Queria falar sobre outros assuntos e até cheguei a escrever o primeiro parágrafo de um conto, mas tenho uma história importante e quero compartilhar. Entrevistei o Neil Gaiman essa semana. Ele mesmo, o pai do Sandman. Não contem para ninguém, principalmente para o próprio, mas sou fã do sujeito de longa data. A entrevista deve sair no jornal que paga meu salário qualquer dias desses, portanto não vou perder tempo contando o que ele disse.
Mas vou gastar umas linhas para escrever sobre o Sandman. Para quem nunca leu, aí vai uma pequena sinopse sobre o conjunto de suas histórias, a mais simples e boçal que eu consigo fazer: "Morpheus, rei dos sonhos, vive envolto em problemas para controlar seu reino e lidar com seus irmãos, Destino, Delírio, Desejo, Desespero, Destruição e Morte".
Explicando assim não parece muito interessante, certo? E talvez este seja o maior barato do Sandman de Neil Gaiman. Ele cria histórias fascinantes a partir de uma premissa estranha demais para ser explicada numa pequena sinopse. Tem que ler para entender e entender para gostar, não tem jeito.
Eu li pela primeira vez há alguns anos e demorei para me render completamente a seus encantos. Era um pré-adolescente que comprava qualquer gibi ligado ao universo mutante, quando começaram a pintar por aqui as primeiras revistas com histórias da Vertigo (selo americano, braço da DC Comics, que publicava Sandman, Hellblazer, Homem do Pântano e Preacher, entre outros). Minha primeira reação foi achar estranho, mas interessante.
O problema é que pouco depois da descoberta, aderi durante um tempo a um catolicismo cego, em que não era possível aceitar pensamentos divergentes dos ensinamentos cristãos. Assim, uma história do Hellblazer em que se insinuava um sexo com a Virgem Maria foi parar na lixeira. Pegando fogo mesmo, para expurgar o demônio. O selo Vertigo, portanto - e, por consequência, Neil Gaiman -, virou palavra proibida na minha vida até ela mudar mais uma vez, alguns anos depois.
Igreja deixada de lado, as revistas da Vertigo voltaram a ser compradas. Tive que rodar muitos sebos no Centro para achar as melhores histórias e considero, hoje, a experiência fundamental para minha formação intelectual - o que quer que isso queira dizer. Procurem Sandman nas livrarias, em livros bem tratados com capa dura, lançados pela Conrad, que é diversão na certa, garanto. E não deixem de mostrar para seus filhos.
Confessado o apreço, fica claro que entrevistar o Neil Gaiman é uma honra, mas há, ainda, um detalhe curioso nessa história toda. Eu tenho dormido mal praticamente todas as noites. Não me lembro de outra época da vida em que tive tantos pesadelos, sobre assuntos e personagens distintos. E são o tipo de pesadelo que nos fazem acordar algumas vezes durante a noite e lembrar de tudo o que aconteceu. As histórias ficam martelando o dia todo e, sério, não dá para trabalhar confundindo lembranças ruins imaginárias com a realidade. Minha pouca sanidade vai para o espaço.
Mesmo assim, não fui estúpido o suficiente para perguntar para Gaiman como me livrar dos meus pesadelos. Mas perguntei se ele acreditava em Deus e numa vida após a morte. "In a Quantum universe, all things are possible somewhere, after all", respondeu. Tirei minhas conclusões e, caso eu consiga voltar a ter noites tranquilas, conto para vocês numa outra coluna.
Sobre a resposta de Gaiman, compartilho apenas uma elucubração: e tem gente, vejam vocês, que ainda se diz ateu. E ateu praticante, para complicar ainda mais a situação.
André
Se a próxima foto sua não for de regata, a saída da Josy será parcialmente compensada.
E tacar fogo numa revistinha em quadrinho? Francamente!
Tome Passiflorine, André, que é placebo, mas faz efeito. melhor que ficar tomando lexotan.
me diz uma coisa: pode haver judeu-cristão? e judeu-ateu?
PQP!!! Eu tenho muita inveja de você. E é dessa inveja ruim mesmo =P