Clique aqui para entrar na Página Principal do Portal
Veja os sites do Portal
Conheça nossos parceiros
topo
Delicadeza Islâmica | 17 de agosto de 2006

Enquanto tudo explode no outro lado do mundo – idem no nosso quintal – e os fatos alimentam a guerra das versões, onde a razão é o que menos importa (aliás, a guerra é a própria morte da razão), disponho de poucas opções: finjo que não é comigo ou tento entender o que acontece ao meu redor cavando um pouco além da superficialidade dos telejornais.

E porque a vida alheia nos oferece sempre mais curiosidades a serem "comentadas" que a nossa (vide PCC e adjacências), afogo-me há algum tempo em tudo que se refere ao Oriente Médio.

Corrijo, portanto, a palavra entender que usei no primeiro parágrafo e fico com a palavra "recortar", que pela afeição lúdica que carrega, ameniza a dificuldade de compreender o conflito em questão.

Recortar impressões sócio-históricas e politicamente bem embasadas, análises, fatos históricos e montar apenas um ensaio de opinião são tudo que resta quando os motivos me escapam, são metafísicos, sagrados, envolvem - em tese - Deus, e o principal: do lado de quem Ele está enquanto o sangue jorra.

Entre os recortes que guardo com atenção nessa estante imaginária de pequenos souvenirs, os filmes islâmicos merecem destaque. São eles que protegem volta e meia o meu "ensaio de opinião", de cair na tendência simplista de achar que a guerra, por já ter assassinado a razão, deva ir até o fim e que os bárbaros - os quais eu não reconheço nos filmes que guardo - que não cabem no meu mundo de pequenos deletérios por ferirem um deus que não é o meu, devam explodir. Mas explodir por vias inimigas, não a si próprio contra quem tem mais em comum comigo.

Quando falo que não os reconheço nos filmes que guardo, refiro-me à delicadeza do cinema iraniano, à tensão da frágil liberdade dos filmes de um Afeganistão pós-talebans, aos muitos modos de filmar sempre a mesma tônica dos roteiros, pois é isso que os diretores palestinos conseguem com méritos.

Filmes como "Filhos do Paraíso", de Majid Majidi, "O Jarro", de Ebrahim Foruzesh, "Paradise Now", de Hany Abu-Assad, "Osama", de Siddiq Barmak e "Neste Mundo", de Michael Winterbottom são o atalho mais fácil e menos doloroso para tentar compreender "o outro", o oposto sem os vícios da ideologia à esquerda ocidental, que põe de um mesmo lado quem tem o mesmo inimigo - o que é extrema burrice.

Quase sempre tensos, na maioria das vezes simples, curtos, de poucas cores, mas nem por isso menos fortes, os filmes são uma bela viagem, ora pela simplicidade de gestos e aflições diante de convicções tão austeras, ora pela dicotomia que corrói os islâmicos, que não sabem como se pôr diante da convivência difícil entre as tentações dos infiéis e as suas crenças, que não entendemos, mergulhados que estamos no mundo das urgências.

Há uma linha de angústia e fragilidade que une a maioria dos filmes islâmicos, a ocorrência de objetos como protagonistas além do relato de histórias simples, como a rachadura de um jarro que por ser o único reservatório d’água de uma pequena escola no deserto, precisa de conserto urgente mesmo que não haja meios para isso.

Tal realismo às vezes pode ser confundido com precariedade, ainda mais diante dos olhos de quem acostumou-se à pirotecnia de Hollywood, mas na verdade é apenas um modo simples de se ater ao próprio meio, guardando todas as ansiedades para o “além”. Um traço forte da religiosidade que há muito deixou a arte do ocidente. O nosso paraíso é agora e passa no horário comercial da novela.

A urgência material das histórias retratadas no cinema islâmico é tão simplória que às vezes nos escapa a compreensão. Um par de sapatos em “Filhos do Paraíso”, um pouco mais de perspectiva para que o caminho do terrorismo não se abra tão convidativo, em “Paradise Now”, um walkman que ameniza a dor da travessia do Curdistão rumo a Londres em "Neste Mundo", por exemplo.

Então aos poucos algumas cenas podem marcar alguém para resto da vida. Como marcaram a minha, que atordoada diante da mania de se preocupar com o que acontece com o mundo – e isso às vezes dói – procura vez por outra uma forma de não adjetivar simplesmente a “barbárie dos mouros”.

Disso os filmes me protegem. Mesmo que seja um esforço hercúleo pensar que para cada muçulmano que explode a si mesmo, ainda resta dois ou três que um dia virão a filmas boas histórias, simples, delicadas e com dores que se assemelham às que vemos ao nosso redor, e nunca a inimigos que são quase como eu.

Baixe aqui a trilha deste post.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Henrique Fontes em 22 de agosto de 2006

Rodrigo,
Parece que realmente temos que nos encontrar. Esse tema que vc aborda é minha atual obsessão. Descobri o quão ignorante eu sou em relação à toda essa ganância pela energia, terra e religião do mundo. Quero montar um espetáculo sobre isso. Aguardo seu contato para marcarmos.
parabéns pelo escrito. Muito inspirador.


tamara em 18 de agosto de 2006

gostei muito. de brinde ainda ganhamos uma listinha p levar à locadora.


ARQUIVO DA COLUNA
© 2006 Casa da Matriz Produções Ltda | Todos os direitos reservados | Todas as mensagens enviadas pelos visitantes do site são de responsabilidade dos mesmos
Todos os preços estão sujeitos a alterações sem aviso prévio