das boas coisas da vida, em pleno séc XXI. Vocês escrevem muito bem. Não dêem o braço a torcer para invejosos anônimos. Beijos e boa sorte ao casal 20!


LHA em 02 de agosto de 2006

Como não se sabe o que é realidade ou ficção, não sei se o André está de férias realmente e nem se a Josy é realmente judia, mas sei que a coluna é ótima.


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