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Loud! na Estudantina | 27 de setembro de 2006

Nunca tinha entrado na Gafieira Estudantina. Quando o espaço passou a receber festas alternativas - agora é Nova Estudantina – achamos que já era hora. Acredito até que a idéia de irmos lá neste fim de semana foi dos dois, minha e do André, sem que precisássemos sequer falar um com o outro sobre o assunto. Era Loud!, com show do Frank Jorge, do Graforréia Xilarmônica. A idéia soava perfeita para ambos. Ótimo sinal de que temos mais coisas em comum, além de sermos piscianos, termos nascido no mesmo mês e no mesmo ano e sermos jornalistas, como apregoa a nossa chamada nesta coluna.

Cheguei a me sentir culpada porque o André achava que a festa era na sexta, o mesmo dia do jantar de ano novo judaico, compromisso familiar anual que me custaria um fígado se eu ousasse não aparecer. O cenário pós-jantar tradicional/religioso de sexta-feira tinha como protagonistas um casal de namorados quebrados. Foi assim que desistimos do programa. Qual não foi a nossa surpresa quando no sábado, procurando o que fazer à noite, abrimos o jornal e estava lá, nos tijolinhos do Segundo Caderno: Loud / Nova Estudantina / sáb / a partir das 22h / R$ 20 / 18 anos. Ufa...

Fomos. Chegamos lá às 23h e estava vaziiiio. O que por um lado foi ótimo porque deu para ver bem o lugar. Lindo, escuro e com uma foto da Daniella Perez na parede. O que por outro lado também parecia ótimo porque poderíamos fofocar. A gente adora fofocar. O único problema era que, enquanto rolava um som indie do DJ Edinho, nossas fofocas simplesmente... não aconteciam. Tudo bem, nem todo dia é dia de fofoca.

Estávamos quase desistindo de falar da vida alheia quando, na pista de dança, avistamos um casal de conhecidos que, até então, não sabíamos que formavam um casal, no sentido amoroso da palavra. Entendam: acontecia a descoberta de um novo par na praça. André me cutucou. Era uma ótima fofoca. Mas que me fez viajar para um tanto longe dali.

Comecei a pensar em como inícios de relacionamentos são sempre mágicos. É claro que sei que há inícios trágicos, mas sempre que lembro dos primeiros dias (ou meses) deste namoro que hoje pode ser acompanhado por desconhecidos (e conhecidos) como um Big Brother virtual, passo a achar que todos os inícios de relacionamento são mágicos.

A surpresa da primeira ligação; as horas que você gasta pensando em uma maneira inteligente e fofa de responder a um e-mail bobo; os papos na primeira saída; a certeza de que falou algo ridículo quando já tinha tomado alguns chopes a mais no terceiro encontro; o medo de que, a partir da coisa ridícula que você falou, ele desista de você; a felicidade suprema em encontrar um e-mail, no dia seguinte ao chope do terceiro encontro, com duas perguntas simples ("Dormiu bem? Vai poder me ver hoje de novo?"); o dia em que ele usou a frase "eu não me arrependo daquele sábado", que deu origem ao nome desta coluna... Lembrar das coisas que fizeram parte do início do seu namoro dá uma saudade incrível.

O jeito é não esquecer de tudo isso e, no meio da pista de dança, dar um beijo no seu namorado como se fosse a primeira vez. Ao som de "Amigo punk", sendo tocado por Frank Jorge, uma das músicas que mais me lembram o nosso início. Leiam a coluna do André aí do lado e vocês verão o resultado.

seta Josy


É sábado e o salão da Gafieira Estudantina está vazio, talvez porque chegamos cedo demais, talvez porque pouca gente no Rio curta o gaúcho Frank Jorge. É estranho ouvir um bom rock num ambiente de gafieira. Ainda nem é meia-noite, o show está longe de começar e Edinho ou Tulio - está escuro, não consigo ver bem qual DJ é o responsável pelo som no momento - toca I Can't Explain, do The Who, enquanto uma mulher e um homem se esforçam para colocar um filtro roxo entre a lâmpada fluorescente e o salão, provavelmente para criar um clima.

A cerveja Itaipava é vendida em garrafa, a R$ 3. A Itaipava tem um dos melhores custo-benefício entre as cervejas brasileiras: não é cara e definitivamente não é ruim. Compro cinco tíquetes de uma vez porque sei que vou usá-los. Adoro beber cerveja em garrafa porque elas duram mais e costumam ser mais geladas do que as em lata ou long neck. Além disso, não está tão quente como pode ficar num lugar de teto baixo como a Estudantina, mas faz calor no Rio.

Josy toma uma caipirinha de limão, das mais simples, certamente pior do que as de morango que eu faço. O salão continua vazio, mas chegam uns sujeitos todos animados vestindo roupas pretas e usando adereços coloridos berrantes. Os roqueiros no Brasil têm que se vestir de preto, por um motivo que ignoro. E os roqueiros indies têm que se vestir de preto com adereços berrantes. Josy não usa adereços berrantes, tampouco roupas coloridas muito chamativas. Já eu tenho um relógio vermelho, que utilizo tanto para correr na praia, para trabalhar ou para dançar na Gafieira Estudantina.

O salão vazio, as pessoas de preto e um quadro enorme da falecida Daniella Perez dão um ar mórbido e interessante ao ambiente. Um garçom começa a dançar ao som de uma canção que nem eu conheço. É justamente o ambiente, tenho certeza, o responsável por deixar o clima entre Josy e eu estranho. Minutos de silêncio, um olha para a direita, outro para a esquerda. Não há razão aparente, não houve discussão anteriormente, só pode ser culpa da morbidez do ambiente. O salão vai enchendo, não tem bolero, samba ou soltinho, mas os casais vão se formando e dançando de um jeito que não se fazia em 1932, quando a Estudantina foi inaugurada.

Só quero assistir ao show do Frank Jorge, ouvir as músicas do saudoso Graforréia Xilarmônica, dançar "Amigo Punk" e depois ir embora. Não quero olhar para a direita enquanto Josy olha para a esquerda. Gosto da festa, a Loud!, e gosto do presente, não do futuro, muito menos do passado. Josy sabe disso e resolve resolver. Resolve intercalar as retas imaginárias formadas pelos olhares e me beijar.

O beijo não é nada, nada mais do que tantos beijos que Josy já me deu e tantos outros que ainda vai me dar. Sua mão, porém, faz o favor de garantir que nossos olhares não vão deixar de se cruzar novamente neste sábado. Ela aperta e puxa minha nuca e beija. Passa a mão no meu rosto e beija. Estraga meu penteado e beija.

É sábado, o momento mão e beijo não acaba e esqueço que o tempo passa. Esqueço, também, de conferir se o filtro da lâmpada está bem fixado. O ambiente é mórbido, o clima foi criado, a Gafieira Estudantina fica toda preta a não ser pelos adereços berrantes. Até a Daniella Perez vira um retrato em branco e preto. Mas esqueço tudo isso porque existe o beijo, existe Josy, existe o presente - não o passado, muito menos o futuro - e existe aquele sábado.

seta André




seta Comentários Enviados
Mariana em 09 de outubro de 2006

Definitivamente, cerveja em garrafa é a melhor. bem, eu namorei três anos e meio e manti o mesmo sentimento do inícío até quase o fim. quando acabou, acabou de uma vez... andre e josy estão conseguindo manter a paixão e espero que seja assim por muito tempo, pois vcs são um dos casais mais lindos que já conheci. Só parem, por favor, com essas declarações públicas de amor, pois estão me fazendo passar vergonha chorando na frente dos outros, rs.


Pedro Fraga em 03 de outubro de 2006

Tenho a impressão que vi tal beijo.

Infelizmente, não estou podendo tomar da cerveja gelada da Estudantina. Maldita dieta...


Rodrigo Levino em 28 de setembro de 2006

Meu Deus! Baixou o preto velho da paixão no portal! Curti, deveras. Parece até roteiro de curta-metragem =P


Godo em 28 de setembro de 2006

Essa coluna sempre me comove. Fico muito feliz pelo meu amigo André.


Mila em 28 de setembro de 2006

nossa, como vcs estão apaixonados...


rodrigo em 28 de setembro de 2006

Também estava presente na Loud, e também achei bem proveitosa a noite, pelo lugar, pelo show, pelo ambiente, não estava lotado, a cerveja geladíssima e barata. Definitivamente quero outra Loud na Estudantina. E acho que vcs dois também. Do leitor de toda semana.
Rodrigo


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