O escritor italiano Umberto Eco observou no livro “Seis Passeios Pelo Bosque da Ficção” que existe um limite imposto pela mitologia e a cultura greco-romana, de cento e poucos perfis à mão de um autor para desenrolar personagens e enredos básicos no mundo ocidental.
No meu modesto entender, implicitamente, Eco garantiu que é um milagre que alguma novela da Rede Globo caso seja acompanhada apenas nos últimos quinze capítulos, deixe o espectador sem o fio da meada. Não tem segredo: prestando atenção nas pontas, o miolo é o mesmo de qualquer pote.
O lastimável é quando as limitações de enredos e personagens são postas ou nas mãos de autores medianos – e vá lá, sem interesse literário -, ou diante da exigência televisiva de histórias longas e guiadas pela guerra da audiência.
Na tentativa de criar variações do mesmo tema o autor corre o risco de cair em eterna repetição, ou sair dos limites aceitáveis da lógica, confundindo fantasia com absurdo.
Ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore não é tudo o que persigo na vida. Além disso, busco religiosamente um(a) autor(a) que supere Gloria Perez em quantidade de despautérios (que palavra!) autorais. Absurdo é café pequeno nas tramas da senhora de grandes olheiras (alguém sabe se ela é parente do Heródoto Barbeiro?).
No terreno das repetições não precisamos esperar muito. Basta ligar a TV durante a novela das oito que passa às nove. As histórias da “nossa vida” contadas por Manoel Carlos parecem um Vale a Pena Ver de Novo em horário nobre. E são. Só que agora há algo de podre no reino do Leblon.
Vou te contar, não são todos os olhos que podem ver o que o Maneco anda mostrando por aí. Será que deu a louca no bom velhinho das Helenas?
Que as personagens dele sempre foram histéricas e descontroladas não é novidade. Dez minutinhos de Vídeo Show com uma retrospectiva com todas as Helenas, Lauras e Brancas não me deixam mentir. Mesmo assim, com raras exceções, o que ele tencionava mostrar eram mulheres sofridas, mas cheias de personalidade e força.
Agora as máscaras caíram. Na verdade o motivo de tanta histeria sempre foi o sexo. O excesso ou a falta dele. Melhor do que Maneco para falar de excessos prefiro Polanski em "Lua de Fel", mas Ana Paula Arósio em pêlos não cai mal.
A falta... Bem, a falta uma senhora de 68 anos confessou no quadro que finaliza a novela que não sente nenhuma. Para isso ela possui duas mãos e um disco do Roberto Carlos tocando “O Côncavo e o Convexo”. Prático, né? Adorei.
O fato é que, assim como no sexo, qualquer polêmica – e o depoimento da senhora citada gerou uma enorme – carece de espontaneidade. Caso não, vira só mais uma jogada de marketing passível de críticas e com efeito bumerangue. Na boa? De louco o Maneco não tem nada, a não ser pelo risco de estigmatizar mais uma de suas repetições, como um festival de baixaria.
Nada contra linguajar chulo, mulheres taradas e coisas do tipo. De algumas mulheres eu até gostaria de receber telegramas, telefonemas e depoimentos gravados falando acerca de suas experiências solitárias, mas não é o caso de uma senhora que acordou toda babada ouvindo o Rei.
Melhor manejo com o tema do que o Maneco, quem possui é Almodóvar, na novela “Fogo nas Entranhas”, editada em 1981.
Imagine: um chinês radicado em Madrid, que vira o magnata da indústria de absorventes íntimos e depois de abandonado por cinco mulheres por quem daria a vida, resolve vingar-se de todas elas com uma substância nos “modess” que deixa todas as bacurinhas em chamas.
Já que a coisa desandou de vez pela Vênus Platinada, sugiro transferir para o Leblon a cena que Almodóvar descreve na sua novela, em que as mulheres loucas arrefecem o calor entre as pernas com mangueiras e hidrantes nas ruas da capital espanhola.
Não vejo nada demais. Pior do que isso é acordar e dar de cara com Miriam Leitão no Bom Dia Brasil ou acreditar que o paraíso é como o da novela A Viagem, à tarde: um imenso campo de golfe onde se promovem cursos de jardinagem e as pessoas vagam sob efeito de drogas.
Ai ai... novelas...
Baixe aqui a trilha sonora deste post.
Por que será que só mulher comentou esse post, hein?
Não acompanho essa novela e, para dizer a verdade, acho que só vou voltar a acompanhar uma novela quando for escrita pelo Walcyr Carrasco.
O resto é resto. Por mim, podem por o (coitado) do Zé Mayer comendo a Míriam Leitão na novela das 9 ou por o Heródoto fazendo o papel de Helena que dá tudo na mesma. E quando eu chegar aí em Natal, vc também vai deixar de acompanhar porque nós teremos coisas muito mais úteis e interessantes para fazer nesse horário. Fica frio, meu bem, que eu te salvarei!
beijo
Eu gosto de seguir novela porque só consigo fazer ponto-cruz enquanto faço outra coisa.
O que me chateia nessa uma é a insistência do diretor, que deve se achar profundo conhecedor da alma feminina, das 'feminiceshh', nos representando como ninfomaníacas e histéricas.
Um pouco pior são as próprias mulheres que editam revistas femininas que são almanaques-de-um-tudo-que-tem-a-ver-com-sexo. Uma capa de Marie Clair, cujo slogan é 'chique é ser inteligente', se resume a: "20 maneiras de enlouquecê-lo na cama", "Elas contam suas fantasias mais íntimas", "Moda verão para tirar o fôlego deles", "Horóscopo do sexo 2006: 365 ideias para fazer sexo o ano inteiro", "Saúde: sua bacurinha pode estar em perigo".
Afff!
o melhor das novelas é ter do que falar mal, e as de maneco sao campeas. e ridiculamente iguais.
mas foguinho eu nao perco.
Rodrigo, você disse tudo o que ando pensando sobre essa novela. Menino, o Maneco endoidou e levou junto no surto a direção e o elenco de Páginas da Vida.Será que eles acham que nós mulheres falamos de sexo o tempo todo e que ser moderno é expor a intimidades de senhoras?
Gosto de novela como entretenimento e não me envergonho disso, porém o senhor Manoel Carlos aloprou geral e me constrange quando força a barra tentando mostrar " a vida como ela é" , sem o mérito de um Nelson Rodrigues.
Adorei seu texto e acho que seria ótimo se ele o lesse.
Você e seu amor pela Mirian Leitão *rs*. Um texto consistente de um cara sólido como você, muito boa a colocação do texto do Almodovar *rs* sempre sempre um humor fantástico acerca do nosso cotidiano.
Beijos!
Eu adoro novela!
E acho incrível tb que seja um produto de exportação. é bem feito pra caramba, uma puta produção, bem cuidada, que nós brasileiros fazemos muito bem.
Mas neguinho gosta de falar mal do brasil, fazer o que?
Ah, eu não vejo pq não curto muito a regina duarte, gosto mais de novelas do gilberto braga e silvio de abreu.
Essa novela é nova? Né aquela que Carolina Dieckmann tem leucemia e rouba o namorado da mãe (Helena) não? Hum...bem que eu percebi que, apesar de quererem me enganar com uma abertura quase igual, a antiga Helena era mais bonitinha que a atual....
Sabe o que é pior? É que essas páginas da vida de nós, brasileiros, batem recorde de audiência, nao importa se o vilão é Bia Falcão ou uma síndrome de down. Porque o povo gosta. O povo! Aquele de João Ubaldo Ribeiro, que deixa de produzir e ganhar dinheiro pra ver quem matou Odete Roitman. E vai ser assim sempre. Constrangedor é saber que novela é o maior produto de exportação brasileiro. E depois reclamam que a imagem do Brasil é só bunda... Bom, pelo menos agora é a da Ana Paula Arósio.
Acordar e dar de cara com Míriam Leitão é o prolongamento de um pesadelo.Por isso eu só acordo tarde.
Quanto às magueiras entre as pernas,não cairiam bem,seria muita apelação...melhor colocar Ana Paula Arósio nua ou o depoimento da velha que acordou "babada". ¬¬
beijos.
O mais bizarro desse "paraíso" são os coelhos que saltitam pelas colinas bem distantes... será que eles tomam chá de herbalife? hueueuheuhe...
Quanto ao Maneco, Glória e tchurma, eu acho que a moral é que estão precisando de autores novos... mas como disse o escritor da Belíssima nas páginas amrelas... tá difícil..
Enfim, fazer o que??