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Vou te contar... | 25 de julho de 2006

O escritor italiano Umberto Eco observou no livro “Seis Passeios Pelo Bosque da Ficção” que existe um limite imposto pela mitologia e a cultura greco-romana, de cento e poucos perfis à mão de um autor para desenrolar personagens e enredos básicos no mundo ocidental.

No meu modesto entender, implicitamente, Eco garantiu que é um milagre que alguma novela da Rede Globo caso seja acompanhada apenas nos últimos quinze capítulos, deixe o espectador sem o fio da meada. Não tem segredo: prestando atenção nas pontas, o miolo é o mesmo de qualquer pote.

O lastimável é quando as limitações de enredos e personagens são postas ou nas mãos de autores medianos – e vá lá, sem interesse literário -, ou diante da exigência televisiva de histórias longas e guiadas pela guerra da audiência.

Na tentativa de criar variações do mesmo tema o autor corre o risco de cair em eterna repetição, ou sair dos limites aceitáveis da lógica, confundindo fantasia com absurdo.

Ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore não é tudo o que persigo na vida. Além disso, busco religiosamente um(a) autor(a) que supere Gloria Perez em quantidade de despautérios (que palavra!) autorais. Absurdo é café pequeno nas tramas da senhora de grandes olheiras (alguém sabe se ela é parente do Heródoto Barbeiro?).

No terreno das repetições não precisamos esperar muito. Basta ligar a TV durante a novela das oito que passa às nove. As histórias da “nossa vida” contadas por Manoel Carlos parecem um Vale a Pena Ver de Novo em horário nobre. E são. Só que agora há algo de podre no reino do Leblon.

Vou te contar, não são todos os olhos que podem ver o que o Maneco anda mostrando por aí. Será que deu a louca no bom velhinho das Helenas?

Que as personagens dele sempre foram histéricas e descontroladas não é novidade. Dez minutinhos de Vídeo Show com uma retrospectiva com todas as Helenas, Lauras e Brancas não me deixam mentir. Mesmo assim, com raras exceções, o que ele tencionava mostrar eram mulheres sofridas, mas cheias de personalidade e força.

Agora as máscaras caíram. Na verdade o motivo de tanta histeria sempre foi o sexo. O excesso ou a falta dele. Melhor do que Maneco para falar de excessos prefiro Polanski em "Lua de Fel", mas Ana Paula Arósio em pêlos não cai mal.

A falta... Bem, a falta uma senhora de 68 anos confessou no quadro que finaliza a novela que não sente nenhuma. Para isso ela possui duas mãos e um disco do Roberto Carlos tocando “O Côncavo e o Convexo”. Prático, né? Adorei.

O fato é que, assim como no sexo, qualquer polêmica – e o depoimento da senhora citada gerou uma enorme – carece de espontaneidade. Caso não, vira só mais uma jogada de marketing passível de críticas e com efeito bumerangue. Na boa? De louco o Maneco não tem nada, a não ser pelo risco de estigmatizar mais uma de suas repetições, como um festival de baixaria.

Nada contra linguajar chulo, mulheres taradas e coisas do tipo. De algumas mulheres eu até gostaria de receber telegramas, telefonemas e depoimentos gravados falando acerca de suas experiências solitárias, mas não é o caso de uma senhora que acordou toda babada ouvindo o Rei.

Melhor manejo com o tema do que o Maneco, quem possui é Almodóvar, na novela “Fogo nas Entranhas”, editada em 1981.

Imagine: um chinês radicado em Madrid, que vira o magnata da indústria de absorventes íntimos e depois de abandonado por cinco mulheres por quem daria a vida, resolve vingar-se de todas elas com uma substância nos “modess” que deixa todas as bacurinhas em chamas.

Já que a coisa desandou de vez pela Vênus Platinada, sugiro transferir para o Leblon a cena que Almodóvar descreve na sua novela, em que as mulheres loucas arrefecem o calor entre as pernas com mangueiras e hidrantes nas ruas da capital espanhola.

Não vejo nada demais. Pior do que isso é acordar e dar de cara com Miriam Leitão no Bom Dia Brasil ou acreditar que o paraíso é como o da novela A Viagem, à tarde: um imenso campo de golfe onde se promovem cursos de jardinagem e as pessoas vagam sob efeito de drogas.

Ai ai... novelas...

Baixe aqui a trilha sonora deste post.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Sua P em 27 de julho de 2006

Por que será que só mulher comentou esse post, hein?

Não acompanho essa novela e, para dizer a verdade, acho que só vou voltar a acompanhar uma novela quando for escrita pelo Walcyr Carrasco.

O resto é resto. Por mim, podem por o (coitado) do Zé Mayer comendo a Míriam Leitão na novela das 9 ou por o Heródoto fazendo o papel de Helena que dá tudo na mesma. E quando eu chegar aí em Natal, vc também vai deixar de acompanhar porque nós teremos coisas muito mais úteis e interessantes para fazer nesse horário. Fica frio, meu bem, que eu te salvarei!

beijo


Aninha em 26 de julho de 2006

Eu gosto de seguir novela porque só consigo fazer ponto-cruz enquanto faço outra coisa.
O que me chateia nessa uma é a insistência do diretor, que deve se achar profundo conhecedor da alma feminina, das 'feminiceshh', nos representando como ninfomaníacas e histéricas.
Um pouco pior são as próprias mulheres que editam revistas femininas que são almanaques-de-um-tudo-que-tem-a-ver-com-sexo. Uma capa de Marie Clair, cujo slogan é 'chique é ser inteligente', se resume a: "20 maneiras de enlouquecê-lo na cama", "Elas contam suas fantasias mais íntimas", "Moda verão para tirar o fôlego deles", "Horóscopo do sexo 2006: 365 ideias para fazer sexo o ano inteiro", "Saúde: sua bacurinha pode estar em perigo".
Afff!


tamara em 25 de julho de 2006

o melhor das novelas é ter do que falar mal, e as de maneco sao campeas. e ridiculamente iguais.

mas foguinho eu nao perco.


Evelyne em 25 de julho de 2006

Rodrigo, você disse tudo o que ando pensando sobre essa novela. Menino, o Maneco endoidou e levou junto no surto a direção e o elenco de Páginas da Vida.Será que eles acham que nós mulheres falamos de sexo o tempo todo e que ser moderno é expor a intimidades de senhoras?
Gosto de novela como entretenimento e não me envergonho disso, porém o senhor Manoel Carlos aloprou geral e me constrange quando força a barra tentando mostrar " a vida como ela é" , sem o mérito de um Nelson Rodrigues.
Adorei seu texto e acho que seria ótimo se ele o lesse.


Marguinha em 25 de julho de 2006

Você e seu amor pela Mirian Leitão *rs*. Um texto consistente de um cara sólido como você, muito boa a colocação do texto do Almodovar *rs* sempre sempre um humor fantástico acerca do nosso cotidiano.
Beijos!


Mila em 25 de julho de 2006

Eu adoro novela!
E acho incrível tb que seja um produto de exportação. é bem feito pra caramba, uma puta produção, bem cuidada, que nós brasileiros fazemos muito bem.

Mas neguinho gosta de falar mal do brasil, fazer o que?

Ah, eu não vejo pq não curto muito a regina duarte, gosto mais de novelas do gilberto braga e silvio de abreu.


Lua em 25 de julho de 2006

Essa novela é nova? Né aquela que Carolina Dieckmann tem leucemia e rouba o namorado da mãe (Helena) não? Hum...bem que eu percebi que, apesar de quererem me enganar com uma abertura quase igual, a antiga Helena era mais bonitinha que a atual....


atalija em 25 de julho de 2006

Sabe o que é pior? É que essas páginas da vida de nós, brasileiros, batem recorde de audiência, nao importa se o vilão é Bia Falcão ou uma síndrome de down. Porque o povo gosta. O povo! Aquele de João Ubaldo Ribeiro, que deixa de produzir e ganhar dinheiro pra ver quem matou Odete Roitman. E vai ser assim sempre. Constrangedor é saber que novela é o maior produto de exportação brasileiro. E depois reclamam que a imagem do Brasil é só bunda... Bom, pelo menos agora é a da Ana Paula Arósio.


Lorena em 25 de julho de 2006

Acordar e dar de cara com Míriam Leitão é o prolongamento de um pesadelo.Por isso eu só acordo tarde.
Quanto às magueiras entre as pernas,não cairiam bem,seria muita apelação...melhor colocar Ana Paula Arósio nua ou o depoimento da velha que acordou "babada". ¬¬
beijos.


Laís Flores em 25 de julho de 2006

O mais bizarro desse "paraíso" são os coelhos que saltitam pelas colinas bem distantes... será que eles tomam chá de herbalife? hueueuheuhe...
Quanto ao Maneco, Glória e tchurma, eu acho que a moral é que estão precisando de autores novos... mas como disse o escritor da Belíssima nas páginas amrelas... tá difícil..
Enfim, fazer o que??


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