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Te Mataré Ramirez | 23 de agosto de 2006

Eu nunca fiz curso de espanhol. Mas quando fui sabatinada pelo André um dia antes de irmos para a Argentina, há duas semanas, até que não me saí tão mal. Era assim: ele me perguntava como se falava uma palavra e eu respondia. Eu sabia "pronto", "longe", "perto", além de muitas outras, e ainda descobri que ele, que estava tirando uma onda comigo por ter feito curso no C.C.A.A., não tinha idéia de como se pedia um hambúrguer em terras portenhas. "Hamburguesa, André. E eu nem precisei fazer curso para saber disso".

Fiquei pensando se a nossa primeira ida a um restaurante, em Buenos Aires, logo que a gente chegou, não teria sido uma pequena vingança do André por causa da história da hamburguesa. "Vamos ao Te Mataré Ramirez? É um restaurante de comida afrodisíaca. Foi a Nina que recomendou" foram as suas primeiras palavras antes mesmo de embarcarmos. Pois é, não tinha nenhum hambúrguer no cardápio do Te Mataré Ramirez. Em compensação, havia opções de entrada com nomes pouco sutis como "Escurre aromas y sabores la tibieza de tu pubis" e pratos principais como "Tu cuerpo se abre como estrella mientras me bebo tu cielo" ou "De labios fundentes y deseo inflamado".

O cardápio do lugar, porém, é só uma das graças da casa. Porque eles fazem muito mais do que apenas servir comida no Te Mataré Ramirez. No primeiro dia que fomos (isso mesmo, fomos mais de uma vez), o show erótico da noite era de marionetes. Com historinhas como a do encanador que come sua cliente e, enquanto está na cama com ela, recebe o marido da moça com um certo, como posso explicar?, prazer. Meu pífio espanhol tentava acompanhar tudo com uma certa aflição e eu imaginava o André sorrindo e pensando: "Vamos ver se você consegue traduzir tudo isso...".

No fundo, qualquer um é capaz de entender um mínimo necessário de qualquer show erótico, mesmo que domine pouco a língua em que ele é falado. Naquele caso, eu só precisava checar as posições dos bonecos e as reações da platéia. Perdi algumas coisas, admito, mas nada que comprometesse a graça do espetáculo. No resto da noite, eu só queria mesmo curtir a decoração do local e a cara de felicidade do André. É impressionante o que cortinas de veludo vermelho, pinturas eróticas espalhadas pelas paredes e saleiros em forma de espermatozóide são capazes de fazer com um homem.

Saímos do Te Mataré Ramirez bêbados de vinho e com uma indicação do taxista que nos levou até lá. "Tentem dar uma passada na praça tal depois de saírem do restaurante. Ela fica bem perto, aqui mesmo em Palermo, e está sempre cheia de jovens à noite", recomendou o moço gentil. Foi o mesmo que nos perguntou, no caminho, se nós tínhamos certeza de que o restaurante que queríamos ir era mesmo o Te Mataré Ramirez e se sabíamos que tipo de lugar era aquele, quando pedimos que ele nos levasse ao restaurante. Acho que a recomendação da praça foi um pedido de desculpas por ele ter feito com que eu me sentisse um tanto devassa com o questionamento sobre o nosso programa.

Se a gente chegou a conhecer a tal praça? Nunca, não me lembro nem o nome. Nenhum dos dois pensou duas vezes quando saímos do restaurante. "Hotel Grand King, moço. Rápido" foi o pedido quando entramos no táxi de volta. E é aqui que termina para vocês, leitores, a nossa primeira noite em Buenos Aires.

seta Josy


Eu já fui católico. Católico mesmo, de ir à missa aos domingos, rezar terço ajoelhado e acreditar que sexo só deveria ser praticado depois do casamento. Também valorizava o pecado, a culpa e o perdão. E eu me confessava. Dom, eu pequei. Como, meu filho? Dom, eu cheguei atrasado na missa. O que mais, meu filho? Dom, eu cheguei atrasado na missa e fiquei desatento, olhando a mocinha sentada na terceira fileira. Estou ouvindo, meu filho, conte-me, sem meias palavras, o que mais você fez?

O Dom sabia. Ele sempre sabia que eu ia contar que havia pecado contra a castidade, sozinho, pensando na menina da igreja. E era um pecado sempre solitário, quando o que eu mais queria, lá no fundo do meu inconsciente herege, era ter pecado contra a castidade acompanhado. E até isso o Dom parecia saber e soltava um sorriso maroto antes de me dar a absolvição. Não peque mais contra a castidade sozinho, André.

E foi exatamente sobre esses assuntos, sexo e pecado, que eu me peguei pensando depois de ir ao restaurante Te Mataré Ramirez, em Buenos Aires. Josy e eu gostamos tanto de lá, que nossas primeira e última noites de férias na Argentina foram reservadas ao tal restaurante, uma recomendação da Nina (colunista deste portal, num papo por e-mail) e da Bruna Surfistinha (ex-garota de programa, em seu blog).

O Te Mataré Ramirez é uma casa que oferece comida afrodisíaca de qualidade, ambiente compatível e shows eróticos variados - assistimos a um de marionetes e a uma esquete de um casal, ambos muito interessantes. Pode-se comer de entrada uma porção de "gritas extasiada mientras pides penetración"; seguida por um "húmeda y turbada te surgen libres oscuros excesos" como prato principal; e, na sobremesa, "tua lengua peregrina en cada borde de mis comisuras". Como prática e prato, a sobremesa é divina, garanto.

Não preciso explicar como o tema sexo foi levado à mesa, porque até mesmo o saleiro era em forma de espermatozóide. Já o tema pecado merece um parágrafo, mas não o leiam esperando grandes diabruras porque os piores pecados são exatamente os mais simples.

São poucos os momentos em que se consegue se aproximar de alguém para pedir desculpas por qualquer erro passado, jurar amor eterno ou quiçá propor uma união mais séria. As idas ao Te Mataré Ramirez me deram dois desses momentos e eu os desperdicei. Um pecado imperceptível, mas crucial num relacionamento. A vida é curta e deve-se aproveitar as oportunidades antes que seja tarde. Pode parecer bobo, mas se você estiver apaixonado por alguém, como eu estou, vai entender. Como na minha época de católico, eu queria que fosse fácil ser perdoado de algum pecado. Dom Josy, eu pequei, estou arrependido, me dê seu perdão.

Dez anos depois do catolicismo e duas semanas depois da primeira ida ao Te Mataré Ramirez, sexo para mim não é mais pecado, mas continuo pecando com outros assuntos e me arrependendo muito. Principalmente quando envolvem a pessoa aí do lado, mesmo em casos bobos como o que relatei. Ah, hoje eu também peco contra a castidade sozinho sem culpa. Mas apenas pensando em Josy, podem ter certeza. Lembrando, por exemplo, da roupa que ela usava e do que fizemos depois de toda aquela comida afrodisíaca. Mi lengua peregrina...

seta André





seta Comentários Enviados
Maria Vargas em 20 de setembro de 2006

Casal, que emoção! ´
Conheci o Te Mataré na minha lua-de-mel. Eu e Belão saímos de lá carregados...sessão de fotos terríveis (do tipo que não dará para mostrar p/ os filhos). Outro dia uma outra coleguinha foi para Buenos e falei:
- Não deixe de ir ao Te Mataré...
Ela foi, escreveu sobre, e tb saiu de lá de porre. risos.
Que saudades dos litros de vinhos que consumimos dos hermanos.
Beijo nos dois.


Nina em 03 de setembro de 2006

Josy e André queridos, gostei de ter dado uma dica certeira, mas o lugar é mesmo ótimo. Rende coluna, boas lembranças, um início de noite memorável... Não sabia era q dona Surfistinha tb já tinha ido... risos
Vou separar umas outras indicações para as próximas férias de vcs. Fui ontem num lugar bem bacaninha.
beijos


Godo em 29 de agosto de 2006

Josy, se vocês brigarem, vamos todos abandonar o Andy na sarjeta para ficar com você!


LHA em 27 de agosto de 2006

Safadões! Vou mandar esta coluna pro padre de Teresópolis e pro Henry Sobel!


Mariana em 26 de agosto de 2006

André, não sei se estou demasiadamente sensível hoje, mas seu relato acaba de me fazer chorar aqui na repol (!). Vocês são um casal lindo. Um beijo aos dois.


Jaime em 24 de agosto de 2006

T'sconjuro... isso de secho é coisa do diabo. Cês ção é permissivo e libidinoso. É iss'q'cês sãum.


Fabi em 24 de agosto de 2006

Ixi, agora fiquei curiosa.... André, qual foi o seu pecado com a Josy? E o que mais recomendam em Buenos Aires? Beijos e ótima coluna.


godo em 23 de agosto de 2006

Já virei fã.


Bruno Trink em 23 de agosto de 2006

Coluna "caliente" hoje, hein?!

Esse papo de espanhol me fez lembrar o primeiro restaurante que eu fui com a minha avó, ano passado, em Madrid, onde eu fiquei com medo de pagar mico ao pedir "la cuenta"...


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