A Lapa virou um novo Baixo Gávea; a Mem de Sá, uma Broadway; a Lavradio, um Boulevard de Clichy. No Rio, as coisas têm uma certa tendência de durarem apenas uma estação e a própria Lapa já teve seus altos em outras épocas, seguidos invariavelmente por decepcionantes quedas. Mas a nova onda do bairro já perdura há uns três anos, não pára de se expandir e, parece, não vai parar mais. De dois anos para cá, a quantidade de estabelecimentos boêmios que abriu no lugar é impressionante. Daria para fazer um guia apenas com as novidades da Lapa, sem precisar procurar muito.
Fui no último sábado e estava tudo lotado: casas de shows, botecos limpos, espeluncas sujas, pizzarias. Até o isopor com cerveja mais ou menos gelada da Dona Maria tinha lá sua aglomeração. As ruas, então, estavam quase tomadas por gente de todas as camadas sociais e, se eu não estivesse inteirado do novo fenômeno, acharia que era tempo de Copa do Mundo ou que o pessoal estaria se reunindo para tocar o bloco.
Mas, se eu associasse aquela multidão ao futebol, erraria feio e perderia, talvez, o bonde da história. Porque é fascinante encontrarmos um lugar com tanto apelo popular e democrático como se tornou a Lapa. A miscigenação cultural fica clara quando a patricinha de 16 anos de Ipanema e o negão de 40 do Estácio dividem a mesma calçada e se estranham por usarem o mesmo salto alto.
Classe? Idade? Raça? Gênero? A Lapa de hoje manda essa chatice toda às favas e aumenta a crise de identidade do povo brasileiro. Quem somos? Somos essa gente bronzeada que quer mostrar seu valor. E nada mais.
Eu fui ao Teatro Odisséia, para a festa de um amigo e para o show do Humberto Effe. O Humberto, vocalista do Picassos Falsos, pode servir bem como símbolo do que tento escrever aqui. No show, ele misturou "Purple Haze" (Hendrix) com "Quadrinhos" (própria), assim como o Picassos, há mais mais de 15 anos, misturava rock e samba de um jeito genuinamente brasileiro. Todas aquelas pessoas se divertindo com harmonia na Lapa eram supercariocas, como na famosa música do Picassos, mas não queriam terminar com o corpo crivado de balas. Queriam apenas, com seus emblemas culturais, esquecer a vida entre copos de cerveja e chutar latas como quem faz um gol.
Essa Lapa, desse supercarioca, é a cara do Rio. É a resistência à violência, cá e acolá, da qual corremos hoje sem saber onde se esconder. Da mesma forma que não quero deixar de notar a importância cultural crescente do bairro, espero, torço, que os governos municipal e estadual do Rio também não deixem. Não deixem, principalmente, escapar a possibilidade de criar um corredor cultural, ou algo que se valha, para desenvolver uma região que briga por auto-desenvolvimento. As ruas sujas, uma pá de flanelinhas extorquindo motoristas e os assaltos ocasionais não combinam com aquela tal gente bronzeada que quer mostrar seu valor.
O Conde foi vaiado há alguns anos na Lapa (eu estava lá) e agora é secretário estadual de Cultura. A prefeitura adora criar pólos culturais e gastronômicos e jura que quer incentivar a cultura na cidade. É a hora de vocês, Cesar e Sergio, como Leandro e Leonardo, Zezé e Luciano, Bruno e Marrone, se afinarem para fazer alguma coisa por um pedaço do Rio que, democraticamente, cresceu. A Lapa não pede muita coisa. Basta que o supercarioca seja bem tratado pelo superRiodeJaneiro.
PS. Ah, eu odeio o Hipódromo - principalmente aquele gerente mal-educado e imbecil que usa costeletas -, não tenho saco para a lotação da Broadway, e não paguei o porrão de francos (ainda não era época de euros) que queriam me cobrar para entrar no Moulin Rouge. É importante deixar claro que a Lapa não é perfeita.