“- Se tudo der certo, amanhã seremos livres...
- E se não der certo?
- Estaremos mortos.
- Mas...
- Não tem sido assim todos os dias?”*
Então tem sido assim. Todos os dias. Um punhado de livros espalhados pela sala, outros ainda dentro das caixas de mudança. Uma ou duas reclamações por causa da bagunça no mezanino. Ela acordando aos poucos e com a mão nos olhos, fugindo do sol forte que entra por uma brecha na janela.
Todos os dias uma tentativa de sermos um pouco mais livres, com medo de um dia nos percebermos mortos. Ela com calma e com as mãos de rendeira faz uma lista de filmes que mudou a sua forma de ver o mundo. Entre o papel branco e a caneta azul, saltam as cores de Kurosawa.
E a forma como ela espera que eu termine meus comentários sobre cada filme, para aí sim dizer se concorda ou não, tem nos feito todos os dias um pouco mais livres. Ouvir é tudo.
E porque ouvir é tudo, enquanto ela demora-se no banho eu tento organizar uns discos soltos de bandas da Lapônia que ninguém jamais ouviu falar – porque é sempre muito charmoso saber de coisas que ninguém sabe, ou não saber nada a respeito do que todo mundo já sabe como é -, e vou tocando dois ao mesmo tempo, como se nos restasse pouco tempo. E nos resta.
Ela pede calma. E reclama do timbre da guitarra de uma ou outra banda. Eu retruco, discordo, peço um pouco mais de respeito pelo que eu amo. Ela ri e me chama de bobo. De fato.
E quando o sono nos deixa assim, caindo pelas tabelas, ela tira por completo o volume da TV. Não quer jogo, não quer Copa do Mundo. E pede que sigamos Cazuza. Vamos inventar de novo o nosso amor.
Da mesma forma. Como sempre. Entre livros, discos, filmes. O que nos uniu. E a única coisa capaz de nos separar. Todos os dias as mesmas páginas, faixas de discos sob novos olhares. Tudo isso para que amanhã, sejamos um pouco mais livres e não nos percebamos mortos.
* Diálogo do filme Matrix Reloaded
Baixe aqui a Trilha Sonora deste post.
Navegando calmamente pela net, me deparo com sua página e leio esse texto... estou em estado de choque.
Sua sensibilidade ultrapassa todas as barreiras do virtual, faz a gente acreditar que ainda existam pessoas com conteúdo.
Adorei passar por aqui.
Beijo grande
Que bonito, Rodrigo!!!!
Você, seu aloprado...vai continuar me matando aos poucos, assim, é?!!!
Texto lindo! Desse jeito eu vou continuar morrendo todos os dias, só pra não perceber que sou livre! Hahahahha
Beijo grande.
Você escreve muito bem Rodrigo.. Ficou lindo!
Bom texto.
Menino!! Gosto muito qdo vc escreve sobre amor. Eu vivo um amor entre livros espalhados tb..rss
Muito bom encontrar vcs. Pena que o tempo foi curto.
beijos
Belo texto! Eu conheci a moça. Parece mesmo ser uma pessoa fabulosa!
"é sempre muito charmoso saber de coisas que ninguém sabe"...é uma verdade da vaidade.
eu estava com saudade das palavras de rodrigo nesse estilo. menos notícia, mais humano.
Levinho. Como sempre. Leve. E forte.
Quando li, me veio a cabeça...uma frase do filme "A Walk to remember" que dizia: " o amor é como o vento...a gente nao consegue ver, mas consegue simplesmente senti-lo".
Bonito.
E ser livre, é a única coisa que nos resta querer, nessa selva de pedras, cheia de grades de hipocrisia...o amor é um grande portão aberto.
Parabéns levinho. Vou vir mais aqui.
=**