O estalo veio quando eu deixei o alho queimar. Coisa simples e tal. Mas, sabe como é. Na verdade eu deveria ter começado a dourar o alho no azeite quando o macarrão já estivesse escorrendo. Apressei. Perdi o ponto. Não a ponto de perder o prato. Mas foi um estalo.
O estalo é perceber que eu sou quase um condomínio. E vou te contar: o que tem de morador desajustado nessa cabeça, não cabe num gibi. Caso você acredite em astrologia, dizer que sou geminiano já resumiria bem o caos. E ponha caos nisso.
Levo o “macarrão ao alho queimado” para ser degustado na sala. Quase um desafio de Hércules. Em cima da mesa, tantas revistas e livros que penso em mudar o seu nome para “estante”. De uma prateleira só, é verdade. Livros por todos os lados. Contas a pagar, vencidas. “Comida chinesa em domicílio R$ 7,50 o Yakisoba”. Eu poderia ter visto esse folder antes...
O violão, coitado, com dois dedos de poeira entre as cordas e os trastes. Cansadinho de guerra. Se deixar ele toca “O nosso amor a gente inventa”, de Cazuza, sozinho e talvez até melhor que eu.
Mas está tudo fora do lugar. Café sem açúcar, dança sem par. Cama às avessas. Roupas pelos cantos. Tem uma pilha de pratos sobre a pia que lembra a alimentação de um exército. Isso para não falar das meias. Copolla diria: “O horror! O horror!”.
E como em todo condomínio há aquele morador chatíssimo que conhece o Código Civil e cumpre o regulamento interno de cabo a rabo, tem dias que acordo dizendo que “agora tudo mudou”. Vamos botar ordem na coisa!
Anoto os compromissos do dia no caderninho, tiro um pouco a poeira do violão. Os livros... bem, podem ficar para amanhã, afinal de contas o processo é lento. As aulas que estou perdendo da faculdade. A segunda. Preciso falar com os professores. Não faltarei uma aula sequer até o fim do semestre. Mentira.
Meia hora depois quando saio de casa e percebo que esqueci o caderninho, ratifico, entre um sorriso pueril escondido no canto da boca e uma reclamação adulta de quem não tem idade para tal, que eu sou um condomínio.
E o problema é que a síndica dessa birosca está longe. E por causa disso o alho queimou, as roupas estão bagunçadas et coetera e tal. Porque com ela as coisas têm uma forma diferente de se alocar no tempo e no espaço.
Organizadas. Por cores, datas e formas. Feito um escaninho. Uma mesa que jamais será estante. Porque na mesa ela põe os biscoitos, o bolo, a manteiga, o leite com café. E me ensina que tomar café juntos pode ser uma das coisas mais prazerosas do mundo. E é.
Há um desprazer de chegar em casa e não encontrá-la com as reclamações que cabem exatas na minha falta de compromisso. E no fim do dia, cansado e sem saber exatamente o que eu tenho que fazer amanhã, o curioso é achar Pato Fu a melhor banda do mundo. Só por causa de “o que está fora do seu lugar, que você venha pra modificar”.
“A reunião do condomínio será iniciada as oito em ponto. Caso não haja comparecimento de pelo menos 20% dos condôminos, a ata será aberta com a quantidade que estiver presente, meia hora depois”.
Baixe aqui a trilha sonora do texto.
Ps.: Bom, eu disse semanas atrás que tinha adiado o lançamento do meu livro. Esqueçam. De uma hora pra outra a coisa (des)andou e eu estarei próxima terça, dia 03 de outubro, às 20 Hrs na Mercearia São Pedro, Vila Madalena, Sampa, lançando meu primeiro livro. Ele se chama "Aos Pedaços". Tem prefácio de Nando Reis e apresentação de Rita Apoena. Caso você possa ir, ficarei muito feliz. Caso esteja longe e sem grana, não se preocupe. Você pode baixar o livro aqui.
Ei duas coisas... andei meio longe desse mundo de ondas, sinais e cabos por conta da campanha eleitoral e meus compromissos, mas confessso que não sabia de lançamento de livro teu... foi mal.
Sobre o texto e a tua casa... você nunca mais falou naquele lance de incrementação material lá do pedaço, viu só iria aumentar o problema.
Você acha que só geminiano é o caos??? Béééééé, resposta errada. Eu devo de ser a virginiana mais às avessas que existe pois sou puro caos também. Esse seu "condomínio" eu chamo de "prisão", dia desses as Laíses entraram em rebelião e foi um caos organizado que nem as quadrilhas, sabe? Caos desorganizadamente organizado... é complicado... a carcereira daquela jossa tá pirando e jura que dia desses se mata. É esperar rpa ver, né?? srsrsrsrsrs
Beijos procê e boa sorte lá no lançamento =P
PS: Ah, to lendo teu livro (juntamente com um monte de coisas que ando lendo) e to amando! Muito bom, guri!
Arf... que mêda de entrar nessa casa.
Amo.