O André costuma não levar muita fé nos meus gostos. Foi assim com a comida árabe. “André, vamos comer um falafel?”. “Nunca comi”. “Ai, cara, você vai amar, é uma das melhores comidas do mundo”. “É, é, é, deve ser”. Leiam esse “é, é, é, deve ser” com um tom de deboche e vocês entenderão. A falta de fé dele para com a minha pessoa não fica só na comida: funciona também com música, filmes e pessoas. É até engraçado porque este é, com certeza, seu lado mais ranzinza. Qualquer dia compro um gorro do anão zangado da Branca de Neve e aí, sim, ele estará vestido apropriadamente. Hummm, sexy...
Quando o moço ligou na sexta passada, perguntando o que faríamos naquela noite, falei, com medo da reação, que queria ir na festa Black, aquela que acontece na última sexta de cada mês, na Cinelândia, perto do Rival. André foi mais receptivo do que nunca. “Nasce um novo homem. Onde foi parar o ‘é, é, é, deve ser legal’, em tom de deboche?”, pensei. E todos os argumentos que tinha guardado para convencê-lo de irmos nem precisaram ser ditos.
Mas eu conto alguns deles para vocês: uma das minhas melhores amigas tinha ido no mês anterior e amado, outras duas pessoas tinham falado da festa, era de graça, a cerveja era barata, é sempre bom ir ao Centro, a gente ainda podia dar uma passada no Odeon...
Todos prontos, sexta à noite, programa marcado com a mesma amiga que tinha amado a festa, vambora. Tudo bem, estava cheio. Cheio além da conta. E não tinha galerão dançando no meio da rua como essa amiga tinha dito. Ninguém dançava, todo mundo se espremia. E a gente não conseguia achar a tal amiga no meio da multidão. E o lugar tinha cheiro e poças de mijo, em alguns cantos. E o André já estava com cara de “eu sempre desconfiei dos seus gostos, te dei um voto de confiança e olha só no que deu”. Droga.
Vinte minutos depois da primeira má impressão, eu estava gostando. Na verdade, gostando muito. Achamos a amiga, o namorado dela e a cerveja barata e as pessoas começaram a dançar. Música boa (soul, hip-hop, anos 70), programa democrático, pessoal feliz. Bem, do grupo “pessoal feliz” não faziam parte o André e o namorado dessa amiga. Ela olhava para o André e, tentando consolá-lo, dizia: “pelo menos é um programa para a coluna de vocês...”.
Ela veio parar na coluna, mas, coitada da festa Black, não contou com a nossa presença nem por 30 minutos. Atordoado com o cheiro do churrasquinho, André pediu arrego, acusando até a moça gorda que dançava do nosso lado de estar espremendo-o além da conta. Acabamos a noite com um chope no Amarelinho, onde ele inclusive me acusou (mais uma acusação, notem bem) de ter fingido que gostei da festa Black só para agradar minha amiga. Agora eu quero ver se alguém concorda comigo: o André merece ou não merece o gorro do anão zangado da Branca de Neve? Hummm, sexy...
Josy
Mesmo com vontade de escrever no tempo presente, como na semana
passada, vou mudar o estilo simplesmente porque meu presente não é o
mesmo do de Josy no momento. Para resumir o que será a coluna da
semana que vem e ninguém ficar boiando, este texto começa a ser
elaborado num avião entre Nova Zelândia e Austrália, no dia 3 de
outubro. Enquanto isso, Josy está no dia 2, no Brasil.
A coluna, portanto, passa por momentos inéditos: estamos, Josy e eu,
mais distantes um do outro do que jamais estivemos (literalmente,
nunca metaforicamente); eu escrevo com caneta e papel; e não vamos nos ligar de dois em dois minutos para discutir algum possível erro que um de nós possa ter cometido depois de publicar a coluna.
História relatada, alguém ficou triste? Porque eu estou e nada melhor
do que lembrar de um momento junto para deixar a saudade um pouco de
lado. Mesmo que o momento, uma tal festa Black no Centro, não tenha
sido dos mais agradáveis.
Na sexta antes da minha viagem, fomos para a Rua Álvaro Alvim, onde um sujeito arma uma vez por mês umas caixas de som muquiranas, prepara um churrasquinho e bota um ou outro para dançar. A pândega acontece ao lado da Cinelândia e, não tem como negar, é um sucesso de público. É gente para cacete que fica rodando para lá e para cá numa típica festa de rua. Bebe-se, conversa-se e espreme-se entre um fedor de mijo e uma fumaça gerada pelo rabo do falecido miau queimando. Eu já estava achando tudo insuportável quando uma gordinha parou atrás de mim e lembrou-me, com banhas, que eu tenho asma e odeio lugares lotados.
Mas Josy estava dançando. Ela, sua amiga Fernanda e cinco ou seis
blacks, entre 500 que bebiam, conversavam e se espremiam. Festão, como vocês podem imaginar. Mesmo assim, Josy, aí do lado, vai escrever que a festa é otima e que, na realidade, eu sou racista. É a péssima mania que ela tem de destruir meu discurso com acusações contra meu caráter. E olha que ela faz com uma carinha linda que quase me convence!
Bem, deixando a hipocrisia de lado, é logico que sou racista. Como
qualquer brasileiro, aliás. Mas não foi isso que me fez desgostar da
festa. Não havia ali uma real identidade black. Escutava-se um James
Brown, mas o que a maioria queria mesmo era beber e comparecer à
última-festa-cool-da-cidade. Não dá para curtir uma festa assim, né,
gente? Gerson King Combo e seus mandamentos black concordariam comigo, tenho certeza. Existe o mérito da autenticidade pela forma como a festa surgiu, mas é pouco, muito pouco.
Hoje - termino essa coluna no dia 4, já num computador - entrevistei o Fabio, um DJ inglês negão, parceiro do Grooverider. Ele disse que
começou a fazer drum & bass quando sentiu que a música do New Order
nunca teria a mesma alma da feita pelo Marvin Gaye. Festa black na
Cinelândia? What's going on?
André