Cassino Buenos Aires | 30 de agosto de 2006
Você e seu namorado discutem por alguns minutos. É apenas uma pequena discordância. Ele acha que a mulher do filme "Tenha fé" é Gwyneth Paltrow e você insiste que não. Aliás, você tem certeza que não. Mas nada no mundo faz com que ele confie na sua palavra. Teimosamente, o rapaz resolve pesquisar na internet para confirmar. E descobre que você estava certa. Não conheço muitos espíritos elevados por aí que não sintam um prazer quase sádico em momentos como esse. É ótimo poder mandar um "eu tinha razão", nessas horas. Comigo funciona um pouco diferente: sou tão sórdida que faço questão de ficar calada. Eu lanço apenas um olhar de "eu já sabia, você é que não quis dar o braço a torcer. Sinto muito".
Eu adoro esses momentos do olhar "eu tinha razão". A nossa ida ao Cassino Buenos Aires, em Buenos Aires, me proporcionou vários deles. De início, tenho que contar que o André começou a implicar com o programa desde o primeiro dia de viagem. As nossas noites na Argentina já tinham sido dedicadas a um restaurante de comida afrodisíaca, a uma boate louca e a um show de uma cantora amada pelo André (e não por mim), quando apareci com a idéia do cassino. Qual era o problema de ir a um cassino com entrada e drinques grátis? "Todos", dizia o André.
Bem, um problema surgiu logo na ida. Sabíamos apenas que o cassino ficava em Puerto Madero. Fomos seguindo as placas que tinham indicações bizarras como "Cassino Buenos Aires. 5'". Talvez elas quisessem dizer "Cassino Buenos Aires, ande por 45 minutos no frio e um dia, quem sabe, você chega lá". Foi assim que descobri que o André, assim como eu, cultiva o hábito do olhar "eu bem que te avisei". Ele mandou vários deles no longo caminho de ida. A noite parecia fadada ao fracasso. Mas, para a nossa felicidade, foi o único contratempo. E eu recuperei a posse dos olhares "eu tinha razão" a partir de então. Alguns exemplos:
André deixou os cupons que davam bebidas grátis na bolsa, que, por sua vez, tinha que ser deixada em um guarda-volumes. A minha pergunta veio quando estávamos sentados no bar do cassino: "Vamos beber! Cadê aqueles tíquetes?". Resposta: "Esqueci na mochila, mas eles não devem valer muito mesmo. Deixa isso para lá". Meu argumento: "Eu acho que a gente deveria pegá-los". O argumento dele: "Eu acho que não". A minha pergunta para o garçom: "Moço, o que valem os cupons de bebida grátis?". Resposta do garçom: "O que vocês quiserem, pode ser uísque, champanhe, cerveja...".
Resolvemos comer. "Deve ser tudo muito caro aqui", diz André. "Acho que não, todos os bares e restaurantes da Argentina são mais baratos que no Brasil", respondo. "Duvido", diz André. "Então dá uma olhada no cardápio". Sanduíches por oito pesos, muito mais baratos do que qualquer um poderia imaginar.
O cassino tinha um clima engraçado, com velhinhas jogando em duas máquinas de jackpot ao mesmo tempo e pessoas mais eufóricas que o habitual. Jogamos, perdemos, recuperamos e saímos de lá 15 pesos mais ricos, o que pagaria nosso táxi de volta. Foi quando me senti confiante para o confronto: "Pode confessar, esse programa foi muito legal. Muito melhor do que alguns outros que já fizemos". "É verdade, você tinha razão", foi a resposta. Poderia ser o meu ponto alto da noite, mas lançar um olhar de "eu tinha razão" não tem a menor graça quando a pessoa concorda logo com você e reconhece que você estava certa. Tenho que começar a usar essa tática também.
Josy
Sai a luxúria do Te Mataré Ramirez, entra a cobiça do Cassino Buenos
Aires, e esta coluna periga virar uma coletânea de histórias sobre os
pecados capitais. Desta vez, porém, o pecado não foi nosso, mas dos
frequentadores do cassino. Josy e eu, definitivamente, não temos
vocação para o jogo. Pelo menos para aquele tipo de jogo.
Já os velhinhos que lotavam o cassino eram diferentes. Pareciam,
acreditem, caçadores. Tinham olhares de caçadores e se movimentavam
com a mesma tensão dos caçadores, silenciosos e solitários atrás de
uma presa. Alguns ocupavam duas máquinas de jackpot, apertando botões
ou puxando alavancas quase simultaneamente. Outros bebiam uísque, com
olhares escuros e inexpressivos, enquanto apostavam na roleta.
Havia um quê de esperança e outro de depressão naquelas pessoas. Não
era mera diversão. A Argentina passou por um período de recessão
recentemente que ainda se reflete nas ruas e na atitude do povo. As
grandiosidades da Avenida 9 de julho, uma das mais largas do mundo; do
Teatro Colón, provavelmente o maior da América Latina; ou do Museu
Nacional de Belas Artes, com um acervo invejável, ainda estão lá, para
todo turista ver. Mas um outrora orgulho - e até soberba - que
caracterizava os portenhos deu lugar a um tom ranzinza ao lidar com o
mundo.
Há uns dez anos, um morador de Buenos Aires diria para um turista
brasileiro "temos uma cidade linda". Hoje, eles dizem "temos uma cidade
linda, cabrón", sem nenhuma provocação anterior. Ah, "cabrón" não é
boa coisa, vocês podem imaginar.
Um daqueles caçadores de níqueis do cassino, por sua vez, diria "não
preciso deste dinheiro, cabrón, só quero me divertir", mas na
realidade eles aparentavam uma esperança mágica de mudar de vida. Talvez seja assim em qualquer cassino do mundo - eu passei uns
dias em Las Vegas há uns anos e ganhei uns dólares - mas o Buenos
Aires tem um detalhe a mais que ajuda a corroborar minha opinião.
Como são proibidas casas de jogos de azar na capital argentina e
permitidas no resto do país, o Cassino Buenos Aires fica num barco
atracado em Puerto Madero. É só atravessar uma pontezinha e arriscar a
sorte, numa das brechas mais absurdas que eu já vi numa legislação: o
mar é federal, não municipal, portanto o jogo ali é liberado. Mais
deprimente, impossível.
Não ficamos muito no Cassino Buenos Aires, justamente porque aquele
ambiente me incomodou. Estraguei o programa e fiz com que Josy e eu
fôssemos embora apenas 15 pesos mais ricos e uns 40 minutos depois de
termos chegado lá - levamos mais de uma hora caminhando até o cassino
pela orla de Puerto Madero. Dali fomos para um tal Bar Ramos, na
Avenida Corrientes. Boa cerveja e bom papo com a mulher mais
inteligente que eu conheço foi melhor programa que a cobiça do cassino
portenho. Não tem jeito, o meu pecado capital preferido ainda é a
luxúria.
André

Comentários Enviados
Luís Henrique em 01 de setembro de 2006
Não é inteligência que elas têm, somos nós que temos amor.
Mariana em 30 de agosto de 2006
as mulheres (quase) sempre têm razão.
André, você está nos matando com essas declarações públicas de amor pela Josy. Mas de inveja, rs.
Mila em 30 de agosto de 2006
Andy, a Josy sempre tem razão!
Godo em 30 de agosto de 2006
É a Téa Leoni! E eu nunca vi o filme pra saber!