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Como água | 17 de julho de 2006

Superman nunca foi meu herói favorito. Os onipresentes argumentos cristãos-familiares na infância, não permitiram que ele concorresse na minha cabeça em pé de igualdade com o filho de Deus, na tarefa hercúlea de salvar o mundo. Cada um com seu cada qual.

Com uma formação tão sistemática, o lógico seria ter minha atenção tomada de assalto por quem subverte, mina o sistema ou tenta adaptá-lo à sua realidade. Jamais por um representante “cover” do mesmo sistema, no caso o cristianismo. E foi assim.

Por causa disso, mutantes, morcegos e aranhas sempre estiveram na dianteira da minha preferência. Era mais palpável.

Podiam estar entre nós, morando ao lado, mesmo com poderes fantásticos e estaparfúdios, não possuíam a incômoda característica de duelar miticamente com o que eu acreditava do ponto de vista religioso. Eram humanos e não deuses.

Agora – mesmo não sendo de hoje tais observações – quando matérias reverberam as analogias entre Superman e Jesus Cristo, o que me vem à cabeça é um enorme museu de grandes novidades.

Eu já sabia. Para mim a analogia gerava conflitos. E talvez por incomodar, demorei a perder o ranço, que foi se diluindo na Sessão da Tarde quando eu misturava “Porky’s” e “Curtindo a Vida Adoidado” com Christopher Reeve e Lex Luthor.

É desse tempo a minha melhor imagem do homem de aço (talvez por estar atrelada a adolescência). E a julgar por Superman Returns (mesmo citando quase ipsis literis um versículo de João ou caindo crucificado sobre o mundo), não vai perder um ponto sequer. Nem ganhar.

Há uma fidelidade visual do novo personagem ao que foi imortalizado décadas atrás, que torna nostálgico bons momentos do filme.

A produção é de uma correção franciscana – estou falando de dignidade e não de pobreza. Mas não sobe, não tem clímax nem roteiro proporcionais aos bons e belos (belíssimos!) efeitos especiais, por exemplo.

A tentativa de exacerbar a sensibilidade humana (mais uma vez a dualidade teológica na mesa) do Superman é colocada com tamanho destaque, que os outros fios condutores da história são além de secundários, mal guiados.

A volta, após cinco anos de ausência mal explicada, é puxada por uma pergunta que todos nós já sabemos a resposta: o mundo precisa de Superman?

Ela serve de pano de fundo para o relacionamento angustiante entre Lois e Superman e a forma como ela reage ao seu retorno. Foi com a negativa a esta indagação que ela conseguiu abocanhar um Pulitzer. E agora?

O que talvez tenha me incomodado no filme é a frouxidão do roteiro. Pode-se até alegar que há mais cérebro do que músculos, mas a falta de nós fica clara em determinados pontos que sucumbem fácil a seqüências cansativas que às vezes só querem dizer: vejam como os nossos computadores são geniais! Eu odeio o “espírito Peter Jackson”.

No mais – e eu sei que estamos tratando de uma história em quadrinhos, filme, fantasia, etc – não há como levar a sério os planos de Lex Luthor, na pele do impecável – em uma atuação muito próxima dos HQs - Kevin Spacey.

Você procura uma explicação para o mirabolante plano de destruir a América a construir uma ilha ao lado, de cristais e Kryptonita, e só encontra Cérebro – sem Pink – investindo no mercado imobiliário.

O filme é pontual, não decepciona justamente pelo esmero da produção e a dedicação visível do protagonista – um iniciante execrado no início das filmagens – ao personagem que deve carregar toneladas debaixo da sua capa, de tanta responsabilidade.

Não há um clímax que supere por exemplo, o pouso do Superman trazendo sobre as mãos um avião, em pleno campo de beisebol. Ou uma seqüência que emocione como a homenagem a Marlon Brando, quando o herói repete as palavras do pai recriado por efeitos especiais.

É de dilacerar corações o Superman observando a rotina tediosa de Lois em casa, com a família que ela construiu na ausência dele (será?). Mas poderia ser mais empolgante vê-lo numa seqüência que não demorasse tanto só para jogar a ilha de Luthor no espaço.

Brian Singer é um grande diretor e esse novo trabalho não deve nada aos dois X-Men (mesmo não conseguindo se igualar a Ratner em X-Men III), tanto nas seqüências – algumas demoradas e inúteis como a de Lois presa com a família numa lancha – como na direção de atores.

E a seleção do elenco é impecável. Brandon Routh é uma homenagem justa a Reeve, não só pela semelhança física, mas, sobretudo pelos modos.

Modos estes que fazem de Lois Lane – agora na pele da morena Kate Bosworth – quase uma personagem de Manoel Carlos: fuma escondido, é viciada em trabalho e vive com um homem mas gosta de outro. Apesar disto é uma mulher muito forte.

Resumindo: o filme é como água num caríssimo copo de cristal. Não deixa de ser água: insípido, inodoro e incolor. Mas enfim, você recusaria? Nem eu.

Baixe aqui a trilha sonora deste post.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Lorena em 22 de julho de 2006

filme para entretenimento,para encher os olhos com efeitos.o roteiro ficou em 2º plano.
mas eu bebi com gosto a água!
e adorei as imperfeições de Louis Lane.
beijos.


Mila em 21 de julho de 2006

Eu bebo 2 a 3 litros de agua por dia!
mas depois do filme precisei de um chope!
achie muito maneiro (isso, maneiro mesmo, entretenimento)!

Para o alto, e avante!


Clara Violeta em 21 de julho de 2006

Levino e coração dilacerado não combinam...
Eu ainda não vi, mas tenho que admitir aque adoro o superman, apesar de também preferir o homem aranha. Vejo até Samllville, o seriadinho da Warner.

beijo


Eduardo em 18 de julho de 2006

O filme é ótimo. Leve como tem que ser uma história do Super-homem, que nunca se pretendeu um herói profundo. Filme pra ser visto dublado. E revisto sem peso na consciência na Sessão da Tarde um tempo depois.

Ah, e como é bonito. Visualmente. Cenas lindas. E o ator é IGUAL ao Reeve em algumas cenas.


Micheline em 17 de julho de 2006

Rodrigo, se você gosta do tema recomendo a leitura do livro "Super-Heróis e a Filosofia - Verdade, Justiça e o Caminho Socrático", escrito por uma pá de gente entendida no assunto. O capítulo que trata do Superman é muito legal. O herói teria sido inspirado nos personagens mitológico Hércules e Sansão e suas aventuras deixam no ar a seguinte pergunta: por que o Super-Homem faz o que faz? Por que ele é tão bonzinho, tão altruísta, tão preocupado com o bem-estar da população? Eu particularmente gosto muito do Superman original e os dois primeiros filmes marcaram minha infância. Ainda não vi o novo. Vou ver, claro.


godo em 17 de julho de 2006

O grande senão desse filme é a Kate Bosworth. Fraquinha e sem-graça... nem arranha a lembrança da Lois multi-tarefas de Margot Kidder, bem fiel aos HQs. Não tem cara de Lois e é atriz sofrível.

E a sacada dos créditos iniciais é de comover.


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