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O colunista e o pó | 03 de janeiro de 2007

Na semana passada, aprendi que a denominação para o crack vem do ruído resultante da combustão da cocaína aquecida com água e bicarbonato de sódio, o que forma as pedras. Faz "crack", me contaram. Eu nunca cheirei cocaína, mas já comprei. Foi há muito tempo, para um chefe que tive. Ele parou o carro na Feira Hippie de Ipanema, eu saltei e fui até uma barraquinha que vendia cinzeiros artesanais buscar a droga. Não lembro quanto paguei, nem a cara de quem me vendeu. Mas lembro que senti um medo danado.

Pela lógica dominante entre a classe média carioca, eu já fui, portanto, um financiador do tráfico de drogas e um inconsequente incentivador da violência urbana que assola o Rio. Essa explicação reveladora é antiga, mas nada ultrapassada, e voltou à carga nos últimos dias depois dos atos bárbaros da semana. Não é preciso dizer que renego completamente a alcunha. Comprar cocaína numa barraca de cigarros é tão ilegal quanto comprar remédio sem receita numa farmácia. Ambas são drogas, podem fazer mal, podem viciar e o resultado de sua venda vai encher a pança do comerciante que cometeu um crime. E não me acusem de estar forçando a barra com uma comparação estúpida.

A sociedade escolhe suas leis e aceita ou rejeita suas drogas. Assim, algumas são lícitas e outras, não. Culpar o usuário é a forma mais simples de tirar de si próprio a responsabilidade pela existência do tráfico. É preciso entender que não existem traficantes porque existem usuários. Existem traficantes, sim, porque existe um abismo social absurdo em nosso país em que o pobre é fudido, quer deixar de ser fudido e arruma uma ocupação lícita ou não para sobreviver. Alguns pedem esmola, alguns vão vender balas nos sinais, e outros se tornam traficantes. A última alternativa pode parecer sempre incorreta para quem estudou em colégio rico, como eu, mas a escolha não é fácil quando se tem uma mãe solteira trabalhando dez horas por dia para alimentar cinco bocas. Se a venda de pó fosse legalizada e monopolizada por multinacionais como é a de cigarro, arrumaria-se outra terceira opção ilícita para se ganhar dinheiro, gerando violência da mesma maneira.

Se for para culpar o usuário pela violência que vivemos no Rio, quero acusar quem sonega imposto. Este, sim, tem mais responsabilidade pela condição social deplorável do país do que qualquer garoto de 20 anos que compra maconha no morro ou senhora que curte um prozac nas tardes de domingo para encarar uma programação de TV insípida. Se quisermos arrumar culpados como forma de nos isentar da responsabilidade pelas mortes que ocorreram no Rio, eu também posso sair acusando outrem por aí. Posso dizer que aquelas pessoas morreram no ônibus na semana passada porque o político roubou e faltou dinheiro para investir em projetos sociais. Posso dizer que o aposentado ofereceu um "agrado" para um policial para não ter seu veículo multado e este se deixou corromper. Posso acusar a dona de casa que joga no bicho ou o executivo que compra bateria de procedência duvidosa para seu celular hi-tech na Saara.

Posso ir além e dizer, ainda, que a maioria de nós vira a cara para um garoto passando fome na rua. Mais do que negar alimento, alijamos ele do convívio social e, pela lógica dos que querem passar a responsabilidade adiante, incentivamos o jovem marginalizado pela sociedade a se tornar um marginal. De objeto, ele passa a sujeito. De sujeito, passamos a objeto.

A diferença, vocês sabem, é que negar um olhar para alguém na rua não é um crime jurídico. Mas eu considero um crime moral. Vou além, talvez como forma de provocação: nunca usei crack, mas me sentiria menos inocente virando a cara para um garoto descalço e faminto na Vieira Souto, do que inalando umas pedrinhas por aí. Temos que aprender, a fim de mudar a ordem das coisas, que todos somos culpados.

seta André



seta Comentários Enviados
Andy em 08 de janeiro de 2007

Peralá. Não concordar com as leis é um direito de qualquer cidadão. Errado é não as respeitar. Isso é a democracia.

Peralá 2. Você quer dizer que as pessoas vendem pó por determinismo? Pela sua lógica, os brasileiros têm uma tendência maior a cometer crimes do que os ingleses, já que aqui há mais criminosos?

Ou será que a sociedade inglesa é menos desigual que a nossa (tanto nas camadas populares, quanto na classe média)? Ou será que, mesmo sendo menos desigual, a sociedade inglesa ainda não é perfeita, o que leva muita gente para a criminalidade?

O debate é bom e vale um chope. Só não entendo por que você não se identificou. Seu comentário, apesar de eu discordar, foi ótimo.

Pedro, feliz 2007.


Como assim? em 08 de janeiro de 2007

Pela sua lógica, não existiria tráfico em países como a Inglaterra nem traficantes de classe média no Rio.

Não concorda com as leis? Brigue para mudá-las.


Pedro Fraga em 08 de janeiro de 2007

"Se a venda de pó fosse legalizada e monopolizada por multinacionais como é a de cigarro, arrumaria-se outra terceira opção ilícita para se ganhar dinheiro, gerando violência da mesma maneira."

Ufa, não sabia que você tinha a mesma opinião que eu: o mercado de motoboys não vai aumentar com a legalização das drogas.


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