Criar expectativas, seja lá sobre o que for, finda em poucas opções. Quase sempre restaremos, por causa delas, a dois passos da decepção. Que quando não bate de cara, deixa um “putz, foi por pouco” que é desolador.
Não faz muitos dias, eu juro que tentei esnobar “Eraser”, o disco solo do Thom Yorke, a criatura estranha que comanda o Radiohead. Download concluído, passo os olhos, abro a pasta e tal, “ah, outra hora ouço isso”. Mas não deu. Afinal, foi o cara que assaltou meus ouvidos desde “The Bends” e deu fim a quase toda expectativa que eu poderia ter como ouvinte curioso das barreiras que a música pop pode romper. “OK Computer” que o diga.
Resumindo: o disco é muito chato. Frustrei as expectativas que eu demorei a assumir. Dessa vez não houve nem um “foi por pouco”. Ficamos no zero a zero. O que aliás, aconteceu com o “Con Lag”, disco que o Radiohead lançou exclusivamente no Japão, em 2004. Reincidência.
Mas como eu não ia dizendo: o bom mesmo é tentar escapar da expectativa. Alheia então, nem se fala. Essa pode realmente foder a nossa vida. O pior é quando, de tão repetidas, elas começam a ser nossas também. Será que Freud explica isso? É mais ou menos como se projetássemos em nós mesmos o que os outros querem da gente. Confuso, não?
Então fica tudo certo assim: o livro que eu deveria ter lançado há um ano, agora fica em stand by. Dessa forma frustro as expectativas dos outros, em contrapartida educo as minhas. É um exercício e tanto de paciência. Enquanto isso, vou me surpreendendo com algumas coisas que a correria da rotina não me deixou pensar que, só porque gosto muito, vou encontrar Atlântida, o continente perdido, na tal coisa.
Aí de repente tem um Truman Capote, pocket, fantástico aqui em casa. Bom, a intenção era apenas facilitar a vida da simpática moça do caixa que não tinha o troco do método de italiano que eu havia comprado. Não que minha veneração por Norman Mailer, Gay Talese e Tom Wolfe inviabilize o apreço por Capote, mas a verdade é que o troco foi um acidente.
Então eu que nunca fui a New Orleans agora fico relendo as crônicas de Capote sobre a cidade, surpreso e com a ansiedade limitada ao desejo de que a página seguinte não demore. Os cheiros, as cores, o sotaque, a pensão barata e barulhenta, os bares sujos e as figuras que sabe-se lá o quanto podem surpreender alguém. Uma viagem, para a qual não fiz plano nenhum.
Pouco adiante a língua mais ferina do new journalism deita-se sobre New York: “É um mito, esta cidade, com seus quartos e janelas, ruas fumegantes; para todos, para cada um, mitos diferentes, um ídolo de olhos de semáforo a piscar ternamente verde, cinicamente vermelho”. Delícia.
Assim, uma coisa vai compensando a outra. Para cada “Superman Returns” que me deixa entediado, um “X-Men III” para esperar até o fim dos créditos. Ou quando eu achava que Woody Allen não tinha mais o que dar, sou vencido por um “Match Point” arrasador, uma Scarlet Johanson - de lábios tão fartos quanto os peitos - idem.
Se o disco do Thom Yorke não funcionou, tem um tal de “Wolfmother” que não sai dos meus ouvidos e eu não faço idéia de como veio parar aqui. Ou “Bogary”, discaço que o Cascadura, banda de rock lá da Bahia (sim, há algo além de carnaval em Salvador), acabou de lançar.
O difícil é fazer entender – e explicar a nós mesmos – que quanto menos esperarmos de alguma coisa, mais satisfação ela pode nos trazer. Vai além do exercício de paciência e passa quase ao tratamento de choque.
Pilar, minha esposa (ela odeia essa palavra!), acaba de reclamar aqui ao lado que não gosta de Truman Capote. Isso com adjetivos nada gentis. A culpa? Minha. Segundo ela por tê-la feito criar, de tanto me ouvir falar dele, um calhamaço de expectativas que não se concretizaram. Vá entender...
Ps1: Não sei porquê cargas d'água não consegui "linkar" a trilha sonora de hoje. Então você copia o link e faz o download, ok?
http://www.yousendit.com/transfer.php?action=download&ufid=E9C9063E06B4FE16&rcpt=rodrigolevino@yahoo.com.br
Ps2: E o Felipe Massa, hein? Coitado... Agora virou fetiche das expectativas do Galvão Bueno.
Engraçado isso... me senti quase como com Los Hermanos e Maria Rita... eu acho uma porcaria, mas tem tanta gente que fala que é ótimo que eu já tentei ouvir esperando que fosse algo maravilhoso... e também acho que se eu fosse apresentar qualquer livro do Talese ou do García Márquez (amo esses dois...) pra minha mãe, ela acharia uma merda por eu ter posto eles em um altar talvez até maior que quem não conhece possa entender... enfim... quem é que vai entender, né não?
é exatamente assim. mas ainda não consegui classificar como bom ou ruim. porque... não gosto dessas coisas que não posso controlar.
e tanto expectativas quanto surpresas fogem ao controle. sempre!
vide o show de cocorosie esse fim de semana. tô com altas expectativas ao mesmo tempo que espero me surpreeender absurdamente.
ai.
:*