Mas, se há alguma vantagem na vida adulta, essa é a maturidade. De um estudante metido a rebelde no curso de jornalismo, passei a um estudante compenetrado, atento e participativo na pós em sociologia. Presto atenção total nas aulas, faço anotações e até me pego lendo um ou outro texto em casa.
Talvez seja um indício de que eu realmente amadureci ou talvez eu esteja apenas valorizando o quarto do meu salário empregado no curso. Pessoas realmente sérias chamariam tudo isso de responsabilidade, tenho certeza. O mais importante é que voltar a uma sala de aula foi uma das experiências mais interessantes pela qual passei em 2006. Não apenas pelo aprendizado, mas também - e principalmente - pelo convívio carteira a carteira com outros alunos.
Eu já sabia, e a pós apenas me fez recordar, que existem três tipos de alunos participativos que fazem a graça de qualquer sala de aula caso se esteja de bom humor. O primeiro é aquele que pergunta exatamente a mesma coisa que o professor acabou de explicar. Parece, apenas, querer afirmar sua compreensão.
O segundo é aquele que traz uma pergunta pronta de casa e não vê a hora de lançá-la no ar. Às vezes - quase sempre - o momento certo nunca aparece e ele interrompe uma explicação sobre o branco para perguntar alguma coisa sobre o negro. Sem preconceito, lógico.
Já o último, o último tipo de aluno participativo que aparece nas aulas, esse é o mais fascinante. É o estudante negação, que gosta de questionar sempre tudo o que o sujeito no balcão diz. Ele nem sabe o que está dizendo, mas tem que discordar. É o mais chato de todos, mas talvez o mais justificável. Porque existe uma relação de poder entre ele, professor, e os alunos. É ele quem fica em pé; domina a lousa, possui a palavra. Para fazermos qualquer uma dessas coisas sem sua permissão, ou traçamos um esboço de anarquia ou estamos apertados para ir ao banheiro mesmo. No primeiro caso, que fique claro, estão incluídas as saídas para atender celular, namorar ou tomar um lanche - situações imperdoáveis na cabeça das antigas professoras repressoras dos colégios normais.
Eu, do meu lado, apenas sorrio. Posso encarnar um ou outro tipo de aluno, mas faço de forma discreta, ligeira, quase imperceptível. Só abro a boca quando acho realmente que tenho algo a acrescentar. Ou quando quero fazer alguma piada. Adoro fazer piadas. As pessoas riem, sou bom nisso. E minha turma de pós é ótima para piadas: tem gaúcho, negro, gay, comunista, conservador, perua... E há combinações pós-modernas de todas essas minorias.
Imaginem uma gaúcha perua gay neoliberal. É muita diversão numa personagem só. E a gaúcha perua gay neoliberal pode, ainda, com a voz grossa e a fala cantada, assumir o papel de aluno contestador, principalmente quando o professor não é neoliberal como ela: "Até a Arlete investe em ações da Vale e tem certeza que se não houvesse privatização, não teríamos uma mineradora de tri-qualidade hoje". É a deixa para a piada. Nada de tomar partido, a não ser o da graça.
Ah, nunca sei se a Arlete é a poodle da perua ou a namorada da gay. Quando eu descobrir, conto para vocês.
André, essa coluna-solo até que está boa, hein?
Isso está engraçado. Muito. Deu até vontade de voltar a UFRN e fazer alguma coisa com a minha matrícula trancada há séculos, rs. No terceiro curso. Dos dois que eu não terminei. Sala de aula é muito bom mesmo.