No jogo entre Flamengo e Botafogo, o primeiro clássico do Maracanã no ano, as torcidas pediram em coro por justiça. Parecia coreografado, como se estivessem comemorando um gol: "Justiça, justiça, justiça".
O motivo, naturalmente, foi a morte do João, o menino que foi arrastado pelas ruas do Rio por quilômetros. Aconteceu assim: uns quatro ou cinco bandidos abordaram um carro num sinal de Oswaldo Cruz, um agradável bairro do subúrbio carioca, onde nasceu a Portela. Mandaram a família saltar porque eles levariam o veículo e arrancaram com a porta traseira aberta. O pobre João, de apenas seis anos, porém, ficou preso ao cinto de segurança, com o corpo para fora.
Sinceramente não me interessei por ler nada sobre o caso para evitar me deixar envolver pela barbaridade do ocorrido, mas foi inevitável ouvir várias pessoas descrevendo a cena. João, segundo um taxista, teve o corpo dilacerado durante o trajeto. "Aqueles filhos da puta não pararam o carro para soltar o menino porque achavam que estavam sendo perseguidos", disse. O moço que vende maçã na feira, por sua vez, detalhou a massa cefálica da criança espalhada pelas ruas e o rastro de sangue deixado. "Sabe o chorume dos carros de lixo? Depois de bater a cabeça pela primeira vez, ficava escorrendo sangue e miolos do menino", contou antes de juntar uma dúzia de maçãs.
Com mais precisão e mais atento a detalhes, um dos porteiros do prédio da minha namorada pôde definir exatamente o momento em que João morreu, algo entre o primeiro cruzamento e o terceiro buraco da rua em péssimo estado de conservação. "Seu André, pelo menos o menino não deve ter sofrido tanto. Em menos de cinco segundos ele deve ter ficado incosciente. E, nos primeiros 500 metros, ele já devia estar morto", garantiu.
Os bandidos, entre eles um adolescente, também pararam na boca do povo. Minha mãe disse que provavelmente suas famílias foram ausentes. "Eles não tiveram mãe", argumentou. Na fila do banco, uma senhora ia além, conversando com um coroa bonitão, que mais parecia interessado em comer a velha. "São demoníacos. Para esse tipo de gente precisamos da pena de morte", disse. O jornaleiro que me vendeu bala Juquinha também tinha sua visão sobre os bandidos, chamados por ele de "escória, coisa ruim ou vermes". "Tem que enfiar essas porras numa prisão para a negada fazer deles noivas", opinou.
Na mais impressionante foto que saiu publicada nos jornais - do Gabriel de Paiva, ótimo fotógrafo do GLOBO - policiais seguravam com truculência três suspeitos pela morte de João. Na realidade, os policiais, mais do que segurar com truculência, humilhavam os sujeitos para a imprensa ver. Parece que alguns jornalistas, na hora, reclamaram do tratamento, mas foram logo abafados por outros que acreditam que os bandidos são a encarnação do mal.
Vejam o que escreveu um leitor de Veja, revista que muita gente acredita ser a encarnação do mal: "Chega de explicações. Todo fenômeno de degradação social tem explicação. A queda de Roma, a ascensão de Adolf Hitler, a proliferação do mal bolchevique pelo mundo, a destruição das cidades brasileiras pelos criminosos e seus asseclas, simpatizantes - ou simplesmente cegos - na intelectualidade, na polícia e na política. (...) Chega de romancear o criminoso, de culpar abstrações como a violência, o neoliberalismo, o descaso da classe média...". Não preciso dizer que me senti ofendido.
Também foi comum ouvir dúzias de relatos de pessoas, menos agressivas mas não menos chocadas, que contaram ter chorado com o noticiário sobre João. "Eu chorei", "Cara, aquilo acabou com meu dia", "Não consegui trabalhar direito pensando no menino" e "Eu queria abraçar a mãe do João para dar algum conforto" foram algumas das frases que escutei por aí.
A todos que externaram sua justíssima indignação e seu compreensível sofrimento, preferi manter o silêncio. Queria mesmo ficar alheio a esse assunto, mas não deu, era informação demais. Eu também me choquei. O grande problema, porém, é todo mundo achar que se combate violência com mais violência. Isso me chocou ainda mais do que a morte do João. Eu não quero justiça. Não quero saber de pessoas que choraram ou escutar mais uma descrição orgástica do crime. Não quero ouvir falar em maldade, monstruosidade, pena de morte ou redução de maioridade penal. Eu só quero paz. Mas isso não ouvi de ninguém na rua.
André
Assino embaixo de tudo que vc escreveu.
mas a seção de cartas de leitores do globo me dá um desespero e uma tristeza...