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Bobby Gillespie | 04 de julho de 2006

Dia desses, enquanto me distraía bolinando umas estantes da livraria próxima à minha casa – às vezes de tanto tempo que permaneço nela, sinto como se fosse uma extensão da própria -, deparei-me com um título curioso: “Dez Passos de Como se Tornar Um Líder”.

Não me dei ao trabalho de sequer ler a orelha do tal livro. A verdade é que agora, quando tenho em mãos o novo disco do grupo inglês Primal Scream, “Riot City Blues”, a única coisa que consigo imaginar é que nenhum livro de Deepak Chopra ou Lair Ribeiro terá lições suficientes de como ser um líder, caso não tenha entre os dez passos: “seja um Bobby Gillespie”.

Tendo que dividir os ouvidos entre quem pedia para ser adorado, como Ian Brown do Stone Roses, e os que independente de tanta carência já se bastam com sua petulância, como os irmãos Gallagher, ouvir Bobby Gillpespie é ter certeza de que o pop inglês tem o mesmo dono há 20 anos.

Onde, em qualquer esquina, vamos encontrar à venda uma biografia tão peculiar? Ele tem razão quando canta “I don’t born to follow”. Meninos, ele estava lá quando o Creation – o selo mais lendário do rock inglês – foi forjado por Alan McGhee.

Só um líder diria “Não!” ao Jesus & Mary Chain depois de lançar o clássico “Psichocandy” e marcar toda uma geração de rockers, indies e o caralho, para logo adiante direcionar outra geração, misturando rock e música eletrônica num dos discos mais importantes de todos os tempos: “Screamadelica”, de 1991.

É de Gillespie a releitura do Flower Power que deu novos moldes aos costumes dos jovens ingleses no início da década passada. O que os moderninhos e entendidos hoje chamam de rave, na verdade foi esboçado por ele, na mistura bem dosada de batidas eletrônicas frenéticas, lasers, vocais chapados e um apelo inconteste para “abrirmos nossas mentes”.

Um mundo sem Gillespie seria um mundo sem o eletrorock, sem Chemical Brothers, Prodigy, LCD Soundsystem, Vive la Fête!, She Wants Revange, Cansei de Ser Sexy ad infinitum.

Há dez anos, enquanto todos apontavam dedos para o que seria a desistência da revolução eletrônica iniciada em “Screamadelica”, com o disco “Give Out But Don’t Give Up” de 1994 – um olhar mais stoneado e conservador sobre o rock -, as salas de cinema foram invadidas pela direção de vídeo-clipe que consagrou o filme Trainspotting, mas também por sua faixa-título. Era um aviso: Bobby Gillespie está vivo.

Ian Brown perdeu um adorador quando Gary “Mani” Mounfield juntou-se ao Primal Scream em “Vanishing Point”, o elogiado trabalho de 1997, onde Bobby comandou uma nova roupagem para o dub. O pop inglês apenas ratificava quem tinha nascido para ser seguido, e quem deveria seguir o quê.

Siga o meu conselho e não deixe de ter "Riot City Blues” na sua estante. Esqueça o que você ouviu em “Evil Heat” e “XTRMNTR”, e caso não tenha ouvido nada até aqui, abra a sua mente. Bobby está de volta. E volta mais cru, num disco gravado em formato ao vivo, stoner, consistente e alheio à própria revolução. Será que ser radical hoje em dia é mostrar-se conservador?

Não há palavra mais esquisita para definir um trabalho artístico do que “maduro”, no entanto, a meia idade de Gillespie parece fazer sombra no novo disco.

Depois de teclados vintage, disco e fusion, o que se ouve em “Riot City Blues” é um pequeno tratado de volta ao passado. Rock and roll da melhor qualidade e do que Primal Scream faz muito bem.

Há um discreto banjo em “Country Girl”, o que de certa forma anuncia que a vanguarda ficou para trás. De um gospel que chama às palmas em “Nitty Gritty”, Bobby conta com sua banda a história de um travesti arrebentando o carro depois de uma overdose, em “Suicide Sally & Johnny Guitar”.

As referências aos trabalhos anteriores ficam resumidas a “Little Death” e “When the Bombs Drops”. Nesta, um contido Gillespie canta apoiado no suporte impecável do baixo de Gary. Naquela, há algo dissonante em relação a restante do disco. Perdoável, diga-se de passagem.

A partir daí, "The 99th Floor" , "We're Gonna Boogie" e "Dolls (Sweet Rock and Roll)" – com a participação de Alisson “VV” Mosshart, do The Kills – fecham uma trinca de referências que vão de Bob Dylan e T. Rex, até desaguar na cowntry (?!) “Hell’s Comin Down”.

“Sometimes I Fell So Lonely” fecha com chave de ouro um bom disco de rock and roll. Não é um disco fantástico, não tem cartas na manga nem um novo norte para a música. Tem muito mais chances de seduzir os ouvidos leigos em relação ao que o Primal Scream já produziu no terreno arriscado da música eletrônica.

A produção, que conta com a participação luxuosa de Will Sergeant (Echo & The Bunnymen) e Warren Ellis (Nick Cave & The Bad Seed), é uma volta a mais na órbita do pop inglês, que de tempos em tempos, desde 1985, nos faz lembrar que Gillespie é quem sabe das coisas.

Não demora e estarei de volta à livraria, bolinando alguns livros em busca de novos conhecimentos. Quanto do pouco que sei, algo consegui ouvindo Primal Scream. Se não aprendi a ser líder, ao menos sei de quem ser um liderado. Eu quero ser Bobby Gillespie.

Baixe aqui a trilha sonora deste post.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Erika Zuza em 10 de julho de 2006

Parabéns pela coluna!!!


roseven em 04 de julho de 2006

Pois é, primalscream de volta. GRAÇASADEUS. E eu quero vê-los ao vivo novamente. O melhor show da minha vida, tem que ser repetido, nesse disco que eu diria, quase lírico.


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