A Casa do Lago | 13 de setembro de 2006
“A Casa do Lago” é o tipo de filme que você tem vontade de assistir assim que acaba de ver o trailer; ou assim que alguém te conta, mesmo que minimamente, sua história; ou ainda quando você descobre que o diretor, Alejandro Agresti, é o mesmo do filme argentino “Valentin”. Rapaz e moça que moraram na mesma casa, em épocas diferentes, trocam cartas sobre seus desejos, medos e idéias. Eles chegam até a se desentender através da correspondência. Primeiro adendo: eles não se conhecem. Segundo adendo: ela vive no ano de 2006 e ele ainda está em 2004.
A tal casa onde moraram os dois (no caso, Keanu Reeves e Sandra Bullock) é, óbvio, a casa do lago que dá título à película. A arquitetura da casa, aliás, é um ponto importante, bastante discutido pelos personagens ao longo das quase duas horas de filme. Mas eu ainda saí do cinema achando a arquitetura da caixa de correio que possibilitava o contato entre duas pessoas em dois tempos diferentes muito mais interessante...
Filme visto e discutido, muitos pensamentos passaram a me rondar. Um deles, o primeiro que me ocorreu, diz respeito ao roteiro do filme ao pé da letra. Um amor entre duas pessoas que vivem em anos diferentes é, basicamente, um amor de espera. Pelo menos para uma das partes. Há combinações fofas entre os personagens como quando eles marcam um jantar para o que seria o amanhã para ela e o que seria dois anos e um dia para ele. Não há como não suspirar.
Mas como o meu cérebro costuma não se contentar com viagens de curta distância, passei a criar novas relações entre o que tinha visto na tela e as minhas experiências por aí. Uma vez, minha avó me disse que eu podia não saber, mas ela conversava comigo o tempo todo, várias vezes ao dia. Eram verdadeiras discussões sobre os mais variados assuntos apenas em seus pensamentos. Foi quando eu me dei conta de que também faço muito isso, principalmente com o André.
Eu posso passar horas tendo uma conversa imaginária sobre um assunto sério do nosso relacionamento com ele, sem precisar trocar uma palavra com o rapaz. O ponto alto disso tudo é que meu discurso imaginário é sempre muito melhor que o da vida real. Eu não gaguejo, eu não me confundo, eu posso voltar atrás quando acho que peguei pesado demais... Já o lado negro disso tudo é que passo a sentir um enorme desencaixe temporal quando o meu parceiro propõe uma conversa sobre aquilo que levei eras elaborando mentalmente. Dá vontade de dizer: “Jura que você quer falar sobre isso? Eu já passei por esse assunto há muito tempo, agora ele é passado para mim”.
E eu ainda poderia propor um último pensamento: não é à toa que nesses casos (no filme e na vida) é sempre a mulher que se encontra no futuro. Mas eu não seria tão tola a ponto de fazer uma afirmação maldosa sobre como as mulheres estão sempre um passo à frente. Ops, acabei de fazer.
Josy
Josy vai me chamar de pernóstico e dizer que tento criar a imagem de um sujeito intelectualizado nesta coluna. Vai ficar, a cretina, me sacaneando com isso durante algum tempo, uma semana provavelmente, mas tenho que tentar explicar algumas coisas antes de escrever sobre "A Casa do Lago", filme do argentino Alejandro Agresti (do ótimo "Valentin") que fomos assistir no Espaço Unibanco. É que "A Casa do Lago" (um remake de um filme sul-coreano) é basicamente uma história de amor, mas há, nela, uma mensagem de exaltação à modernidade impossível de não comentar.
Foi o Anthony Giddens, um tal sociólogo inglês, que desenvolveu o conceito do desencaixe entre atividades sociais e contextos localizados. Para ele, uma das características da modernidade tardia (ele critica o termo pós-modernidade por não acreditar em ruptura no período moderno) é a separação entre o tempo e o espaço na vida das pessoas.
Antes, não havia janeiro, fevereiro, março... Havia tempo de colheita do trigo, entresafra, tempo de colheita da soja... E cada condado, vila, feudo ou aldeia dividia o tempo de formas diferentes. Além disso, não havia relação entre esses condados. Lembram da cena de "O Senhor dos Anéis" em que o Sam diz "se eu der mais um passo, estarei indo mais longe do que jamais fui da minha casa"? E ele está apenas uma estação de metrô distante de sua casa. Não era usual sair para visitar outro condado.
Mas aí veio a modernidade e a forma com que as tecnologias se desenvolveram fez com que se esvaziasse a conexão entre tempo e espaço. Como todos sabem, o dinheiro que se tem no Brasil pode ser utilizado neste exato instante no Japão, sem necessidade de deslocamento espacial.
Oká, oká, todo mundo está imaginando como o chato que escreve este lado da coluna vai relacionar tanta baboseira com "A Casa do Lago". No filme, duas pessoas conseguem trocar correspondência com dois anos de distância. O Keanu Reeves põe uma carta numa caixa de correio em 2004 e essa aparece na mesma caixa em 2006, para a bonitinha da Sandra Bullock ler, apaixonar-se e responder logo em seguida.
O desencaixe proposto por Giddens, que antes acontecia entre espaço e tempo, passa a ocorrer entre o tempo e a linha temporal. A gente manda um e-mail aqui e ele chega em um segundo na Europa, assim como o Keanu manda uma carta em 2004 e ela chega em um segundo em 2006 para a Sandra. Visto assim, é um baita avanço científico, inimaginável hoje como um e-mail poderia ser inimaginável há 200 anos. Seria o rompimento de uma barreira que nem Einstein pensava possível (ele só acreditava na viagem para o futuro, nunca para o passado).
Bem, se eu pudesse escrever hoje uma mensagem para a Josy que chegasse neste instante daqui a um mês, esta seria "não está na hora de parar de me sacanear pela coluna do Giddens?". Porque, chegando ao fim, começo a achar que a diversão em me sacanear vai durar mais do que uma semana. Tempo e Josy são coisas que, definitivamente, sempre surpreendem o intelectual de hoje e o arrependido de ser metido a intelectual de daqui a 30 dias.
André

Comentários Enviados
Marina G em 23 de setembro de 2006
Josy tenho que discordar: o trailler me fez perder toda a vontade de ver o filme. E eu detesto filmes que me fazem suspirar. Preconceito puro, mas nada de Casa do Lago.
Eduardo em 15 de setembro de 2006
André, você cita intelectuais em todas as suas colunas!
Mariana em 15 de setembro de 2006
Ai, Jisuis, esse mestrado (ou é MBA? ou pós?) tá tornando o André insuportável! André, acho melhor vc largar a redação e abraçar a carreira acadêmica. Aposto que deixaria todos os alunos colarem na prova, rs.
Josy, eu sempre, sempre mesmo criei diálogos imaginários na minha cabecinha doida. E, como vc, no imaginário sempre me saio melhor do que na vida real. Acho que (imaginar situações) é uma característica das pessoas introspectivas (não ri, André, eu sempre fui introspectiva, tá?).
Godo em 15 de setembro de 2006
Esse filme tem uma cara de filme com Sandra Bullock... sei não.
André, após citar um filme gay, você tem o direito de aturar todas as gozações da Josy em silêncio.