Superman nunca foi meu herói favorito. Os onipresentes argumentos cristãos-familiares na infância, não permitiram que ele concorresse na minha cabeça em pé de igualdade com o filho de Deus, na tarefa hercúlea de salvar o mundo. Cada um com seu cada qual.
Com uma formação tão sistemática, o lógico seria ter minha atenção tomada de assalto por quem subverte, mina o sistema ou tenta adaptá-lo à sua realidade. Jamais por um representante “cover” do mesmo sistema, no caso o cristianismo. E foi assim.
Por causa disso, mutantes, morcegos e aranhas sempre estiveram na dianteira da minha preferência. Era mais palpável.
Podiam estar entre nós, morando ao lado, mesmo com poderes fantásticos e estaparfúdios, não possuíam a incômoda característica de duelar miticamente com o que eu acreditava do ponto de vista religioso. Eram humanos e não deuses.
Agora – mesmo não sendo de hoje tais observações – quando matérias reverberam as analogias entre Superman e Jesus Cristo, o que me vem à cabeça é um enorme museu de grandes novidades.
Eu já sabia. Para mim a analogia gerava conflitos. E talvez por incomodar, demorei a perder o ranço, que foi se diluindo na Sessão da Tarde quando eu misturava “Porky’s” e “Curtindo a Vida Adoidado” com Christopher Reeve e Lex Luthor.
É desse tempo a minha melhor imagem do homem de aço (talvez por estar atrelada a adolescência). E a julgar por Superman Returns (mesmo citando quase ipsis literis um versículo de João ou caindo crucificado sobre o mundo), não vai perder um ponto sequer. Nem ganhar.
Há uma fidelidade visual do novo personagem ao que foi imortalizado décadas atrás, que torna nostálgico bons momentos do filme.
A produção é de uma correção franciscana – estou falando de dignidade e não de pobreza. Mas não sobe, não tem clímax nem roteiro proporcionais aos bons e belos (belíssimos!) efeitos especiais, por exemplo.
A tentativa de exacerbar a sensibilidade humana (mais uma vez a dualidade teológica na mesa) do Superman é colocada com tamanho destaque, que os outros fios condutores da história são além de secundários, mal guiados.
A volta, após cinco anos de ausência mal explicada, é puxada por uma pergunta que todos nós já sabemos a resposta: o mundo precisa de Superman?
Ela serve de pano de fundo para o relacionamento angustiante entre Lois e Superman e a forma como ela reage ao seu retorno. Foi com a negativa a esta indagação que ela conseguiu abocanhar um Pulitzer. E agora?
O que talvez tenha me incomodado no filme é a frouxidão do roteiro. Pode-se até alegar que há mais cérebro do que músculos, mas a falta de nós fica clara em determinados pontos que sucumbem fácil a seqüências cansativas que às vezes só querem dizer: vejam como os nossos computadores são geniais! Eu odeio o “espírito Peter Jackson”.
No mais – e eu sei que estamos tratando de uma história em quadrinhos, filme, fantasia, etc – não há como levar a sério os planos de Lex Luthor, na pele do impecável – em uma atuação muito próxima dos HQs - Kevin Spacey.
Você procura uma explicação para o mirabolante plano de destruir a América a construir uma ilha ao lado, de cristais e Kryptonita, e só encontra Cérebro – sem Pink – investindo no mercado imobiliário.
O filme é pontual, não decepciona justamente pelo esmero da produção e a dedicação visível do protagonista – um iniciante execrado no início das filmagens – ao personagem que deve carregar toneladas debaixo da sua capa, de tanta responsabilidade.
Não há um clímax que supere por exemplo, o pouso do Superman trazendo sobre as mãos um avião, em pleno campo de beisebol. Ou uma seqüência que emocione como a homenagem a Marlon Brando, quando o herói repete as palavras do pai recriado por efeitos especiais.
É de dilacerar corações o Superman observando a rotina tediosa de Lois em casa, com a família que ela construiu na ausência dele (será?). Mas poderia ser mais empolgante vê-lo numa seqüência que não demorasse tanto só para jogar a ilha de Luthor no espaço.
Brian Singer é um grande diretor e esse novo trabalho não deve nada aos dois X-Men (mesmo não conseguindo se igualar a Ratner em X-Men III), tanto nas seqüências – algumas demoradas e inúteis como a de Lois presa com a família numa lancha – como na direção de atores.
E a seleção do elenco é impecável. Brandon Routh é uma homenagem justa a Reeve, não só pela semelhança física, mas, sobretudo pelos modos.
Modos estes que fazem de Lois Lane – agora na pele da morena Kate Bosworth – quase uma personagem de Manoel Carlos: fuma escondido, é viciada em trabalho e vive com um homem mas gosta de outro. Apesar disto é uma mulher muito forte.
Resumindo: o filme é como água num caríssimo copo de cristal. Não deixa de ser água: insípido, inodoro e incolor. Mas enfim, você recusaria? Nem eu.
Baixe aqui a trilha sonora deste post.
filme para entretenimento,para encher os olhos com efeitos.o roteiro ficou em 2º plano.
mas eu bebi com gosto a água!
e adorei as imperfeições de Louis Lane.
beijos.
Eu bebo 2 a 3 litros de agua por dia!
mas depois do filme precisei de um chope!
achie muito maneiro (isso, maneiro mesmo, entretenimento)!
Para o alto, e avante!
Levino e coração dilacerado não combinam...
Eu ainda não vi, mas tenho que admitir aque adoro o superman, apesar de também preferir o homem aranha. Vejo até Samllville, o seriadinho da Warner.
beijo
O filme é ótimo. Leve como tem que ser uma história do Super-homem, que nunca se pretendeu um herói profundo. Filme pra ser visto dublado. E revisto sem peso na consciência na Sessão da Tarde um tempo depois.
Ah, e como é bonito. Visualmente. Cenas lindas. E o ator é IGUAL ao Reeve em algumas cenas.
Rodrigo, se você gosta do tema recomendo a leitura do livro "Super-Heróis e a Filosofia - Verdade, Justiça e o Caminho Socrático", escrito por uma pá de gente entendida no assunto. O capítulo que trata do Superman é muito legal. O herói teria sido inspirado nos personagens mitológico Hércules e Sansão e suas aventuras deixam no ar a seguinte pergunta: por que o Super-Homem faz o que faz? Por que ele é tão bonzinho, tão altruísta, tão preocupado com o bem-estar da população? Eu particularmente gosto muito do Superman original e os dois primeiros filmes marcaram minha infância. Ainda não vi o novo. Vou ver, claro.
O grande senão desse filme é a Kate Bosworth. Fraquinha e sem-graça... nem arranha a lembrança da Lois multi-tarefas de Margot Kidder, bem fiel aos HQs. Não tem cara de Lois e é atriz sofrível.
E a sacada dos créditos iniciais é de comover.