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Uma história de carnaval | 18 de fevereiro de 2007

A idade provoca certas coisas na gente difíceis de entender. Há alguns anos eu não estaria sentado na frente de um computador num domingo de carnaval. Estaria num bloco, com certeza, bebendo, dançando e olhando bundas que não me pertencem. Não por desejo, entendam, mas apenas pela graça de roubar uma visão, de imaginar o que outrem tem acesso todos os dias. Minha diversão é ingênua.

Aqui, onde estou, em frente ao computador, não há bundas, posso garantir. Tem um calendário da África do Sul de 2006, com uma foto de um jovem leão tentando se pendurar num galho. Tem também uma foto de duas meninas abraçadas com o Garoto Bombril – que, na realidade, está mais para Vovô Bombril. E tem um Mickey de braços abertos, vestindo um hábito vermelho, direto do filme “Fantasia”. Nenhuma bunda.

Outro dia entrevistei o Paul Auster – ele mesmo – e o sujeito contou como a idade muda a forma de se enxergar o mundo. Ele disse que envelhecer é como andar por aí com fantasmas, conversar com pessoas que foram amadas um dia, mas que agora estão mortas. Eu não tenho os 60 anos do Auster e, durante toda a minha vida, conheci mais pessoas que ainda estão vivas do que aquelas que já morreram. Mas a idade, vocês sabem.

Num bloco de carnaval, eu costumava sentar na sarjeta e ficar olhando aquelas meninas púberes passando para lá e para cá, remexendo e rebolando, saltitando e chacoalhando. Experimentem abrir uma cerveja e observar. O pau não sobe, não é essa a intenção. A graça é roubar sonhos, imagens. Com alguma outra droga pode ficar ainda mais interessante.

A diferença, daquela época em que eu andava de bloco em bloco com uma cerveja na mão para agora, é que meus sonhos são construídos numa tela de computador e não mais na Praia de Ipanema, acompanhando as ondas do Simpatia é Quase Amor. Estou sem camisa com os pneus à mostra para ninguém ver, ouvindo um rock inglês porcaria que me deixa por dentro da globalização. Não bate vento no quarto, nada de brisa da praia. Minha perna não pára de tremer e meu celular não toca mais.

Imagino rapidamente a bunda do Vovô Bombril. Flácida, magra, de pêlos ralos. Não é como a das meninas dos blocos cariocas. Neste momento uma delas usa um shortinho jeans minúsculo que torna o contorno inferior das nágedas visível entre um skindô e um skindum. A visão, porém, para mim, só existe na tela de um computador velho. Outra deixou a blusa branca molhar – voluntária ou involuntariamente, vai saber? – e todos do bloco podem ver seu sutiã azul e os mamilos saltitantes, empinados. Certa vez, escrevi um conto sobre mamilos que faziam retas paralelas imaginárias com narizes empinados. Desejei a cena por meses, mas nunca tive paciência para mulheres de narizes empinados.

Outra mudança da idade é justamente a falta de perícia para continuar escrevendo contos. Criei uns bons, garanto. Escrevia contos como um apontador anotando as apostas do bicho. Fluía, sabem? Como se houvesse uma musa ao meu lado, inteiramente nua, sussurrando idéias no meu ouvido como sacanagens. Uma daquelas mulheres que não se quer esperar uma preparação de ano para se possuir e se propõe casamento para o dia seguinte, numa igreja do centro de Las Vegas. Bebe-se, casa-se, ganha-se tudo no jogo e vive-se feliz para sempre no deserto americano. Era o que diziam os filmes, fazia parte dos meus sonhos de juventude.

Mas sempre terá alguém sonhando no meu lugar. Alguém está lá, eu sei. Alguém anos mais jovem do que eu acompanha bloco e bundas passando. Alguém que ainda entende como a vida pode ser divertida, seminal. É necessário que haja essa pessoa, para eu me sentir vivo, jovem de certa forma. Mesmo que num corpo alheio, mesmo olhando para um leão, um camundongo e o Vovô Bombril. Mesmo imaginando sua bunda.

seta André



seta Comentários Enviados
Zoador Vacilão em 27 de fevereiro de 2007

André, pára de ficar sonhando com punheta e vai comer uma xoxotinha!!! Aêeeeeeeeeee...


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