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<title>Coluna: Não nos arrependemos daquele sábado</title>
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<copyright>Copyright 2007</copyright>
<lastBuildDate>Thu, 07 Jun 2007 14:48:21 -0300</lastBuildDate>
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<title>Não por acaso</title>
<description><![CDATA[<p>
Adoro o Paul Auster. Li quase todos os livros do sujeito e, quando pintou a oportunidade de entrevistá-lo por telefone para o jornal em que trabalho, cacetada, dei uma tremida. Uma coisa é entrevistar um sujeito fodão, ter que se esforçar para fazer bonito, e tal. Outra coisa é fazer isso com um sujeito fodão que você adora, admira, baba o ovo, e tal. Não é fácil. 
<p>

Fiquei uns 15 minutos com o Auster no telefone. Falamos de literatura, ele perguntou minha idade, criticou Bush e me jurou que nunca iria escrever uma autobiografia. Ah, e falamos também de um assunto que impera em quase todos os livros do Auster, assunto pelo qual eu próprio me interesso absurdamente: o acaso. Nada de filosofar sobre o acaso na vida das pessoas. Gosto mesmo de ler, escrever ou ver histórias em que o acaso é trabalhado. Como ocorre no ótimo “Magnólia”, no razoável “Babel” ou no sofrível “Crash”, para citar exemplos recentes. <p>

E como ocorre, também, num filme brasileiro que chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 7 de julho. O nome – não poderia ser mais apropriado – é “Não por acaso” e traz Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros vivendo dois personagens bastante masculinos (na forma com que querem controlar suas vidas e as vidas das mulheres a seu redor). O filme é ótimo, como são também os curtas de seu diretor, Philippe Barcinski – “Palíndromo” e “A janela aberta”, por exemplo. <p>

Não deve ser fácil fazer um filme em que duas histórias independentes se encontram, se alteram e, depois, seguem novamente com independência. O diretor me contou dia desses que demorou cinco anos para escrever o roteiro – em parceria com sua mulher, Fabiana Werneck Barcinski, e Eugênio Puppo. E o resultado realmente surpreende. Nenhum diálogo é escolhido à toa. Nenhum plano foi aproveitado – desculpem o trocadilho – ao acaso. <p>

Mas a coisa que chamou mesmo minha atenção no filme foi a atuação de uma menina chamada Rita Batata. Não sei quem ela é, nunca a tinha visto antes, mas sei que ela interpreta a filha do personagem do Medeiros. Ela não fala tanto e, assim, consegue fazer umas expressões ora de alegria, ora de tristeza, impressionantes. As outras atrizes, Letícia Sabatella e Branca Messina, também estão bem. Mas, para mim, a Rita roubou a cena. <p>
<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>
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<pubDate>Thu, 07 Jun 2007 14:48:21 -0300</pubDate>
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<title>Vermelho como o céu</title>
<description><![CDATA[<p>
A pior coisa de ser um crítico de cinema – sim, para encurtar as apresentações, eu sou um daqueles bonecos magricelas que saem, dormem, olham, aplaudem ou se levantam para aplaudir filmes no GLOBO – é ter que assistir a filmes às 10h30m. Pois bem, esse é o horário da maioria das cabines, é o horário das sessões especiais para imprensa que os distribuidores marcam. 
<p>

Mal dá tempo para o café, eu juro. Acordo em cima da hora, tomo banho voando e dirijo feito um louco para chegar ao Espaço (Unibanco, de Cinema, 35?), ao Artplex ou a alguma sala pequenina de um prédio comercial do Centro. A última opção é ainda pior: paro o carro no jornal, pego um táxi, encaro novo engarrafamento e ganho alguns fios de cabelo branco, temeroso em não atrasar. 
<p>

Com as meninas do Estação, já deve até ter virado piada. “Eu moro longe, no Recreio, vocês têm idéia de quão demorado é chegar do Recreio até aqui?”. Sempre digo também que vou me mudar, mas a mudança nunca chega e a desculpa de morar longe sempre serve. “Lá vem esse mentiroso de novo”, devem repetir Liliam e Andréa. 
<p>

Outra chatice dessas cabines matinais é a solidão. Ninguém, jamais, quer assistir a um filme comigo nesses horários. Ligo daqui, mando e-mail acolá e nunca aceitam. É trabalho, eu sei, mas sempre cai bem um amigo ou amiga para bater um papo ou, ainda, me manter acordado. Porque, sim, há manhãs em que o boneco magricela literalmente dorme. Mas, por favor, não contem para meu chefe. 
<p>

Um exemplo se deu com um filme chamado “Vermelho como o céu”. É italiano, de um diretor chamado Cristiano Bortone, que estreou há umas três semanas e provavelmente já deve ter saído de cartaz - o que, caso uma olhada nos tijolos dos jornais confirme, é uma pena.  Porque “Vermelho como o céu” é um filme muito bonitinho, daqueles que dá vontade de levar para casa para mostrar para a mãe. “Mãe, a senhora quer assistir a um filme em que um garotinho fica parcialmente cego, vai parar num colégio para deficientes e, mesmo sem visão, dá um banho em qualquer adulto quando o assunto é sonhar?”. “Quero, sim, meu filho, onde?”. A véinha nunca resiste a esse tipo de filme. 

<p>

Mas, mesmo assim, eu quase dei uma bela cochilada em “Vermelho como o céu”. O início é lento e lembra aqueles melodramas sessãodatardianos que, definitivamente, não suporto (alguém consegue me explicar como a chatice “O quarto do filho” ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 2001?). Eu fechava os olhos - sem trocadilhos com o enredo, por favor - e falava comigo mesmo: você tem que se manter acordado, André, você tem que ser responsável, você precisa prestar a atenção em todos os detalhes do filme. 

<p>

Acabei conseguindo, abri os olhos e, pimba, meu boneco aplaudiu. Ótimo filme. Será que um ótimo filme compensa uma manhã de sono? Ou será que poderiam repensar esses horários de cabines? 
 
<p>


<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>]]></description>
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<pubDate>Wed, 06 Jun 2007 12:51:18 -0300</pubDate>
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<title>Recomeço II</title>
<description><![CDATA[<p>
É vergonhoso eu não aparecer aqui por tanto tempo e um dia, de repente, do nada, sem pedir licença, escrever umas besteiras como quem não tem nada para fazer. Bastante vergonhoso, mas não vou me importar de dar uma de sem vergonha, não. É tudo em nome da cara de pau. 
<p>
Venho em público pedir para a editora deste portal mudar a coisa toda, reinventar mesmo, trocar banner, nome e tudo mais. Quero retomar este espaço que já foi meu e escrever de vez em quando – e não de vez em nunca, como é hoje – sobre cinema. Não que eu tenha muita coisa a acrescentar sobre cinema, mas acho que meu trabalho dá um caldo bacana e posso fazer um ou outro texto razoavelmente interessante. 
<p>
Nada de regras, periodicidade ou novas promessas. Vou apenas escrever algumas impressões sobre o universo do cinema que nada mais é do que um universo. Tia Mila, CEO da Matriz Online, fica encarregada de mudar nome, layout e tudo mais. Fica encarregada também de escolher com que cara isso aqui pode ficar. 
<p>
É minha última tentativa de manter viva uma coluna que já foi a dois, passou para um e seguiu para nenhum. Meu médico diz que vai me fazer bem. Melhor que prozac. Melhor que cocaína. 
<p>
Eu duvido, mas não custa tentar. Aliás, alguém já viu “Zodíaco”? Que filmaço. 
<p>

<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>
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<pubDate>Tue, 05 Jun 2007 16:51:22 -0300</pubDate>
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<title>Uma história de carnaval</title>
<description><![CDATA[
<p>	
A idade provoca certas coisas na gente difíceis de entender. Há alguns anos eu não estaria sentado na frente de um computador num domingo de carnaval. Estaria num bloco, com certeza, bebendo, dançando e olhando bundas que não me pertencem. Não por desejo, entendam, mas apenas pela graça de roubar uma visão, de imaginar o que outrem tem acesso todos os dias. Minha diversão é ingênua. <p>

Aqui, onde estou, em frente ao computador, não há bundas, posso garantir. Tem um calendário da África do Sul de 2006, com uma foto de um jovem leão tentando se pendurar num galho. Tem também uma foto de duas meninas abraçadas com o Garoto Bombril – que, na realidade, está mais para Vovô Bombril. E tem um Mickey de braços abertos, vestindo um hábito vermelho, direto do filme “Fantasia”. Nenhuma bunda. <p>

Outro dia entrevistei o Paul Auster – ele mesmo – e o sujeito contou como a idade muda a forma de se enxergar o mundo. Ele disse que envelhecer é como andar por aí com fantasmas, conversar com pessoas que foram amadas um dia, mas que agora estão mortas. Eu não tenho os 60 anos do Auster e, durante toda a minha vida, conheci mais pessoas que ainda estão vivas do que aquelas que já morreram. Mas a idade, vocês sabem. <p>

Num bloco de carnaval, eu costumava sentar na sarjeta e ficar olhando aquelas meninas púberes passando para lá e para cá, remexendo e rebolando, saltitando e chacoalhando. Experimentem abrir uma cerveja e observar. O pau não sobe, não é essa a intenção. A graça é roubar sonhos, imagens. Com alguma outra droga pode ficar ainda mais interessante. <p>

A diferença, daquela época em que eu andava de bloco em bloco com uma cerveja na mão para agora, é que meus sonhos são construídos numa tela de computador e não mais na Praia de Ipanema, acompanhando as ondas do Simpatia é Quase Amor. Estou sem camisa com os pneus à mostra para ninguém ver, ouvindo um rock inglês porcaria que me deixa por dentro da globalização. Não bate vento no quarto, nada de brisa da praia. Minha perna não pára de tremer e meu celular não toca mais. <p> 

Imagino rapidamente a bunda do Vovô Bombril. Flácida, magra, de pêlos ralos. Não é como a das meninas dos blocos cariocas. Neste momento uma delas usa um shortinho jeans minúsculo que torna o contorno inferior das nágedas visível entre um skindô e um skindum. A visão, porém, para mim, só existe na tela de um computador velho. Outra deixou a blusa branca molhar – voluntária ou involuntariamente, vai saber? – e todos do bloco podem ver seu sutiã azul e os mamilos saltitantes, empinados. Certa vez, escrevi um conto sobre mamilos que faziam retas paralelas imaginárias com narizes empinados. Desejei a cena por meses, mas nunca tive paciência para mulheres de narizes empinados. <p>

Outra mudança da idade é justamente a falta de perícia para continuar escrevendo contos. Criei uns bons, garanto. Escrevia contos como um apontador anotando as apostas do bicho. Fluía, sabem? Como se houvesse uma musa ao meu lado, inteiramente nua, sussurrando idéias no meu ouvido como sacanagens. Uma daquelas mulheres que não se quer esperar uma preparação de ano para se possuir e se propõe casamento para o dia seguinte, numa igreja do centro de Las Vegas. Bebe-se, casa-se, ganha-se tudo no jogo e vive-se feliz para sempre no deserto americano. Era o que diziam os filmes, fazia parte dos meus sonhos de juventude. <p>

Mas sempre terá alguém sonhando no meu lugar. Alguém está lá, eu sei. Alguém anos mais jovem do que eu acompanha bloco e bundas passando. Alguém que ainda entende como a vida pode ser divertida, seminal. É necessário que haja essa pessoa, para eu me sentir vivo, jovem de certa forma. Mesmo que num corpo alheio, mesmo olhando para um leão, um camundongo e o Vovô Bombril. Mesmo imaginando sua bunda.  <p>

            
  


<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>
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<pubDate>Sun, 18 Feb 2007 16:45:16 -0300</pubDate>
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<title>João</title>
<description><![CDATA[<p>

No jogo entre Flamengo e Botafogo, o primeiro clássico do Maracanã no ano, as torcidas pediram em coro por justiça. Parecia coreografado, como se estivessem comemorando um gol: "Justiça, justiça, justiça". <p>

O motivo, naturalmente, foi a morte do João, o menino que foi arrastado pelas ruas do Rio por quilômetros. Aconteceu assim: uns quatro ou cinco bandidos abordaram um carro num sinal de Oswaldo Cruz, um agradável bairro do subúrbio carioca, onde nasceu a Portela. Mandaram a família saltar porque eles levariam o veículo e arrancaram com a porta traseira aberta. O pobre João, de apenas seis anos, porém, ficou preso ao cinto de segurança, com o corpo para fora. <p>

Sinceramente não me interessei por ler nada sobre o caso para evitar me deixar envolver pela barbaridade do ocorrido, mas foi inevitável ouvir várias pessoas descrevendo a cena. João, segundo um taxista, teve o corpo dilacerado durante o trajeto. "Aqueles filhos da puta não pararam o carro para soltar o menino porque achavam que estavam sendo perseguidos", disse. O moço que vende maçã na feira, por sua vez, detalhou a massa cefálica da criança espalhada pelas ruas e o rastro de sangue deixado. "Sabe o chorume dos carros de lixo? Depois de bater a cabeça pela primeira vez, ficava escorrendo sangue e miolos do menino", contou antes de juntar uma dúzia de maçãs. <p>

Com mais precisão e mais atento a detalhes, um dos porteiros do prédio da minha namorada pôde definir exatamente o momento em que João morreu, algo entre o primeiro cruzamento e o terceiro buraco da rua em péssimo estado de conservação. "Seu André, pelo menos o menino não deve ter sofrido tanto. Em menos de cinco segundos ele deve ter ficado incosciente. E, nos primeiros 500 metros, ele já devia estar morto", garantiu. <p>

Os bandidos, entre eles um adolescente, também pararam na boca do povo. Minha mãe disse que provavelmente suas famílias foram ausentes. "Eles não tiveram mãe", argumentou. Na fila do banco, uma senhora ia além, conversando com um coroa bonitão, que mais parecia interessado em comer a velha. "São demoníacos. Para esse tipo de gente precisamos da pena de morte", disse. O jornaleiro que me vendeu bala Juquinha também tinha sua visão sobre os bandidos, chamados por ele de "escória, coisa ruim ou vermes". "Tem que enfiar essas porras numa prisão para a negada fazer deles noivas", opinou. <p>

Na mais impressionante foto que saiu publicada nos jornais - do Gabriel de Paiva, ótimo fotógrafo do GLOBO - policiais seguravam com truculência três suspeitos pela morte de João. Na realidade, os policiais, mais do que segurar com truculência, humilhavam os sujeitos para a imprensa ver. Parece que alguns jornalistas, na hora, reclamaram do tratamento, mas foram logo abafados por outros que acreditam que os bandidos são a encarnação do mal. <p>

Vejam o que escreveu um leitor de Veja, revista que muita gente acredita ser a encarnação do mal: "Chega de explicações. Todo fenômeno de degradação social tem explicação. A queda de Roma, a ascensão de Adolf Hitler, a proliferação do mal bolchevique pelo mundo, a destruição das cidades brasileiras pelos criminosos e seus asseclas, simpatizantes - ou simplesmente cegos - na intelectualidade, na polícia e na política. (...) Chega de romancear o criminoso, de culpar abstrações como a violência, o neoliberalismo, o descaso da classe média...". Não preciso dizer que me senti ofendido. <p>  

Também foi comum ouvir dúzias de relatos de pessoas, menos agressivas mas não menos chocadas, que contaram ter chorado com o noticiário sobre João. "Eu chorei", "Cara, aquilo acabou com meu dia", "Não consegui trabalhar direito pensando no menino" e "Eu queria abraçar a mãe do João para dar algum conforto" foram algumas das frases que escutei por aí. <p>  

A todos que externaram sua justíssima indignação e seu compreensível sofrimento, preferi manter o silêncio. Queria mesmo ficar alheio a esse assunto, mas não deu, era informação demais. Eu também me choquei. O grande problema, porém, é todo mundo achar que se combate violência com mais violência. Isso me chocou ainda mais do que a morte do João. Eu não quero justiça. Não quero saber de pessoas que choraram ou escutar mais uma descrição orgástica do crime. Não quero ouvir falar em maldade, monstruosidade, pena de morte ou redução de maioridade penal. Eu só quero paz. Mas isso não ouvi de ninguém na rua.  

<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>
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<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 01:55:24 -0300</pubDate>
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<title>Não vá ao cinema sozinho</title>
<description><![CDATA[<p>

O primeiro problema de se ir ao cinema sozinho é não ter com quem discutir o filme depois da sessão. Saí de "Os infiltrados" querendo falar sobre a mania que persegue o Scorsese, em seus últimos filmes, de matar todo mundo, mas só havia rostos estranhos à volta. E, vejam só, há dois dias, depois de um "Babel", eu tinha sete amigos com quem conversar. Como dizem, nada como um dia após o outro. <p>

O segundo problema de se ir ao cinema sozinho é não ter um ombro no qual se pode encostar a cabeça e chorar, caso esse seja o caso. Até hoje choro em filmes como "Um lugar chamado Notting Hill" e gosto quando há alguém para compartilhar sentimentos. Felizmente não me emocionei com "Os infiltrados" e não paguei mico quando subiram os créditos. <p>

Já o terceiro, e pior, problema de se ir ao cinema sozinho é virar alvo dos devaneios imaginativos das outras pessoas na sessão. Eu mesmo, em outra posição, faria isso. Ficaria imaginando os porquês de alguém estar lá no cinema completamente só, sem amigos, mulheres, filhos ou amantes. Não que haja algo de errado em se assistir a um filme sozinho. Mas devo admitir que é divertido supor que o gordinho que acaba de entrar na sala todo ofegante com um Kit Pipoca Ultra-Super-Combo acabou de matar a sogra e veio se esconder no cinema. <p>

Assim como deve ter sido divertido para várias pessoas olharem para o sujeito de cabelo recém-cortado, barba mal feita e cara de cansado sentando num lugar em que pudesse esticar as pernas. Eu estava lá sendo analisado da mesma forma com que já analisei tantos. Por que a pipoca? Por que a pepsi? Por que o lugar mais perto possível da porta de saída? Por que o corpo esparramado na cadeira? <p>

É tenebroso pensar no que posso ter me tornado nas mentes doentias daquelas pessoas no cinema. De assassino serial a cinéfilo nerd, não consigo visualizar numa hipótese razoável. Nem mesmo a verdade, que fui ao cinema sozinho simplesmente porque adoro cinema e não tinha companhia, parece mais tranquilizadora. <p>

Então aquele grandão não arrumou companhia, né? Deve ser viado. Ou então levou um fora. É virgem, tenho certeza. Tem cara de turista. Até que tem uma bundinha bonitinha. Esse cabelo curto parece de milico. O sujeito trabalha no shopping e bateu ponto agora. Ainda acho que é viado. Será que ele está armado? Talvez esteja esperando alguém que ainda não chegou. Ou que nunca vai chegar! Você acha que ele tomou bolo? Deve ter pedido demissão. Ou então divórcio. Mamãe, estou com medo. É viadão! <p>

Os pensamentos dialogavam e eu me afundava cada vez mais na cadeira, querendo me esconder dos olhos alheios. Sem parar, passei a comer uma pipoca atrás da outra, para tentar chamar atenção das pessoas de outra forma, fornecer-lhes uma ação que ocupasse suas mentes para que não imaginassem besteiras sobre mim. <p>  

Não foi nada disso, eu explico: acordei cedo, corri na praia, trabalhei, resolvi sonhar como vocês e escolhi, dessa vez, um filme e não um solitário espectador de cinema. Escolhi a ficção real e não a real ficção. Deixem-me em paz.  <p>     


<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong> ]]></description>
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<pubDate>Thu, 25 Jan 2007 00:51:47 -0300</pubDate>
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<title>O supercarioca quer mostrar seu valor</title>
<description><![CDATA[<p>

A Lapa virou um novo Baixo Gávea; a Mem de Sá, uma Broadway; a Lavradio, um Boulevard de Clichy. No Rio, as coisas têm uma certa tendência de durarem apenas uma estação e a própria Lapa já teve seus altos em outras épocas, seguidos invariavelmente por decepcionantes quedas. Mas a nova onda do bairro já perdura há uns três anos, não pára de se expandir e, parece, não vai parar mais. De dois anos para cá, a quantidade de estabelecimentos boêmios que abriu no lugar é impressionante. Daria para fazer um guia apenas com as novidades da Lapa, sem precisar procurar muito. <p>  

Fui no último sábado e estava tudo lotado: casas de shows, botecos limpos, espeluncas sujas, pizzarias. Até o isopor com cerveja mais ou menos gelada da Dona Maria tinha lá sua aglomeração. As ruas, então, estavam quase tomadas por gente de todas as camadas sociais e, se eu não estivesse inteirado do novo fenômeno, acharia que era tempo de Copa do Mundo ou que o pessoal estaria se reunindo para tocar o bloco. <p>

Mas, se eu associasse aquela multidão ao futebol, erraria feio e perderia, talvez, o bonde da história. Porque é fascinante encontrarmos um lugar com tanto apelo popular e democrático como se tornou a Lapa. A miscigenação cultural fica clara quando a patricinha de 16 anos de Ipanema e o negão de 40 do Estácio dividem a mesma calçada e se estranham por usarem o mesmo salto alto. <p>

Classe? Idade? Raça? Gênero? A Lapa de hoje manda essa chatice toda às favas e aumenta a crise de identidade do povo brasileiro. Quem somos? Somos essa gente bronzeada que quer mostrar seu valor. E nada mais. <p> 

Eu fui ao Teatro Odisséia, para a festa de um amigo e para o show do Humberto Effe. O Humberto, vocalista do Picassos Falsos, pode servir bem como símbolo do que tento escrever aqui. No show, ele misturou "Purple Haze" (Hendrix) com "Quadrinhos" (própria), assim como o Picassos, há mais mais de 15 anos, misturava rock e samba de um jeito genuinamente brasileiro. Todas aquelas pessoas se divertindo com harmonia na Lapa eram supercariocas, como na famosa música do Picassos, mas não queriam terminar com o corpo crivado de balas. Queriam apenas, com seus emblemas culturais, esquecer a vida entre copos de cerveja e chutar latas como quem faz um gol. <p>

Essa Lapa, desse supercarioca, é a cara do Rio. É a resistência à violência, cá e acolá, da qual corremos hoje sem saber onde se esconder. Da mesma forma que não quero deixar de notar a importância cultural crescente do bairro, espero, torço, que os governos municipal e estadual do Rio também não deixem. Não deixem, principalmente, escapar a possibilidade de criar um corredor cultural, ou algo que se valha, para desenvolver uma região que briga por auto-desenvolvimento. As ruas sujas, uma pá de flanelinhas extorquindo motoristas e os assaltos ocasionais não combinam com aquela tal gente bronzeada que quer mostrar seu valor. <p>

O Conde foi vaiado há alguns anos na Lapa (eu estava lá) e agora é secretário estadual de Cultura. A prefeitura adora criar pólos culturais e gastronômicos e jura que quer incentivar a cultura na cidade. É a hora de vocês, Cesar e Sergio, como Leandro e Leonardo, Zezé e Luciano, Bruno e Marrone, se afinarem para fazer alguma coisa por um pedaço do Rio que, democraticamente, cresceu. A Lapa não pede muita coisa. Basta que o supercarioca seja bem tratado pelo superRiodeJaneiro. <p>     

PS. Ah, eu odeio o Hipódromo - principalmente aquele gerente mal-educado e imbecil que usa costeletas -, não tenho saco para a lotação da Broadway, e não paguei o porrão de francos (ainda não era época de euros) que queriam me cobrar para entrar no Moulin Rouge. É importante deixar claro que a Lapa não é perfeita. ]]></description>
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<pubDate>Wed, 10 Jan 2007 23:48:29 -0300</pubDate>
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<title>O colunista e o pó</title>
<description><![CDATA[<p>
Na semana passada, aprendi que a denominação para o crack vem do ruído resultante da combustão da cocaína aquecida com água e bicarbonato de sódio, o que forma as pedras. Faz "crack", me contaram. Eu nunca cheirei cocaína, mas já comprei. Foi há muito tempo, para um chefe que tive. Ele parou o carro na Feira Hippie de Ipanema, eu saltei e fui até uma barraquinha que vendia cinzeiros artesanais buscar a droga. Não lembro quanto paguei, nem a cara de quem me vendeu. Mas lembro que senti um medo danado. <p>

Pela lógica dominante entre a classe média carioca, eu já fui, portanto, um financiador do tráfico de drogas e um inconsequente incentivador da violência urbana que assola o Rio. Essa explicação reveladora é antiga, mas nada ultrapassada, e voltou à carga nos últimos dias depois dos atos bárbaros da semana. Não é preciso dizer que renego completamente a alcunha. Comprar cocaína numa barraca de cigarros é tão ilegal quanto comprar remédio sem receita numa farmácia. Ambas são drogas, podem fazer mal, podem viciar e o resultado de sua venda vai encher a pança do comerciante que cometeu um crime. E não me acusem de estar forçando a barra com uma comparação estúpida. <p>

A sociedade escolhe suas leis e aceita ou rejeita suas drogas. Assim, algumas são lícitas e outras, não. Culpar o usuário é a forma mais simples de tirar de si próprio a responsabilidade pela existência do tráfico. É preciso entender que não existem traficantes porque existem usuários. Existem traficantes, sim, porque existe um abismo social absurdo em nosso país em que o pobre é fudido, quer deixar de ser fudido e arruma uma ocupação lícita ou não para sobreviver. Alguns pedem esmola, alguns vão vender balas nos sinais, e outros se tornam traficantes. A última alternativa pode parecer sempre incorreta para quem estudou em colégio rico, como eu, mas a escolha não é fácil quando se tem uma mãe solteira trabalhando dez horas por dia para alimentar cinco bocas. Se a venda de pó fosse legalizada e monopolizada por multinacionais como é a de cigarro, arrumaria-se outra terceira opção ilícita para se ganhar dinheiro, gerando violência da mesma maneira.  <p>

Se for para culpar o usuário pela violência que vivemos no Rio, quero acusar quem sonega imposto. Este, sim, tem mais responsabilidade pela condição social deplorável do país do que qualquer garoto de 20 anos que compra maconha no morro ou senhora que curte um prozac nas tardes de domingo para encarar uma programação de TV insípida. Se quisermos arrumar culpados como forma de nos isentar da responsabilidade pelas mortes que ocorreram no Rio, eu também posso sair acusando outrem por aí. Posso dizer que aquelas pessoas morreram no ônibus na semana passada porque o político roubou e faltou dinheiro para investir em projetos sociais. Posso dizer que o aposentado ofereceu um "agrado" para um policial para não ter seu veículo multado e este se deixou corromper. Posso acusar a dona de casa que joga no bicho ou o executivo que compra bateria de procedência duvidosa para seu celular hi-tech na Saara. <p>   

Posso ir além e dizer, ainda, que a maioria de nós vira a cara para um garoto passando fome na rua. Mais do que negar alimento, alijamos ele do convívio social e, pela lógica dos que querem passar a responsabilidade adiante, incentivamos o jovem marginalizado pela sociedade a se tornar um marginal. De objeto, ele passa a sujeito. De sujeito, passamos a objeto. <p>

A diferença, vocês sabem, é que negar um olhar para alguém na rua não é um crime jurídico. Mas eu considero um crime moral. Vou além, talvez como forma de provocação: nunca usei crack, mas me sentiria menos inocente virando a cara para um garoto descalço e faminto na Vieira Souto, do que inalando umas pedrinhas por aí. Temos que aprender, a fim de mudar a ordem das coisas, que todos somos culpados.        
 <p>
 
<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>     ]]></description>
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<pubDate>Wed, 03 Jan 2007 23:53:25 -0300</pubDate>
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<title>Morder o saco?</title>
<description><![CDATA[<p>

É muito difícil escrever uma coluna sem um tema previamente definido. Ao contrário do que muita gente pensa, escrever sobre o nada não é um dom. É uma chatice mesmo.  E foi justamente por não querer ser chato que demorei tanto para aportar por aqui novamente. <p>

Foram várias semanas pensando num tema que valesse o tempo de vocês. Conheço inúmeros casos de gente que acredita estar abafando, arrebentando a boca do balão, ganhando dez mil cruzeiros depois de acertar o milhar. Mas estão por fora. É como a guria que me perguntou certa vez se eu era fiel, minutos depois de me contar que ela tinha namorado todos os caras com quem tinha saído. Informação demais, meu bem, até a próxima. Não tem o que dizer? Fique quieta que é melhor. <p>

Noutro caso, uma amiga me falou do cara que pedia para ela morder seu saco. Morde meu saco, meu amor. É hora da imaginação, gente: “vai, linda, faz isso, me chupa, vai, continua, e agora morde meu saco cheiroso”. Putz. Ela ainda continuou com o sujeito até ele chamá-la de cadela gostosa. Meio fora de contexto, entende? Jantar à luz de velas, clima romântico, o papo vai parar no motel que eles haviam ido noites antes e ele solta: “você é uma cadela bem gostosa, sabia?”. <p>

Pessoas assim não me deixam esquecer que é necessário um mínimo de responsabilidade para escrever para leitores variados. Escrever sobre o nada não é um dom, como já explicitei; conquistar pessoas com seus escritos, isso, sim, é um dom. E é essa a tarefa a que me proponho.  <p>

É lógico que posso ouvir de vocês que seria melhor ficar quieto a escrever besteiras. Internet tem dessas coisas mesmo. A gente dá a cara a tapa. Escreve o que quer no espaço que dão para a gente, ou no espaço que a gente próprio se dá. Tem uma relação de poder nisso aí. Eu posso escrever o que quero. Você pode ler ou pode não ler. <p>

Numa viagem filosófica, eu posso dizer ainda que, caso ninguém leia, eu não escrevi texto algum. Isso tudo só existe mesmo se alguém estiver aí para me conceder alguns segundos de atenção. Eu não sou um ator de cinema mudo. Não sei fazer graça, nem gesticular para a câmera. Sei escrever, acho, e preciso ser lido para existir e não parecer um chato. <p>

Reservo, portanto, a última coluna do ano para a promessa que 2007 será um ano de produção mais constante neste espaço. Para ganhar alguns leitores e provar que não sou um chato. Minha existência, como expliquei, depende disso. O tema escolhido será o quase nada, fator primordial para nossa existência. Alguém já parou para pensar quanto tempo passamos com o quase nada? Tem um livro do Paul Auster em que o narrador bate de carro porque se perde contando os minutos do dia em que ele leva abrindo portas, se espreguiçando, olhando o céu, ligando o computador ou coisas semelhantes. Assim será o meu quase nada. E, espero, o seu.   
<p>

<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>]]></description>
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<pubDate>Sat, 30 Dec 2006 00:48:57 -0300</pubDate>
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<title>Ainda não sou pai, Garotinho</title>
<description><![CDATA[<p>
Eu não sou um grande repórter e, mesmo que fosse, não acho que vocês teriam lá muita paciência para um "grande repórter" escrevendo causos da profissão aqui. Mas vou, sim, apelar para o jornalismo para dar continuidade a esta coluna. Já se passaram dois textos capengas (e atrasados) sem que eu encontrasse um razoável caminho a seguir. Não sei se encontrei o melhor, mas é melhor caminhar por estradas tortuosas do que ficar parado, poderia escrever o Humberto Gessinger, o Cazuza, ou outro dos "geniais" poetas do rock brasileiro. <p>

A coluna, que um dia tratou do cotidiano de um casal, com um quê de ficção e outro de realidade, vai agora falar do cotidiano de um repórter, com um quê de ficção e outro de realidade. Mas apenas com um aspecto da profissão como foco: a entrevista. <p>

Não sou péla-saco, portanto não vou escrever que entrevistar é uma arte. Não o é. Entrevistar nada mais é do que bater um bom papo com alguém que, usualmente, entende mais de um assunto do que o repórter. Muita gente boa da profissão pode aparecer com fórmulas mágicas para uma boa entrevista, em que se arranca aquela frase bombástica do entrevistado ou se descobre o segredo escondido a sete chaves. Mas vamos deixar uma coisa bem clara: cada entrevista é diferente uma da outra e não adianta ficar criando fórmulas. O que há de certo mesmo são duas (ou mais) pessoas batendo um papo, tête-à-tête. O que sai daí depende apenas da simpatia, capacidade de argumentação, conhecimento sobre o assunto... características necessárias para qualquer boa conversa, seja uma entrevista, seja uma discussão de bêbados em bar. <p>

E ainda assim, mesmo quando se é bom de papo, é impossível prever o que vai acontecer na entrevista. Certa vez me mandaram fazer plantão na porta da igreja em que o eterno candidato a presidente Anthony Garotinho gosta de ajoelhar e rezar. Era Dia dos Pais e eu fiquei lá esperando o culto acabar para conversar com o homem, que ocupava a secretaria de Segurança do Rio, enquanto sua mulher, a Rosinha, era a governadora. <p>

Eu tinha que perguntar umas coisas sobre a atuação da polícia nas favelas cariocas e outros detalhes que não me recordo. Isso foi há uns dois anos, minha memória não é tão perfeita assim, apesar de raramente eu gravar uma entrevista. Mas me lembro bem que, antes que eu perguntasse qualquer coisa, Garotinho se virou para mim e disse: "qual é o seu nome, meu jovem? André? André, feliz dia dos pais. Você ainda não é pai? Mas um dia vai ser, tenho certeza". <p>

Nenhum manual de jornalismo vai me explicar como reagir quando um sujeito diz uma coisa dessa numa entrevista. Maldição? Praga? Boa fortuna? Até hoje não sei o que a previsão de um Garotinho, saído de um culto religioso, pode significar. Ainda não sou pai, mas espero não demorar tanto para que a profecia se concretize e eu possa aceitar bem a congratulação do eterno candidato a presidente. Acho que, se eu tivesse um filho, poderia dizer facilmente "obrigado, secretário, mas eu gostaria de perguntar..." e não ficar parado com cara de babaca enquanto ele sorria e me deixava para trás. Maldita entrevista. <p>    
 
PS1. Em breve, espero poder mudar a foto lá do alto e a descrição da coluna. Mas, para quem interessar, Josy está bem, obrigado. <p>
PS2. Desculpem-me pelos atrasos. Vou me esforçar para que eles não aconteçam novamente. 
<p>

<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>]]></description>
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<pubDate>Sat, 04 Nov 2006 20:52:09 -0300</pubDate>
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<item>
<title>Sala de aula</title>
<description><![CDATA[Minha relação com a sala de aula sempre foi bem resolvida: eu num canto, ela no outro. Ter me tornado um profissional medíocre, portanto, não foi surpresa. Passei a faculdade no bar, derramando cerveja nos livros, abertos apenas nas vésperas das provas. Tenho um diploma de graduação graças à minha simpatia e, talvez, à capacidade ímpar que tenho em fazer amigos - não sejam cruéis e me chamem de adulador; foram amizades sinceras. <p> 
Mas, se há alguma vantagem na vida adulta, essa é a maturidade. De um estudante metido a rebelde no curso de jornalismo, passei a um estudante compenetrado, atento e participativo na pós em sociologia. Presto atenção total nas aulas, faço anotações e até me pego lendo um ou outro texto em casa. <p>
Talvez seja um indício de que eu realmente amadureci ou talvez eu esteja apenas valorizando o quarto do meu salário empregado no curso. Pessoas realmente sérias chamariam tudo isso de responsabilidade, tenho certeza. O mais importante é que voltar a uma sala de aula foi uma das experiências mais interessantes pela qual passei em 2006. Não apenas pelo aprendizado, mas também - e principalmente - pelo convívio carteira a carteira com outros alunos. <p> 
Eu já sabia, e a pós apenas me fez recordar, que existem três tipos de alunos participativos que fazem a graça de qualquer sala de aula caso se esteja de bom humor. O primeiro é aquele que pergunta exatamente a mesma coisa que o professor acabou de explicar. Parece, apenas, querer afirmar sua compreensão. <p>
O segundo é aquele que traz uma pergunta pronta de casa e não vê a hora de lançá-la no ar. Às vezes - quase sempre - o momento certo nunca aparece e ele interrompe uma explicação sobre o branco para perguntar alguma coisa sobre o negro. Sem preconceito, lógico. <p>
Já o último, o último tipo de aluno participativo que aparece nas aulas, esse é o mais fascinante. É o estudante negação, que gosta de questionar sempre tudo o que o sujeito no balcão diz. Ele nem sabe o que está dizendo, mas tem que discordar. É o mais chato de todos, mas talvez o mais justificável. Porque existe uma relação de poder entre ele, professor, e os alunos. É ele quem fica em pé; domina a lousa, possui a palavra. Para fazermos qualquer uma dessas coisas sem sua permissão, ou traçamos um esboço de anarquia ou estamos apertados para ir ao banheiro mesmo. No primeiro caso, que fique claro, estão incluídas as saídas para atender celular, namorar ou tomar um lanche - situações imperdoáveis na cabeça das antigas professoras repressoras dos colégios normais. <p>
Eu, do meu lado, apenas sorrio. Posso encarnar um ou outro tipo de aluno, mas faço de forma discreta, ligeira, quase imperceptível. Só abro a boca quando acho realmente que tenho algo a acrescentar. Ou quando quero fazer alguma piada. Adoro fazer piadas. As pessoas riem, sou bom nisso. E minha turma de pós é ótima para piadas: tem gaúcho, negro, gay, comunista, conservador, perua... E há combinações pós-modernas de todas essas minorias. <p>
Imaginem uma gaúcha perua gay neoliberal. É muita diversão numa personagem só. E a gaúcha perua gay neoliberal pode, ainda, com a voz grossa e a fala cantada, assumir o papel de aluno contestador, principalmente quando o professor não é neoliberal como ela: "Até a Arlete investe em ações da Vale e tem certeza que se não houvesse privatização, não teríamos uma mineradora de tri-qualidade hoje". É a deixa para a piada. Nada de tomar partido, a não ser o da graça. <p> 
Ah, nunca sei se a Arlete é a poodle da perua ou a namorada da gay. Quando eu descobrir, conto para vocês. ]]></description>
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<pubDate>Fri, 27 Oct 2006 14:25:29 -0300</pubDate>
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<item>
<title>Sandman</title>
<description><![CDATA[<p>
Queria falar sobre outros assuntos e até cheguei a escrever o primeiro parágrafo de um conto, mas tenho uma história importante e quero compartilhar. Entrevistei o Neil Gaiman essa semana. Ele mesmo, o pai do Sandman. Não contem para ninguém, principalmente para o próprio, mas sou fã do sujeito de longa data. A entrevista deve sair no jornal que paga meu salário qualquer dias desses, portanto não vou perder tempo contando o que ele disse. <p>

Mas vou gastar umas linhas para escrever sobre o Sandman. Para quem nunca leu, aí vai uma pequena sinopse sobre o conjunto de suas histórias, a mais simples e boçal que eu consigo fazer: "Morpheus, rei dos sonhos, vive envolto em problemas para controlar seu reino e lidar com seus irmãos, Destino, Delírio, Desejo, Desespero, Destruição e Morte". <p>

Explicando assim não parece muito interessante, certo? E talvez este seja o maior barato do Sandman de Neil Gaiman. Ele cria histórias fascinantes a partir de uma premissa estranha demais para ser explicada numa pequena sinopse. Tem que ler para entender e entender para gostar, não tem jeito. <p>

Eu li pela primeira vez há alguns anos e demorei para me render completamente a seus encantos. Era um pré-adolescente que comprava qualquer gibi ligado ao universo mutante, quando começaram a pintar por aqui as primeiras revistas com histórias da Vertigo (selo americano, braço da DC Comics, que publicava Sandman, Hellblazer, Homem do Pântano e Preacher, entre outros). Minha primeira reação foi achar estranho, mas interessante. <p>

O problema é que pouco depois da descoberta, aderi durante um tempo a um catolicismo cego, em que não era possível aceitar pensamentos divergentes dos ensinamentos cristãos. Assim, uma história do Hellblazer em que se insinuava um sexo com a Virgem Maria foi parar na lixeira. Pegando fogo mesmo, para expurgar o demônio. O selo Vertigo, portanto - e, por consequência, Neil Gaiman -, virou palavra proibida na minha vida até ela mudar mais uma vez, alguns anos depois. <p>

Igreja deixada de lado, as revistas da Vertigo voltaram a ser compradas. Tive que rodar muitos sebos no Centro para achar as melhores histórias e considero, hoje, a experiência fundamental para minha formação intelectual - o que quer que isso queira dizer. Procurem Sandman nas livrarias, em livros bem tratados com capa dura, lançados pela Conrad, que é diversão na certa, garanto. E não deixem de mostrar para seus filhos.  <p>

Confessado o apreço, fica claro que entrevistar o Neil Gaiman é uma honra, mas há, ainda, um detalhe curioso nessa história toda. Eu tenho dormido mal praticamente todas as noites. Não me lembro de outra época da vida em que tive tantos pesadelos, sobre assuntos e personagens distintos. E são o tipo de pesadelo que nos fazem acordar algumas vezes durante a noite e lembrar de tudo o que aconteceu. As histórias ficam martelando o dia todo e, sério, não dá para trabalhar confundindo lembranças ruins imaginárias com a realidade. Minha pouca sanidade vai para o espaço. <p>

Mesmo assim, não fui estúpido o suficiente para perguntar para Gaiman como me livrar dos meus pesadelos. Mas perguntei se ele acreditava em Deus e numa vida após a morte. "In a Quantum universe, all things are possible somewhere, after all", respondeu. Tirei minhas conclusões e, caso eu consiga voltar a ter noites tranquilas, conto para vocês numa outra coluna. <p>

Sobre a resposta de Gaiman, compartilho apenas uma elucubração: e tem gente, vejam vocês, que ainda se diz ateu. E ateu praticante, para complicar ainda mais a situação. 

<p>

<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>]]></description>
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<pubDate>Wed, 18 Oct 2006 00:50:36 -0300</pubDate>
</item>
<item>
<title>Recomeço</title>
<description><![CDATA[<p>
Acabou. Vocês leriam nesta coluna como foi, para mim, viajar uma semana sem a Josy; e como foi, para ela, ficar uma semana no Rio sem mim. Mas não, não vou contar minha experiência em Melbourne, onde um repórter francês me concedeu uma piscadela e um tapinha na bunda depois de perguntar se eu iria numa festa quinta-feira à noite. Sem uma contrapartida no que costumava ser o lado de lá da coluna, minhas histórias na Austrália, 13 horas de distância do que acontecia no Rio, ficam sem graça. <p> 

Mas não achem que acabou porque eu cedi ao biquinho do francês dizendo "je veux te manger". Preferi dormir na quinta à noite e não, a coluna não se encerra numa confissão homossexual. Acabou mesmo porque tudo de bom (bom?) chega ao fim numa hora ou noutra. Mas não sejam levianos para tirar conseqüências apressadas sobre o que teria acontecido com o casal para levar a coluna à bancarrota. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. <p>  

Assim, só não vou dizer que meu paletó vai continuar enlaçando o vestido de Josy, porque eu raramente visto paletós. Como tampouco uso sapatos. O motivo do término da coluna é bem mais simples do que um rompimento prematuro numa relação que, como está escrito aí no alto, começou em meados de 2005. Ela, a Josy, anda ocupada demais para escrever: trabalho, mestrado e vida de dona de casa não são coisas simples. Falo por acompanhar de perto sua rotina, não por experiência, deixo claro - não sou dono de casa alguma, só me inscrevi numa pós para não parecer inferior a minha namorada, e sou conhecido pelo estilo minimalista de trabalhar. <p>

Pois bem, talvez um dia ela volte, mas ao menos por enquanto foi-se embora a "Não nos arrependemos daquele sábado". A CEO deste portal, Mila C., está sendo informada da novidade como todo mundo, lendo este texto sem rumo, sem noção de qual horizonte seguir. Porque, caso Mila C. não se oponha, pretendo continuar ocupando esse espaço com algumas palavras. Sei, porém, que a falta da foto (vou mudar) e do nome da descrição (também vou mudar) de Josy que aparece aí em cima vai afastar os já poucos leitores que temos. Ela tem muitos amigos. De mim, poucos gostam. <p>

Mais um problema em continuar é achar um tema para guiar esta carroça. Não quero perder o tempo de ninguém divagando sobre minha vida, que não tem muita graça sem Josy para compartilhar programas e textos. Gosto de política, cinema, música, literatura e artes plásticas, mas não sei se me animo, no momento, a escrever sobre qualquer um desses assuntos. Não quero parecer pernóstico com citações eruditas. <p> 

Outra possibilidade seria escrever contos curtos, mas minha ficção anda muito capenga de uns meses para cá. Portanto, meu problema atual, o maior deles, é achar um tema para esta coluna. Um tema e um novo nome. Conto com a ajuda dos poucos leitores que temos e dos pouquíssimos que eu terei para que encontremos a melhor solução para mim e para vocês. <p>

Ah, é lógico que temas como "bebida" ou "couvert" estão previamente descartados para não atiçar rivalidades ou estimular concorrência. Também não sei escrever sobre biologia molecular ou o cotidiano de uma high school americana pós atentados de maníacos com espingardas. Se não aparecer um bom tema até a próxima quarta, talvez eu transforme isso aqui num guia de viagem e fale de como é pouco agradável a alta amplitude térmica de Melbourne. Mas eu não viajo tanto para escrever sobre um canto interessante a cada semana, gente, e não quero fazer uma coluna sobre Teresópolis, Búzios ou São Gonçalo. <p>        

Pensem e me ajudem a decidir. E ajudem, também, a convencer a Mila C. a me deixar continuar usando este espaço. Quem sabe Josy não aparece de vez em quando para fazer uma participação especial e explicar por que não nos arrependemos daquele sábado?  <p> 


<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>	]]></description>
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<category></category>
<pubDate>Wed, 11 Oct 2006 19:12:37 -0300</pubDate>
</item>
<item>
<title>Festa Black</title>
<description><![CDATA[<div style="width:260px; float:left; text-align:justify; padding-right:19px">
		<br>

O André costuma não levar muita fé nos meus gostos. Foi assim com a comida árabe. “André, vamos comer um falafel?”. “Nunca comi”. “Ai, cara, você vai amar, é uma das melhores comidas do mundo”. “É, é, é, deve ser”. Leiam esse “é, é, é, deve ser” com um tom de deboche e vocês entenderão. A falta de fé dele para com a minha pessoa não fica só na comida: funciona também com música, filmes e pessoas. É até engraçado porque este é, com certeza, seu lado mais ranzinza. Qualquer dia compro um gorro do anão zangado da Branca de Neve e aí, sim, ele estará vestido apropriadamente. Hummm, sexy... <br><br> 

Quando o moço ligou na sexta passada, perguntando o que faríamos naquela noite, falei, com medo da reação, que queria ir na festa Black, aquela que acontece na última sexta de cada mês, na Cinelândia, perto do Rival. André foi mais receptivo do que nunca. “Nasce um novo homem. Onde foi parar o ‘é, é, é, deve ser legal’, em tom de deboche?”, pensei. E todos os argumentos que tinha guardado para convencê-lo de irmos nem precisaram ser ditos. <br><br> 

Mas eu conto alguns deles para vocês: uma das minhas melhores amigas tinha ido no mês anterior e amado, outras duas pessoas tinham falado da festa, era de graça, a cerveja era barata, é sempre bom ir ao Centro, a gente ainda podia dar uma passada no Odeon... <br><br> 

Todos prontos, sexta à noite, programa marcado com a mesma amiga que tinha amado a festa, vambora. Tudo bem, estava cheio. Cheio além da conta. E não tinha galerão dançando no meio da rua como essa amiga tinha dito. Ninguém dançava, todo mundo se espremia. E a gente não conseguia achar a tal amiga no meio da multidão. E o lugar tinha cheiro e poças de mijo, em alguns cantos. E o André já estava com  cara de “eu sempre desconfiei dos seus gostos, te dei um voto de confiança e olha só no que deu”. Droga. <br><br> 

Vinte minutos depois da primeira má impressão, eu estava gostando. Na verdade, gostando muito. Achamos a amiga, o namorado dela e a cerveja barata e as pessoas começaram a dançar. Música boa (soul, hip-hop, anos 70), programa democrático, pessoal feliz. Bem, do grupo “pessoal feliz” não faziam parte o André e o namorado dessa amiga. Ela olhava para o André e, tentando consolá-lo, dizia: “pelo menos é um programa para a coluna de vocês...”. <br><br> 

Ela veio parar na coluna, mas, coitada da festa Black, não contou com a nossa presença nem por 30 minutos. Atordoado com o cheiro do churrasquinho, André pediu arrego, acusando até a moça gorda que dançava do nosso lado de estar espremendo-o além da conta. Acabamos a noite com um chope no Amarelinho, onde ele inclusive me acusou (mais uma acusação, notem bem) de ter fingido que gostei da festa Black só para agradar minha amiga. Agora eu quero ver se alguém concorda comigo: o André merece ou não merece o gorro do anão zangado da Branca de Neve? Hummm, sexy... <br><br> 

<p>
		<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>Josy</strong>					
		<p><p> </div>	

<div style="width:260px; float:left; text-align:justify; padding-left:19px; border-left:1px solid #E4E4CA">
		<br />


Mesmo com vontade de escrever no tempo presente, como na semana
passada, vou mudar o estilo simplesmente porque meu presente não é o
mesmo do de Josy no momento. Para resumir o que será a coluna da
semana que vem e ninguém ficar boiando, este texto começa a ser
elaborado num avião entre Nova Zelândia e Austrália, no dia 3 de
outubro. Enquanto isso, Josy está no dia 2, no Brasil. <br> <br> 

A coluna, portanto, passa por momentos inéditos: estamos, Josy e eu,
mais distantes um do outro do que jamais estivemos (literalmente,
nunca metaforicamente); eu escrevo com caneta e papel; e não vamos nos ligar de dois em dois minutos para discutir algum possível erro que um de nós possa ter cometido depois de publicar a coluna. <br> <br> 

História relatada, alguém ficou triste? Porque eu estou e nada melhor
do que lembrar de um momento junto para deixar a saudade um pouco de
lado. Mesmo que o momento, uma tal festa Black no Centro, não tenha
sido dos mais agradáveis. <br> <br> 

Na sexta antes da minha viagem, fomos para a Rua Álvaro Alvim, onde um sujeito arma uma vez por mês umas caixas de som muquiranas, prepara um churrasquinho e bota um ou outro para dançar. A pândega acontece ao lado da Cinelândia e, não tem como negar, é um sucesso de público. É gente para cacete que fica rodando para lá e para cá numa típica festa de rua. Bebe-se, conversa-se e espreme-se entre um fedor de mijo e uma fumaça gerada pelo rabo do falecido miau queimando. Eu já estava achando tudo insuportável quando uma gordinha parou atrás de mim e lembrou-me, com banhas, que eu tenho asma e odeio lugares lotados. <br> <br> 

Mas Josy estava dançando. Ela, sua amiga Fernanda e cinco ou seis
blacks, entre 500 que bebiam, conversavam e se espremiam. Festão, como vocês podem imaginar. Mesmo assim, Josy, aí do lado, vai escrever que a festa é otima e que, na realidade, eu sou racista. É a péssima mania que ela tem de destruir meu discurso com acusações contra meu caráter. E olha que ela faz com uma carinha linda que quase me convence! <br> <br> 

Bem, deixando a hipocrisia de lado, é logico que sou racista. Como
qualquer brasileiro, aliás. Mas não foi isso que me fez desgostar da
festa. Não havia ali uma real identidade black. Escutava-se um James
Brown, mas o que a maioria queria mesmo era beber e comparecer à
última-festa-cool-da-cidade. Não dá para curtir uma festa assim, né,
gente? Gerson King Combo e seus mandamentos black concordariam comigo, tenho certeza. Existe o mérito da autenticidade pela forma como a festa surgiu, mas é pouco, muito pouco. <br> <br> 

Hoje - termino essa coluna no dia 4, já num computador - entrevistei o Fabio, um DJ inglês negão, parceiro do Grooverider. Ele disse que
começou a fazer drum & bass quando sentiu que a música do New Order
nunca teria a mesma alma da feita pelo Marvin Gaye. Festa black na
Cinelândia? What's going on? <br> <br> 
<p>
		<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>					
		<br><br><p><br><br><p> </div>	
]]></description>
<link>http://www.matrizonline.com.br/portal/colunas/aquelesabado/arquivos/2006/10/o_andre_costuma.php</link>
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<category></category>
<pubDate>Thu, 05 Oct 2006 18:22:34 -0300</pubDate>
</item>
<item>
<title>Loud! na Estudantina</title>
<description><![CDATA[<div style="width:260px; float:left; text-align:justify; padding-right:19px">
		<br>

Nunca tinha entrado na Gafieira Estudantina. Quando o espaço passou a receber festas alternativas - agora é Nova Estudantina &#8211; achamos que já era hora. Acredito até que a idéia de irmos lá neste fim de semana foi dos dois, minha e do André, sem que precisássemos sequer falar um com o outro sobre o assunto. Era Loud!, com show do Frank Jorge, do Graforréia Xilarmônica. A idéia soava perfeita para ambos. Ótimo sinal de que temos mais coisas em comum, além de sermos piscianos, termos nascido no mesmo mês e no mesmo ano e sermos jornalistas, como apregoa a nossa chamada nesta coluna.<p>

Cheguei a me sentir culpada porque o André achava que a festa era na sexta, o mesmo dia do jantar de ano novo judaico, compromisso familiar anual que me custaria um fígado se eu ousasse não aparecer. O cenário pós-jantar tradicional/religioso de sexta-feira tinha como protagonistas um casal de namorados quebrados. Foi assim que desistimos do programa. Qual não foi a nossa surpresa quando no sábado, procurando o que fazer à noite, abrimos o jornal e estava lá, nos tijolinhos do Segundo Caderno: Loud / Nova Estudantina / sáb / a partir das 22h / R$ 20 / 18 anos. Ufa...<p>

Fomos. Chegamos lá às 23h e estava vaziiiio. O que por um lado foi ótimo porque deu para ver bem o lugar. Lindo, escuro e com uma foto da Daniella Perez na parede. O que por outro lado também parecia ótimo porque poderíamos fofocar. A gente adora fofocar. O único problema era que, enquanto rolava um som indie do DJ Edinho, nossas fofocas simplesmente... não aconteciam. Tudo bem, nem todo dia é dia de fofoca. <p>

Estávamos quase desistindo de falar da vida alheia quando, na pista de dança, avistamos um casal de conhecidos que, até então, não sabíamos que formavam um casal, no sentido amoroso da palavra. Entendam: acontecia a descoberta de um novo par na praça. André me cutucou. Era uma ótima fofoca. Mas que me fez viajar para um tanto longe dali.<p>

Comecei a pensar em como inícios de relacionamentos são sempre mágicos. É claro que sei que há inícios trágicos, mas sempre que lembro dos primeiros dias (ou meses) deste namoro que hoje pode ser acompanhado por desconhecidos (e conhecidos) como um Big Brother virtual, passo a achar que todos os inícios de relacionamento são mágicos. <p>

A surpresa da primeira ligação; as horas que você gasta pensando em uma maneira inteligente e fofa de responder a um e-mail bobo; os papos na primeira saída; a certeza de que falou algo ridículo quando já tinha tomado alguns chopes a mais no terceiro encontro; o medo de que, a partir da coisa ridícula que você falou, ele desista de você; a felicidade suprema em encontrar um e-mail, no dia seguinte ao chope do terceiro encontro, com duas perguntas simples ("Dormiu bem? Vai poder me ver hoje de novo?"); o dia em que ele usou a frase "eu não me arrependo daquele sábado", que deu origem ao nome desta coluna... Lembrar das coisas que fizeram parte do início do seu namoro dá uma saudade incrível. <p>

O jeito é não esquecer de tudo isso e, no meio da pista de dança, dar um beijo no seu namorado como se fosse a primeira vez. Ao som de "Amigo punk", sendo tocado por Frank Jorge, uma das músicas que mais me lembram o nosso início. Leiam a coluna do André aí do lado e vocês verão o resultado.
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<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>Josy</strong>					
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É sábado e o salão da Gafieira Estudantina está vazio, talvez porque chegamos cedo demais, talvez porque pouca gente no Rio curta o gaúcho Frank Jorge. É estranho ouvir um bom rock num ambiente de gafieira. Ainda nem é meia-noite, o show está longe de começar e Edinho ou Tulio - está escuro, não consigo ver bem qual DJ é o responsável pelo som no momento - toca I Can't Explain, do The Who, enquanto uma mulher e um homem se esforçam para colocar um filtro roxo entre a lâmpada fluorescente e o salão, provavelmente para criar um clima. <p>

A cerveja Itaipava é vendida em garrafa, a R$ 3. A Itaipava tem um dos melhores custo-benefício entre as cervejas brasileiras: não é cara e definitivamente não é ruim. Compro cinco tíquetes de uma vez porque sei que vou usá-los. Adoro beber cerveja em garrafa porque elas duram mais e costumam ser mais geladas do que as em lata ou long neck. Além disso, não está tão quente como pode ficar num lugar de teto baixo como a Estudantina, mas faz calor no Rio. <p>

Josy toma uma caipirinha de limão, das mais simples, certamente pior do que as de morango que eu faço. O salão continua vazio, mas chegam uns sujeitos todos animados vestindo roupas pretas e usando adereços coloridos berrantes. Os roqueiros no Brasil têm que se vestir de preto, por um motivo que ignoro. E os roqueiros indies têm que se vestir de preto com adereços berrantes. Josy não usa adereços berrantes, tampouco roupas coloridas muito chamativas. Já eu tenho um relógio vermelho, que utilizo tanto para correr na praia, para trabalhar ou para dançar na Gafieira Estudantina. <p>

O salão vazio, as pessoas de preto e um quadro enorme da falecida Daniella Perez dão um ar mórbido e interessante ao ambiente. Um garçom começa a dançar ao som de uma canção que nem eu conheço. É justamente o ambiente, tenho certeza, o responsável por deixar o clima entre Josy e eu estranho. Minutos de silêncio, um olha para a direita, outro para a esquerda. Não há razão aparente, não houve discussão anteriormente, só pode ser culpa da morbidez do ambiente. O salão vai enchendo, não tem bolero, samba ou soltinho, mas os casais vão se formando e dançando de um jeito que não se fazia em 1932, quando a Estudantina foi inaugurada. <p>

Só quero assistir ao show do Frank Jorge, ouvir as músicas do saudoso Graforréia Xilarmônica,  dançar "Amigo Punk" e depois ir embora. Não quero olhar para a direita enquanto Josy olha para a esquerda. Gosto da festa, a Loud!, e gosto do presente, não do futuro, muito menos do passado. Josy sabe disso e resolve resolver. Resolve intercalar as retas imaginárias formadas pelos olhares e me beijar. <p>

O beijo não é nada, nada mais do que tantos beijos que Josy já me deu e tantos outros que ainda vai me dar. Sua mão, porém, faz o favor de garantir que nossos olhares não vão deixar de se cruzar novamente neste sábado. Ela aperta e puxa minha nuca e beija. Passa a mão no meu rosto e beija. Estraga meu penteado e beija. <p>

É sábado, o momento mão e beijo não acaba e esqueço que o tempo passa. Esqueço, também, de conferir se o filtro da lâmpada está bem fixado. O ambiente é mórbido, o clima foi criado, a Gafieira Estudantina fica toda preta a não ser pelos adereços berrantes. Até a Daniella Perez vira um retrato em branco e preto. Mas esqueço tudo isso porque existe o beijo, existe Josy, existe o presente - não o passado, muito menos o futuro - e existe aquele sábado. <p>

<img src="http://matrizonline.oi.com.br/_img/_sys/seta_2.gif" alt="seta" width="9" height="6" border="0" /> <strong>André</strong>				
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<pubDate>Wed, 27 Sep 2006 18:41:33 -0300</pubDate>
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