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Sem morte* | 17 de julho de 2007

“Seus braços são o único lugar do mundo sem morte”. Ahn? Ela perguntou dois segundos depois de subtrair a atenção que dedicava aos pratos sujos na pia. A espuma do detergente biodegradável cobrindo os dedos. Eu disse que nada, apenas havia pensado em voz alta, nada demais. E repeti. Seus braços. Lugar. Sem morte.

Os braços se abrindo em ângulos de pouca gravidade, o movimento circular acompanhando a borda dos pratos, o cabo das colheres, a serra das facas. Um lugar sem morte. Quarenta e sete centímetros quadrados de um fato apocalíptico; de quando a morte fugirá dos homens. Eram os braços dela. De costas, nua com o avental cobrindo os peitos. Ângulo reto do ombro ao cotovelo.

(…)

Faz um tempo. Inusitada. Com seus dois caminhos estendidos na sessão de frios do supermercado. Tarde da noite, quando os rostos denunciam apenas tédio e desilusão. Calor foi o que ela disse. Senti calor e estendi meus braços pra deixar o frio dos freezers tomar conta deles. Quanto podemos nos aproximar do sublime? As duas varas de bambu esguias com cheiro de cigarro e álcool, tal qual seu hálito: sublime.

Uma mulher que coleciona saboneteiras. Houve um dia em que todas elas, de muitas cores, derramaram-se desempilhando a pirâmide como haviam sido organizadas nos seus braços. Ela mostrando com um sorriso frágil a ingênuo que conseguia carregar todas de uma só vez. A fumaça grossa e cheia de formas dançando no ar seco do quarto. Riu descontroladamente, cruzando os braços rentes às coxas.

Dos braços estendidos a entrelaçados, tateando o escuro do mundo aconchegado no corredor que vai da sala ao quarto. Não muito tempo. E fui deixando as coisas, os ruídos ao redor de mim antes de partir. As botas, a mochila, as fitas, as agulhas. E pulei. Sem um pingo de auto-piedade nesse abismo entre dois braços. Braços em que não há morte.

*Sob poema de Fabrício Corsaletti

seta Rodrigo Levino
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Sobre escrever | 24 de junho de 2007

A folha em branco é uma boca cerrada. Uma mudez que se arranca com o movimento dos dedos, que são quase dentes mastigando o teclado e juntos da língua produzindo a tal palavra. Escrever é um ato solitário como o poder. Um desconforto na beira do abismo de simplesmente não conseguir exprimir, de novo a tal palavra. E se sair, enfim, a quem servirá?

Não é prático como ligar um mp3 player e desligar-se do inferno ao redor, preso numa bolha de som em alto volume, dentro do ônibus, pela manhã. Os tímpanos doem, mas é que lá fora pode ser pior, então… Você liga, aumenta e some dali em instantes. Não é de todo mau, o esforço é pouco e o resultado, apesar de ilusório, alivia a pressão.

Não é fácil como comprar um disco pirata na esquina, três reais e coisa e tal. Não é. Não é simples como infringir a lei no meio da calçada do banco estatal e enfim, isso tudo custa muito caro e eu estou nem aí para o discurso em defesa do Estado e dos impostos. Chego em casa e esqueço tudo viajando no roteiro cabeça daquele diretor espanhol.

Escrever não é como chegar num bar pedir um guaraná com bastante gelo. E ficar viajando nas conversas vazias das lindas moças nas mesas e seus olhares furtivos para quem não precisa de muitas palavras e tem a tal da atitude. Eu não tenho. É impraticável carregar nos bolsos um punhado de poemas bacanas e até divertidos que falem sobre a solidão num bar. Serão lidos para quem? Certamente pela única menina com cara de psicopata do bar.

Não, não é como essa lista de pequenos prazeres da “síndrome de Amélie Poulain” que assola o mundo dos que precisaram de um filme para saber como é bom enfiar os dedos num saco de feijão ou deixá-los engelhar debaixo do chuveiro. A lista você só precisa copiar, experimentar ou fazer analogia com as coisas esquisitas que todos nós fazemos e só nós sabemos como é bom. Escrever é mais trabalhoso do que isso.

Não há explicação palpável e não ser uma faca invisível na garganta, um senhor de modos impositivos que não tem rosto, surge do nada e não deixa saída aos que escrevem, seja lá o que for e a quem o bilhete passado de mão em mão na sala de aula se dirija. Escrever é o ato final da tragicomédia de não ter onde se sustentar a não ser entre as palavras. Todas elas, escritas, faladas, observadas enquanto preenchem a folha em branco, como se a gravidade também as mantivesse em direção ao chão.

A folha em branco, um descampado aos poucos recoberto por sinais escuros que justificam a dor de uma unha encravada que é o pavor de não saber sobre o que falar. Escrever é a dor que de tão dor se anestesia, para depois ser a sensação delirante até, de sentir a pele formigando, sarando aos poucos e assaltando um resto de sorriso que há no canto da boca. O estômago se recompõe do soco quando não há mais espaço a ser escrito e a coluna desta semana está enfim, pronta.

seta Rodrigo Levino
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ESSA COLUNA É ATUALIZADA TODAS AS TERÇAS FEIRAS
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