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O Surto | 10 de julho de 2006

O apito do juiz marcou o pontapé inicial: sono profundo a partir dali. Acordei aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação. Final da Copa do Mundo (ufa!). Levei um tempo até entender que, além do fato de mais uma disputa acabar na marca do pênalti, Zidane tornara-se há poucos instantes um carrasco literal.

Depois de rever as imagens da cabeçada desferida pelo craque francês no zagueiro italiano, da sua expulsão, da melancólica descida para os vestiários passando ao lado da taça que não ficou com a França e claro, todas elas narradas por palavras de decepção e dó de peito, pensei de imediato: “Mas que merda!

Que merda tanta cobrança e pressão por causa de uma falha tão humana, e acreditar que tudo que ele fez até então ficará para trás, “esquecido diante da triste imagem de um gênio que perdeu a cabeça”.

Zidane não foi um centímetro além do seu direito de errar, de não ser um homem perfeito e/ou desportista-exemplo para todas as crianças do mundo. Mickey Mouse é outro.

É mesmo uma desgraça essa mania hipócrita de pôr sobre os ombros dos que – segundo a mídia - estão um palmo a mais que os simples mortais, o dever de ponderação permanente.

Mais feio do que a atitude antijogo, foi com certeza a postura da Rede Globo quando em mais uma ajoelhada diante do poder (seja ele qual for), desculpou-se pela leitura labial do Parreira, sem dar nenhuma satisfação aos espectadores.

Tão feio e anti-ético é ver todos os elogios nababescos acoplados à mínima aparição dos jogadores da seleção brasileira, destruídos em segundos pelo exército de culpas e “caça às bruxas”, como se tudo isso já não estivesse lá, incólume.

Há na sociedade ocidental, carcomida de culpa, uma necessidade escrota de ter sempre um exemplo à mão, um espelho a ser mirado, um Cristo a ser seguido, como se o que somos – humanos e falhos - não nos bastasse.

Que grande tédio seria o mundo sem aqueles que perdem o controle, que surtam, que erram, que não cumprem as expectativas alheias à risca. Não é de santos que se constrói a história, por que seria então, em algo tão banal como o futebol?

Imaginemos então o cinema sem os transgressores. Sem Godard, sem Truffaut e seu “Jules et Jim”, décadas antes de ver casas de swing ainda causando furor, sem Welles brigando e dando calote em Alá e o mundo para conseguir filmar seus erros e os erros alheios. Que chatice sem fim!

O que seria do jornalismo brasileiro sem o crápula do Chateaubriand? E do Novo Jornalismo americano sem os porres e os socos de Hunter Thompson ou as orgias de Truman Capote? Deixariam de ser o que são até hoje pelo simples fato de volta e meia perderem o bom senso? Bobagem.

Na música então, que charme teria gostar da breguice dos Guns`n Roses sem os hotéis quebrados por Axl? Para não citar aqui dezenas de outros exemplos, de que, o que quer que façam, e façam bem, em nada interessa o que diabos merecem quando perecerem diante da tentação.

A eterna insistência pelo Fair Play no cotidiano é só um elemento a mais na mania que adoramos cultivar de ver tudo embaixo do tapete, em panos quentes, capitaneado pela turma do “deixa disso”. “Xingue aos sussurros o seu colega negro em campo, mas não deixe que isso seja captado por câmeras e microfones”.

Por que não resolver aqui mesmo? E se errar, vale mais pontos numa suposta escala moral, ter levado o desaforo calado para casa e fingir que lutou com um anjo, ou assumir o erro e desculpar-se por ele sinceramente?

Junto com as conseqüências, é nosso também o direito de perder o controle, de apelar, de cuidar com carinho do nosso ego.

O diálogo deve estar sempre disponível e em dois toques um dedo de prosa para resolver todos os impasses. Mas não é uma fuga da normalidade que deve apagar todas as "chaleiras" e "dribles da vaca" que volta e meia damos na vida.

É para isso que existem, ou a perfeição do que fazemos, ou as desculpas mais consternadas. O resto é hipocrisia, da cor mais platinada possível.

Baixe aqui a trilha sonora deste post.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Pedro em 14 de julho de 2006

No dia que o Materazzi for 'camarada' de um craque, futebol deixou de existir.

Esse italiano pratica ultimate-fighting nos campos europeus. Quem não conhece, que procure ver os lances bizonhos.

E até parece que cabeçada no peito dói alguma coisa.


José Fernando Reis em 13 de julho de 2006

Não sei quantos já falaram e o quê falaram sobre a cabeçada do Zidane. Que gesto espetacular e deseperado, que reação inesperada, brutal e animalesca. Talvez a violência pareça maior pela forma angular de seu crânio calvo e raspado, pontiagudo como sua protuberante barbatana nasal. E aqueles olhos de um azul pálido de tão claro, que somem quando querem, pois as vezes tem cor de nada. Aqueles olhos viram alguma coisa que ninguém mais viu. Acredito que todos nós temos o direito de errar, de surtar ou enlouquecer. Defendo o direito do mistério do pensamento, da ação que foge à compreensão da humanidade. Em geral elas vem seguidas de arrependimento e penas, as consequencias para esses atos são sempre custosas e penitentes. Porisso fico tão chocado com essa onda estabelecida da revelação do que foi dito em segredo, feita através da leitura labial. Meu Deus do céu, que coisa mais invasiva! Nunca quis saber o que o que o italiano disse pro frances. Preferia não ter “ouvido” o que Parreira sussurrou pro Zagallo. Daqui a pouco vão ler até nossos pensamentos. E só quem estea morto não pensa absurdos!


Iolanda em 11 de julho de 2006

Acredito que todas as pessoas que aqui estão lendo (ou comentando) já deram as suas cabeçadas. Que atire a primeira pedra... Será que isso apaga delas todas as suas chaleiras, canetas e chapéus? Seja lá como for, sorte da cabeçada não ter sido vista por bilhões de pessoas em todo o mundo. Não há dinheiro que pague.


Jão Saraiva em 11 de julho de 2006

Entendo que os escritores, colunistas e cronistas em geral precisem
e um ponto de vista original para escrever e que uma idéia mais irreverente sempre gera melhores textos.
Mas há limites. Tentar defender o indefensável para render boa literatura
só vale na ficção, meu caro.

Zidane apagou todas as suas chaleiras, canetas e chapéus com uma
cabeçada sim. Porque chapéus, canetas, dribles-da-vaca, convenhamos,
não são realmente importantes para o mundo - pelo menos não em compração
com a violência; aí sim um tema de primeira página, de importância maiúscula.

Agredir um camarada é algo realmente importante. Realmente relevante.

É preciso lembrar que o futebol, como demais esportes, surgiu como alternativa
aos nossos desejos bélicos. Alimenta-se dos mesmos instintos. Foi criado para canalizar
esta energia, como se dissessem: bota aqui esta tua vontade de matar, bota
aqui neste cruzamento, neste gol de placa, bota aqui neste chute de trivela.

Por isso que o slogan da Copa é Fazendo Amigos. Olha só que vergonha histórica
para o planeta Terra (que, por sinal, é uma bola): na Copa cujo tema foi a amizade,
o melhor jogador foi o que agrediu o companheiro na final.

Não tenho a menor pena, diga-se de passagem, ao defender que Zidane devia sim perder
o título de melhor da disputa.
O salário dele é digno dos absolvidos. Mas medalha ele não
merece. E não estou nem querendo discutir se devemos ou não criar
exemplos. Mas ora, se os criarmos, que eles sirvam como exemplo. Não é óbvio?
Meu filho, faça como esse menino: dê dois dribles da vaca e se o xingarem no campinho,
chute os ovos.

Não tem defesa. E mesmo que Zidane seja (e é) um gênio do futebol, fica a pergunta:
os gênios devem ser premiados quando defecam?

Aos que defendem a malandragem, que se diga que a arte do malandro é aquela artimanha que burla
a vista do juiz. Que foge por entre os dedos da polícia. O que Zidane fez seria reprovado
pelos grandes mestres da Lapa, é coisa de Marcola.

Por mim, neste jogo, gênio foi o zagueiro da Itália. Que senso de oportunidade,
que malandragem, que jogo de cintura!
Ao matar não a bola, mas a cabeça de Zidane no peito, o camarada definiu a partida.
Ele sim merece o título de melhor jogador por ter tirado de campo
o grande batredor de pênaltis da França.

Mas coitado do Zidane, joga tão bem, só vacilou no final.
Bem, o salário dele prevê esses riscos. Futebol é jogo de homem (no sentido bípede da coisa).


Daniel Levis em 11 de julho de 2006

A única coisa que lamento é que a cabeçada não acertou o queixo do italiano.


tamara em 11 de julho de 2006

é que as pessoas não se conformam c a imprevisibilidade do ser humano. se fosse como querem, o brasil teria ganho a copa e zidane terminaria como bom-moço aposentado. mas q graça tem fim de novela? não é melhor um filme bem loucão com um desfecho inesperado?


Rita Apoena em 10 de julho de 2006

É que deu vontade de me levantar e bater palmas. Ah, eu não passo vontade, por isso a fama de doida. Obrigada, amigo.


Daniel Censoni em 10 de julho de 2006

A culpa é de Zidane. E porque não seria? Ter sua irmã xingada num momento de estresse absoluto deveria fazê-lo tocar o rosto do adversário e dizer "MEU IRMÃO, EU TE AMO" !!

É isso que se prega! É isso que se quer ver?

Atitudes fora-de-eixo é que colocam o mundo no eixo!!

E no mais, Dane-se Zidane, a cabeça, a irmã e toda essa baboseira de Copa que já torrou o mais gelado dos sacos !!!!

FUI


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