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Igual ao Nosso | 12 de junho de 2006

Quarenta graus. Areias escaldantes. Uma cerveja geladíssima. Rio de Janeiro? Não. Escrevo enquanto viajo pelo sertão nordestino a trabalho. Mila via scrap cobra uma crônica “para ontem”.

Por alguns instantes a coletânea do Primal Scream com as melhores músicas para estradas desertas, tocando sem parar no mp3 player, dá a impressão que sou um Rob Fleming perdido na caatinga. Falsa impressão. É nesse fim de mundo onde me sinto mais à vontade. Claro, em certas horas o frio londrino cairia bem.

Uma placa de Fanta enferrujada, uma marquise improvisada onde são atendidos os passantes dessa estrada reta. Dois dedos de prosa com uma senhora gorda e gentil, num instante ela começa a contar que o filho estuda na capital e que tem um “negócio desses, igual ao seu aí”. Um laptop.

Pergunto se ela pensa em morar com o filho na “cidade grande” e a resposta é um abusado “jamais”.

Despeço-me e fico pensando: é como se tudo que o mundo oferecesse de mais tentador demorasse um tempo para assentar por aqui, fosse tomando pé devagar até ser assim: um negócio desses, igual ao nosso.

Não por falta de acesso. Esqueça o que você assiste no Jornal Nacional sobre onde estou. Lembra do meu Primal Scream? Britpop puro.

De certa maneira isso ajuda a conservar algumas raízes que o clima de permanente espectador, de um caleidoscópio sem lógica que existe na vida metropolitana, parece ter soterrado.

Em cada cidade perdida que eu cruzo nesse sertão, sei que há um roqueiro, um libertário, um poeta bêbado que recita versos de amor e fúria, alguém que ainda tem nos olhos o mesmo brilho de Cameron Crowe quando encontrou debaixo da cama todos os discos de rock da irmã fugidia.

Foi assim comigo. Faz tempo. Eu ouvindo Beatles e outras coisas do tipo, sob um sol de rachar a moleira.

Meu tio, foragido e dado como morto por seis anos, um dia voltou para casa. No meio da bagagem uma dúzias de LPs. Música do diabo.

Voltou para onde nasceu, ali no meio do mato. Mostrou-me todos os discos empoeirados que tinha, tocados por uma agulha suja. Revolver, Abbey Road, Sgt Peppers, White Álbum, Dark Side of The Moon, Raul Seixas.

Até hoje quando lembro de tudo fico na dúvida se não é criação da minha mente doentia. Talvez pela maneira quase sem tesão de descobrir as coisas hoje, organizadas em pastas e arquivos, downloads e e-mules, iPods e Mojos. Ou quem sabe pela improbabilidade que paira nossas mentes de que nem tudo é possível. Por aqui a lógica é outra.

Quando encontro meu tio cheio de histórias confirmo a veracidade do que escrevo. Afinal de contas, para a “cidade grande” ele não vai jamais. Já os discos que ele me apresentou, um dia chegarão aqui via iPod. Deve demorar, mas aos poucos vai se tornando assim: um negocio desses, igual ao nosso.

seta Rodrigo Levino

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