Paul Valéry tinha razão: “No mundo das crenças, os fatos não penetram”. É ao que recorro diante da comum impossibilidade de não ser cercado por olhares tortos quando anuncio em alto e bom som: eu não gosto de futebol.
E mais: eu odeio o clima de catarse coletiva em tempos de Copa do Mundo. Eu não tenho camiseta oficial. Não compro bandeirinha. Não coleciono figurinhas. Perdendo ou ganhando, tanto faz, nada referente à Seleção Brasileira me interessa.
Meu esporte é cinema, meu futebol é música. Então eu pergunto: que mal há nisso? A Nina avisou que vai fazer deste espaço um “terapeuta 0800”. Estou na mesma. Vamos lá.
Quando eu procuro no passado a raiz deste provável trauma, me vejo diante de uma infância incomum. Míope aos 4 anos de idade, usando um autêntico fundo de garrafa sobre os olhos, fui abstêmio da prática esportiva.
Não havia como jogar bola. Sem os óculos, os quase nove graus de miopia e astigmatismo não me permitiam enxergar nada além de vultos cinzentos. Com os óculos, o risco de espatifar cacos de vidro na cara - o que aconteceu umas três vezes – era iminente.
A solução: manter-me longe dos campos, das várzeas e sempre com um atestado médico à mão para fugir das aulas de educação física.
Cresci assim: um nerd rechonchudo. Mas não odiava o futebol. Era legal ver os amigos jogando. Ficava sempre ao lado do campo, provocando os dois lados. E quando algum deles estava perdendo, eu era a arma secreta. Entrava rachando toda canela que passava na minha frente. Um “perna de pau”.
Mas eu gostava de ver, torcia. Lembro de ter sentido um nó na garganta diante do São Paulo campeão mundial pela primeira vez, e depois em 93 campeão da Supercopa diante de um Flamengo cheio de estrelas. Maravilha, jogaço! A seleção de 94, mesmo campeã, já era o velório do meu gosto por futebol.
À medida que fui deixando a infância, o futebol foi ficando junto. Porque na minha cabeça doente, que começava a ver o mundo mais amplo, o que eu passei a enxergar pela TV e nos estádios era uma corrupção de tudo que eu gostava de participar - mesmo que só com os olhos - quando criança.
O que era lúdico acabou soterrado pelas cifras nababescas. O que era brincadeira entre bons amigos e motivos de intrigas que não duravam cinco minutos de acréscimo, virou mercadoria e razões de brigas eternas.
O futebol, apesar de inventado por adultos, deveria ser para sempre algo assim: para crianças, moleques, coisa de fim de semana, entre amigos, o tira gosto para a cervejinha gelada. Nunca um fosso entre pobres e ricos, um plano de mercado, um instrumento de máfias.
A Copa do Mundo não é o mundo unido pelo esporte. Não é a amizade entre os povos. Isso é balela. É um retrato em 3X4 de tudo que é mercantilizado e se lê nos cadernos de política e economia dos jornais.
Os americanos mantiveram-se presos em sua concentração, com medo do terrorismo. Os árabes morrem de medo de serem surrados pelo sultão caso percam uma partida.
Os africanos são destacados pelo time europeu em que jogam e não pelo continente de onde saíram. O Brasil? É sempre o Brasil. Exótico, engraçado, coisa para gringo ver, mas assim, de longe, sabe? “Deixa o futebol para eles, a grana (que é o que importa) a gente guarda na Suíça”.
Nada contra. Até gosto quando o mundo pára. Só assim consigo trabalhar em paz, sem barulho nos corredores da empresa, degustando com calma os discos que baixei e ainda não ouvi.
Não me sinto menos brasileiro por causa disso. Não sou um ET. Eu gostaria imensamente que o povo se preocupasse mais com a política do país, com o bando de escrotos que rateiam o que é público, como se fosse de ninguém. Como não é o caso, enfim, eu só peço que deixem curtir minhas manias em paz.
Eu acho estranhíssimo deixar que uma vida seja tocada de acordo com a tabela da Copa do Mundo ou os comentários do Galvão Bueno, mas eu respeito. É uma crença. E no mundo das crenças, os fatos – como o de eu não gostar de futebol - não penetram. Paul Valéry tinha razão...
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Acho que os sentimentos e desejos de alguém devem ser intocáveis, no ponto de vista de respeito às diferenças. Não gosto muito de futebol, mas o meu sentimento de aversão a esse esporte alucinógeno, é facilmente influenciado por alguns amigos batendo a minha porta e me chamando pra ver o "clássico”. O que acontece? Não resisto a companhia, mas o jogo continua sento chato e entediante pra mim.
Ainda tenho nítido em minha memória a belas partidas de futebol entre os irmão Levino e eu, quando éramos crianças, minha nossa! Impossível uma jogada não ser impedida, não por causa do impedimento técnico, mas sim o impedimento físico,rssr. A nossa partida de futebol era um desastre sem fim. Foi um tempo maravilhoso e engraçado!
Grande abraço Rodirgo, texto maravilhoso.
Eu caho q da pra prestar atenção na copa e no resto do país(vida politica) do país ao mesmo tempo. E acho q a copa é o de menos em termos de alienação, porque a alienação cotidiana é maior, pode ter certeza. A programação da tv, as noticias manipuladas em geral, a internet onde 70% é lixo... Isso é todo dia e corroi lentamente sem se perceber. A euforia da copa do mundo se esvai com uma derrota: França 1X0 Brasil!
Levino, você é um velho!!! rsrsrsrs
Brincadeirinha. Concordo, mas eu adoro futebol, cara. Joguei até 20 anos, depois me aposentei do esporte e me dedico a dar pitaco em todas as partidas....rsr
Rodrigo, você e sua precisão de sempre. Eu definitivamente sou um viciado em futebol, mas vejo que a Copa de Mundo, especialmente em terras tupiniquins desvia o foco da população de muitos problemas. A popularidade de Lula cresce a cada dia; os mensaleiros devem estar em alguma fazendinha "curtindo" os passes futebolísticos nacionais amparados de muito churrasco e cheiro fétido do golpe financeiro e moral contra o povo. De uma coisa estou cego, você, sem óculos, com seus 9 graus, tem o foco muito mais ajustado do que nós normais. Incomode-se e grite. Isto é o que nos mantém vivos! Um abraço e você sabe que sou um cotumaz leitor das suas preciosidades literáris. Humberto
Nisso tudo o que mais me irrita é ligar num telejornal e ver 90% da programação preenchida por futebol: quantas vezes ronaldinho coçou o queixo e coisas indispensáveis do tipo. Putz, tem limite!
Gosto de futebol e gosto desse clima de Copa do Mundo ( inclusive com o país parando na frente da tv), mas também gosto e sou sensível ao seu belo texto, Rodrigo.
Sinta-se á vontade por não gostar de futebol e nem se incomode com os olhares estranhos. Eu não gosto de festa junina e pronto,rs.
Cara, eu gosto de futebol, mas do futebol que você bem definiu. Concordo com seus argumentos, e acho a homogeneidade um absurdo, acredito que as diferenças são salutares, ainda mais sendo bem argumentadas e sempre com um senso crítico aguçado, senão viraremos aqueles idiotas da obra "Adimirável Mundo Novo", do Adous Huxley (sei lá como escreve o nome dele).
Ah, num seria legal se a Argentina ganhasse? acho a maior baboseira essa "guerra" com nossos hermanos. Viva a América do Sul unida!
Eu gosto de futebol... Mas odeio Galvão Bueno. Pena que a maioria das pessoas tem o mau hábito de assistir os jogos pela Globo ao invés de ver a ESPN ou qualquer outro canal, MENOS a Globo... Ou melhor, a Globo COM GALVÃO.
Cara, Brasil perdendo com Galvão narrando é um lamento, um agouro sem fim! Quando diabos esse homem se aposenta?
Fiquei imaginando a cara de certas pessoas lendo esse post. A cara de assombro das pessoas que juntaram suas economias de quatro anos para irem à Alemanha...rs. Mas, enfim, você nem precisaria justificar..não gosta, não gosta, ponto final.
Todo mundo possui um gosto adverso. Exemplo: é mais ou menos isso que acontece a minha volta quando eu digo que não gosto de Legião Urbana, suco de laranja e pipoca...rs.
Beijo, Levino!