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Forward | 22 de agosto de 2006

Há tempos, por questões práticas e tecnológicas, os discos (Cds e LPs) que restam na minha casa são aqueles com uma carga afetiva tal que parecem ter ancorado entre as estantes e escrivaninhas, tamanha a dificuldade de me desfazer deles.

O que não chega a ser um grande dilema. É bom tê-los. Os discos e os dilemas. Às vezes são como olhos de gato no escuro, sinalizando, lembrando de coisas que no meio do amontoado de músicas que carrego no bolso, num minúsculo mp3 player, poderiam se perder.

O problema é que bytes também pesam e o que não cabe em lugar algum do apartamento - lá se vão vinte e cinco mil músicas -, também não cabe num HD de não sei quantos gigabytes. De repente as falhas na matrix começam a ficar evidentes. É hora de desfazer-se de alguns arquivos.

Não há encartes caprichados, nem obras de arte em papelão com as letras das músicas impressas num papel em separado, como nos CDs e LPs, mas tem uma coisa que às vezes me faz parar e não confirmar o “sim” que vai jogar tudo na lixeira. Lembrança é uma coisa, viu...

Eu nem sei mais qual o último disco da Legião Urbana que de minha posse foi parar num sebo qualquer, depois de digitalizado. Aí de repente me pego ouvindo pela milésima vez “Há Tempos”, do disco “As Quatro Estações” e lembrando de uma situação delicadíssima que enfrentei no início da adolescência que por acaso, respondendo um desses testes de reportagens de revistas, acabei descobrindo tratar-se de uma senhora depressão.

O troço dá start em filminhos, um atrás do outro e na nona faixa do disco, “Meninos e Meninas”, eu já estou quase sete anos adiante, com uma mochila surrada nas costas, cruzando o Brasil.

A música faz lembrar de como eu - que só gosto de meninas, diga-se - ia me moldando a cada cidade, de São Paulo a São Sebastião, passando pelo interior de Minas e Santa Catarina numa viagem em busca de mim mesmo.

É bom. Foi muito bom. É hora de mudar o disco. E porque as mesmas coisas podem ser vistas de outra forma anos mais tarde - um dia a gente acaba crescendo, né? -, os discos da Legião vão continuar intactos no HD.

Forward. “Se a terra é um rádio, qual é a música?”. É ZeroQuatro perguntando de cara, num dos discos que nem que pesasse dezenas de gigas eu teria como me desfazer: “Samba Esquema Noise”, do Mundo Livre S/A. Doze anos incólumes na minha cabeça.

Eu tento lembrar de quantas mulheres eu pus na minha mente, óbvio, para encenar o “ela entrou de biquíni branco, deixou a blusinha na areia, jogou um sorriso pra trás, me deixou com a cabeça cheia de idéias” de “Musa da Ilha Grande”, oitava faixa do disco. Não consigo.

Não há nada no mundo que pague a sensação de ver um disco de 56 minutos guardar, em cada acorde, mais de uma década de história. Poucas e boas. Boas de nunca mais esquecer.

Eu sinto muito, mas “Always”, de Bon Jovi, meu lado B preferido - aquele que só é bom mostrar entre duas e quatro da manhã e para pouquíssimas pessoas - vai ter que cair fora. Idem para três quartos dos discos de Seal (calma, eu posso explicar!).

Caetano entra na roda, ou sai, com uma pá de discos bem ruins, que não chegam aos pés daqueles que faço questão de ter em LP, CD e mp3. “Transa”, por exemplo (cadê os créditos do Macalé, porra?). Djavan idem. Fica o “Coisa de Acender”, o “Luz”, “Milagreiro”. “Na Pista” entra no rol dos decadentes sem nenhuma elegância, ou seja: lixeira.

Volto para os gringos e lá estão “Siamese Dream” e “Mellon Collie and Infinite Sadness”, do Smashing Pumpkins. O primeiro é como um soco. Lá estou eu, dez anos atrás num apartamento branco, com pouquíssimos móveis, morando sozinho.

Deve ter sido com as faixas desse disco que eu aprendi a equilibrar a solidão. Da violência de “Geek USA” ao lirismo de “Luna”, há um gosto amargo mas não insuportável de “só eu sei como penei pra me acostumar”.

Mellon Collie” é o após. Quando toda a poeira que faz quando a gente não sabe o que fazer de nossa vida, tendo que dar conta dela sozinho, já havia assentado. Um monte de histórias para maiores de 18 anos. De um tempo em que eu não tinha certeza se chegaria aos 25.

O pior que não cheguei. Até lá tem muita história para passar a limpo nesses discos. Por hoje, o que apaguei dá para o gasto. E mesmo que eu quisesse, pelo menos agora, não tenho como prosseguir. Voltei no tempo com os discos que ficaram na pasta, não sei que horas volto ao futuro. Até!

Baixe aqui a trilha sonora deste post.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
André em 25 de agosto de 2006

Cara, eu tenho uns 600 CDs e não sei se vou conseguir, um dia, me desfazer deles - apesar de, hoje, raramente pegar algum para escutar. Coisas do avanço da modernidade.

Mas o que quero dizer mesmo é que Siamese Dream mudou a minha vida. Foi com esse disco que eu deixei de ter dúvidas se gostava ou gostava muito de rock.


Kamila em 22 de agosto de 2006

É muito interessante essa história de afetividade com os discos. O que pra muita gente parece apenas um fetiche, uma besteira e perda de tempo, mas é tão significativo. Gostei muito mesmo, um "eficiente potencializador de nostalgia" pra quem já é um tanto apegado a ela.

Ah, aceita-se doações! heheh
Um abraço.


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