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Karaokê da Far Up | 06 de setembro de 2006

A coluna está atrasada, mas preciso esclarecer que o nosso programa desta semana foi feito ontem à noite. Aí, com todos os afazeres de quarta-feira, só conseguimos sentar agora para fechar os textos. E o karaokê com música ao vivo na Far Up, na Cobal do Humaitá, só acontece mesmo às terças. Era pegar ou largar. E nós pegamos. Pegamos tanto que chegamos lá dizendo que só íamos assistir e fomos flagrados no meio da noite com microfones na mão.

A indicação veio de uma amiga minha que vai lá todas as terças e que faz questão de cantar muitas vezes em uma só noite. Acontece que até as regras do karaokê da Far Up são simpáticas. Você pede para cantar uma música e só pode voltar ao palco depois que todo mundo que ainda não cantou se apresentar. Muito justo, não? Mas a minha amiga desejava burlar as leis da casa. Disse que se colocasse o pedido no meu nome, poderíamos subir as duas no palco e eu nem precisava cantar, só para que ela pudesse se “reapresentar” antes do esperado. Ela já tinha cantado “Summertime”.

Como eu raramente consigo dizer não para essa amiga (o poder de persuasão dela é incrível), topei. Ela queria cantar “Maria, Maria” e eu peguei o cardápio e bati o olho em “Vamos fugir”. Queria cantar “Vamos fugir”. Sim, porque neste momento eu já estava decidida a soltar a voz e não ser apenas uma figurante. Depois de uma velhinha que errou todos os tempos de “Amor, I love you” e de outra que arrasou cantando “La Barca”, me senti confiante. Uma segurança nem tão segura assim, se você lembrar que o meu desejo era subir no palco já dizendo para as pessoas que eu queria fugir. Vai entender...

Três uísques depois, ouvi meu nome sendo chamado pela boa moça da banda e subi no palco perguntando se poderia mudar de música. “Quero que vá tudo para o inferno”. “Claro, manda ver”. Era o meu momento. O momento de alguém que morre de vergonha de apresentações públicas e que naquela hora achava melhor não encarar ninguém enquanto cantava.

“Um, dois, um, dois, três e... De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar”. Soltei a primeira frase e incorri em um erro primário: olhei para o André. Avistei o moço tapando os olhos com uma mão e fazendo o sinal de negativo com a cabeça. Parei de cantar tão perto do microfone (para que ninguém mais ouvisse a minha voz) e continuei firme (com o rosto pegando fogo de tão vermelho, mas firme). Eu estava vivendo meu inferno pessoal.

Saí do palco com poucos aplausos e me lembrei daquela cena de “O Casamento do meu melhor amigo”, em que a Cameron Diaz canta “I just don’t know what to do with myself” com a voz mais desafinada do mundo e é aplaudida de pé. Não foi o que aconteceu comigo, mas o André veio me abraçar todo feliz e disse que ia cantar também. Foi então que decidi perdoá-lo por ter sido o fator-provocador de toda a minha vergonha no palco. Ele cantou “Louras geladas”. A voz era péssima, mas a performance era dez.

O cara seguinte ao André cantou “É o amor” e eu comecei a achar que aquilo era um sinal. Mas eu já estava bêbada mesmo e qualquer coisa para mim poderia ser um sinal. O que importa é que eu pude, enfim, dançar “É o amor” de rostinho colado. E pude ouvir ao pé do ouvido “Eu sou o seu apaixonado de alma transparente / Um louco alucinado meio inconseqüente / Um caso complicado de se entender”. Performance dez, mais uma vez, André, performance dez.

seta Josy


Quando penso em karaokê, lembro do Encontros e Desencontros, simpático filminho da Sofia Coppola. Sabem a hora em que a Scarlett Johansson apresenta “Ladies and gentleman, mister Bob Harris” e o Bill Murray solta a voz com “More than this” num apartamento cheio de japoneses pirados? A carinha de apaixonada da Scarlett ouvindo ele cantar é uma das melhores cenas do filme. A gente chega a acreditar que “more than this, you know there’s nothing”.

O objetivo de “More than this” é semelhante ao de “Quero que vá tudo pro inferno”, canção escolhida por Josy para cantar acompanhada pela banda Via Brasil, num karaokê ao vivo que rola todas as terças no palco da Far Up, na Cobal do Humaitá. Fomos lá ontem e, por alguns instantes, não consegui aplaudir, pular, cantar... nada. Só consegui olhar para ela mexendo os lábios e dizendo “só quero que você me aqueça neste inverno e que tudo mais vá pro inferno”. Sei que vai parecer coisa de adolescente que gosta de guardar momentos importantes ligados a uma música mas, naquele momento, para mim, não havia nada além disso, garanto.

Mas houve mais no karaokê da Far Up, pelo menos enquanto Josy não subia no palco. Eu também cantei e juro que iria escolher “More than this”, mas não a achei no repertório. Pensei ainda em “Here, there and everywhere”, mas fiquei com medo de tropeçar nos dois versos da introdução. Acabei saindo com “Louras Geladas” e, em vez de “each one believing that love never dies”, “acordei num bordel”.

Fomos parar no karaokê arrastados por uma amiga de Josy, a Ana Eugênia. Ela, a Ana, é uma das que virou fã de carteirinha do lugar. Há dois meses, bate ponto todas as terças, às vezes com amigas, às vezes com o marido, às vezes sozinha mesmo. Diverte-se, dança e, principalmente, canta. Gosta tanto que treina em casa para não fazer feio. Outro dia o marido reclamou, mas ele estava orgulhoso, tenho certeza.

Como a Ana, há outros. Uma senhora vestia um quase-colante vermelho parecido com o da moça estuprada pelo Alex de Large em Laranja Mecânica – se ela cantasse “Singin' in the rain”, eu ficaria arrepiado, mas ela optou por “La Barca”. Outro, o Kadu, usava um terno, provavelmente remanescente do dia de trabalho. Ele gostava de dançar e fazer performances na pista e, na sua vez de cantar, soltou um Sidney Magal com todas as caras e trejeitos possíveis. Kadu tem mestrado em Inteligência Artificial pela Unicamp e freqüenta as terças da Far Up há três anos.

Por essa galera, duas conclusões foram inevitáveis: pagar mico é uma prática social e toda frustração tem cura. Porém eu estaria sendo injusto em não considerar que há outras formas de diversão além de se sentar numa mesa de bar para encher a cara e discutir a formação da cidadania brasileira (meu programa predileto). E a ótima banda Via Brasil - formada por vocal, teclado, baixo, bateria e guitarra - é um tanto responsável por transformar um programa aparentemente brega numa noite divertidíssima. A vocalista, Patrícia, incentivava os cantores amadores, mesmo os sofríveis. E o tecladista, o Giroto, dava um show à parte com cabelos longos, cara de índio – dos malvados, que querem escalpelar alguém - e um olhar reprovador para aqueles ruins de gogó. Conselho: arrisquem-se no palco e percam alguns segundos prestando atenção no tecladista.

Ah, a Josy canta melhor do que eu, mas ainda assim canta mal. Só que eu não posso reclamar. Na primeira vez que dançamos, nem namorávamos e ela teve que me aturar, bêbado, cantando em seu ouvido “levei o meu samba pra mãe de santo rezar, contra o mal olhado eu carrego meu patuá”. Com tanta música para acompanhar, querem mais motivos para entender por que eu acredito que este namoro tem tudo para dar certo?

seta André




seta Comentários Enviados
Rachel em 12 de setembro de 2006

Lindos!!


Mariana em 11 de setembro de 2006

Cantarei "My heart will go on" no karaokê, ahahha!


Bruno Trink em 11 de setembro de 2006

É impossível ir a um karaokê e não cantar. Parece até verso de "Te Ver", do Skank, mas é a mais pura verdade. Ainda mais depois de beber umas e outras. O fato é que foi assim que eu descobri que amava cantar. E outro fato é que eu tenho que voltar uma terça dessas lá na Far'Up...


André em 08 de setembro de 2006

Caramba, eu tinha me esquecido completamente disso... Memória seletiva é foda!


Daniela em 08 de setembro de 2006

Para quem já cantou "Eclipse Oculto" no palco de um shopping em Araruama, essa de ontem deve ter sido moleza, né, André?


Godo em 08 de setembro de 2006

Deu até saudade do André agora.


André em 08 de setembro de 2006

Ana Rosa, Josy tem muito futuro como cantora.

Luís, seu comentário merece o prêmio most-fofo-comment-of-all-sábados! Deixou-nos sensíveis também, garanto.

Ada, você ainda está bem longe de se enquadrar em qualquer categoria de "velhinha"!


ada em 07 de setembro de 2006

Adorei a coluna de vocês. Só fiquei tensa quanto à idade da "velhinha"...rs


Luís Henrique em 07 de setembro de 2006

Já não sei o que é maior, se meu amor ao casal Andy-Josy ou se meu amor à coluna. Mas a minha grande certeza é que vocês são ótimos: nas letras, no amor, na escolha de vinhos - tomei ontem o Cave-, na amizade etc. É, estou sensível, muito por outros motivos, mas um pouco pelo texto de vocês. Beijos, Luís


Ana Rosa em 06 de setembro de 2006

Não acredito que eu perdi isso!! Gostei da escolha musical, Josinha....


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