Dia desses, enquanto me distraía bolinando umas estantes da livraria próxima à minha casa – às vezes de tanto tempo que permaneço nela, sinto como se fosse uma extensão da própria -, deparei-me com um título curioso: “Dez Passos de Como se Tornar Um Líder”.
Não me dei ao trabalho de sequer ler a orelha do tal livro. A verdade é que agora, quando tenho em mãos o novo disco do grupo inglês Primal Scream, “Riot City Blues”, a única coisa que consigo imaginar é que nenhum livro de Deepak Chopra ou Lair Ribeiro terá lições suficientes de como ser um líder, caso não tenha entre os dez passos: “seja um Bobby Gillespie”.
Tendo que dividir os ouvidos entre quem pedia para ser adorado, como Ian Brown do Stone Roses, e os que independente de tanta carência já se bastam com sua petulância, como os irmãos Gallagher, ouvir Bobby Gillpespie é ter certeza de que o pop inglês tem o mesmo dono há 20 anos.
Onde, em qualquer esquina, vamos encontrar à venda uma biografia tão peculiar? Ele tem razão quando canta “I don’t born to follow”. Meninos, ele estava lá quando o Creation – o selo mais lendário do rock inglês – foi forjado por Alan McGhee.
Só um líder diria “Não!” ao Jesus & Mary Chain depois de lançar o clássico “Psichocandy” e marcar toda uma geração de rockers, indies e o caralho, para logo adiante direcionar outra geração, misturando rock e música eletrônica num dos discos mais importantes de todos os tempos: “Screamadelica”, de 1991.
É de Gillespie a releitura do Flower Power que deu novos moldes aos costumes dos jovens ingleses no início da década passada. O que os moderninhos e entendidos hoje chamam de rave, na verdade foi esboçado por ele, na mistura bem dosada de batidas eletrônicas frenéticas, lasers, vocais chapados e um apelo inconteste para “abrirmos nossas mentes”.
Um mundo sem Gillespie seria um mundo sem o eletrorock, sem Chemical Brothers, Prodigy, LCD Soundsystem, Vive la Fête!, She Wants Revange, Cansei de Ser Sexy ad infinitum.
Há dez anos, enquanto todos apontavam dedos para o que seria a desistência da revolução eletrônica iniciada em “Screamadelica”, com o disco “Give Out But Don’t Give Up” de 1994 – um olhar mais stoneado e conservador sobre o rock -, as salas de cinema foram invadidas pela direção de vídeo-clipe que consagrou o filme Trainspotting, mas também por sua faixa-título. Era um aviso: Bobby Gillespie está vivo.
Ian Brown perdeu um adorador quando Gary “Mani” Mounfield juntou-se ao Primal Scream em “Vanishing Point”, o elogiado trabalho de 1997, onde Bobby comandou uma nova roupagem para o dub. O pop inglês apenas ratificava quem tinha nascido para ser seguido, e quem deveria seguir o quê.
Siga o meu conselho e não deixe de ter "Riot City Blues” na sua estante. Esqueça o que você ouviu em “Evil Heat” e “XTRMNTR”, e caso não tenha ouvido nada até aqui, abra a sua mente. Bobby está de volta. E volta mais cru, num disco gravado em formato ao vivo, stoner, consistente e alheio à própria revolução. Será que ser radical hoje em dia é mostrar-se conservador?
Não há palavra mais esquisita para definir um trabalho artístico do que “maduro”, no entanto, a meia idade de Gillespie parece fazer sombra no novo disco.
Depois de teclados vintage, disco e fusion, o que se ouve em “Riot City Blues” é um pequeno tratado de volta ao passado. Rock and roll da melhor qualidade e do que Primal Scream faz muito bem.
Há um discreto banjo em “Country Girl”, o que de certa forma anuncia que a vanguarda ficou para trás. De um gospel que chama às palmas em “Nitty Gritty”, Bobby conta com sua banda a história de um travesti arrebentando o carro depois de uma overdose, em “Suicide Sally & Johnny Guitar”.
As referências aos trabalhos anteriores ficam resumidas a “Little Death” e “When the Bombs Drops”. Nesta, um contido Gillespie canta apoiado no suporte impecável do baixo de Gary. Naquela, há algo dissonante em relação a restante do disco. Perdoável, diga-se de passagem.
A partir daí, "The 99th Floor" , "We're Gonna Boogie" e "Dolls (Sweet Rock and Roll)" – com a participação de Alisson “VV” Mosshart, do The Kills – fecham uma trinca de referências que vão de Bob Dylan e T. Rex, até desaguar na cowntry (?!) “Hell’s Comin Down”.
“Sometimes I Fell So Lonely” fecha com chave de ouro um bom disco de rock and roll. Não é um disco fantástico, não tem cartas na manga nem um novo norte para a música. Tem muito mais chances de seduzir os ouvidos leigos em relação ao que o Primal Scream já produziu no terreno arriscado da música eletrônica.
A produção, que conta com a participação luxuosa de Will Sergeant (Echo & The Bunnymen) e Warren Ellis (Nick Cave & The Bad Seed), é uma volta a mais na órbita do pop inglês, que de tempos em tempos, desde 1985, nos faz lembrar que Gillespie é quem sabe das coisas.
Não demora e estarei de volta à livraria, bolinando alguns livros em busca de novos conhecimentos. Quanto do pouco que sei, algo consegui ouvindo Primal Scream. Se não aprendi a ser líder, ao menos sei de quem ser um liderado. Eu quero ser Bobby Gillespie.
Baixe aqui a trilha sonora deste post.
Parabéns pela coluna!!!
Pois é, primalscream de volta. GRAÇASADEUS. E eu quero vê-los ao vivo novamente. O melhor show da minha vida, tem que ser repetido, nesse disco que eu diria, quase lírico.