É muito difícil escrever uma coluna sem um tema previamente definido. Ao contrário do que muita gente pensa, escrever sobre o nada não é um dom. É uma chatice mesmo. E foi justamente por não querer ser chato que demorei tanto para aportar por aqui novamente.
Foram várias semanas pensando num tema que valesse o tempo de vocês. Conheço inúmeros casos de gente que acredita estar abafando, arrebentando a boca do balão, ganhando dez mil cruzeiros depois de acertar o milhar. Mas estão por fora. É como a guria que me perguntou certa vez se eu era fiel, minutos depois de me contar que ela tinha namorado todos os caras com quem tinha saído. Informação demais, meu bem, até a próxima. Não tem o que dizer? Fique quieta que é melhor.
Noutro caso, uma amiga me falou do cara que pedia para ela morder seu saco. Morde meu saco, meu amor. É hora da imaginação, gente: “vai, linda, faz isso, me chupa, vai, continua, e agora morde meu saco cheiroso”. Putz. Ela ainda continuou com o sujeito até ele chamá-la de cadela gostosa. Meio fora de contexto, entende? Jantar à luz de velas, clima romântico, o papo vai parar no motel que eles haviam ido noites antes e ele solta: “você é uma cadela bem gostosa, sabia?”.
Pessoas assim não me deixam esquecer que é necessário um mínimo de responsabilidade para escrever para leitores variados. Escrever sobre o nada não é um dom, como já explicitei; conquistar pessoas com seus escritos, isso, sim, é um dom. E é essa a tarefa a que me proponho.
É lógico que posso ouvir de vocês que seria melhor ficar quieto a escrever besteiras. Internet tem dessas coisas mesmo. A gente dá a cara a tapa. Escreve o que quer no espaço que dão para a gente, ou no espaço que a gente próprio se dá. Tem uma relação de poder nisso aí. Eu posso escrever o que quero. Você pode ler ou pode não ler.
Numa viagem filosófica, eu posso dizer ainda que, caso ninguém leia, eu não escrevi texto algum. Isso tudo só existe mesmo se alguém estiver aí para me conceder alguns segundos de atenção. Eu não sou um ator de cinema mudo. Não sei fazer graça, nem gesticular para a câmera. Sei escrever, acho, e preciso ser lido para existir e não parecer um chato.
Reservo, portanto, a última coluna do ano para a promessa que 2007 será um ano de produção mais constante neste espaço. Para ganhar alguns leitores e provar que não sou um chato. Minha existência, como expliquei, depende disso. O tema escolhido será o quase nada, fator primordial para nossa existência. Alguém já parou para pensar quanto tempo passamos com o quase nada? Tem um livro do Paul Auster em que o narrador bate de carro porque se perde contando os minutos do dia em que ele leva abrindo portas, se espreguiçando, olhando o céu, ligando o computador ou coisas semelhantes. Assim será o meu quase nada. E, espero, o seu.
André
Terminei "O Livro das Ilusões" hoje pela manhã. Não precisei morder o saco de ninguém, vale dizer.
Você acha que eu acho que eu estou abafando?