“Não, minha querida... matar você com um tiro na cabeça não faz de mim um sádico. Fazendo isso, acredite, estou sendo masoquista...”
Bravo! Bravo!
Recompondo-me. Confesso que por pouco não levantei em pleno cinema quando ouvi David Carradine sussurrar isso para Uma Thurman, em Kill Bill, e aplaudir ali mesmo (já pensou o mico?). Outra cena que adoro rever é Michael Madsen dançando enquanto ensaia o corte nada cirúrgico da orelha do policial, em Cães de Aluguel. Maravilha!
É que eu alimento uma admiração profunda por quem tem habilidade com ironias. Sim, a maneira de disfarçar as palavras, de deixar os desavisados olhando para a direita quando há muito o riso saiu pelo lado oposto.
É das coisas mais finas do humor e admito: uma frustração, afinal de contas não sou dono de nenhuma destreza nesse sentido. Por causa disso, desprendo toda atenção possível às finezas de Zsa Zsa Gabor, Bernard Shaw, Stanislaw Ponte Preta e a quem no dia-a-dia, mesmo involuntariamente, acaba cometendo uma. Adoça o dia.
Vejam só o caso da celeuma entre o mundo islâmico e as recentes declarações do Papa Bento XVI sobre a tendência bélica dos seguidores de Maomé. Uma ironia para ser colecionada. Involuntária.
É mais ou menos assim: “você me chamou de violento? Que absurdo! Pois para provar que não sou, vou destruir você!”. Bizarro, apesar de perigoso.
E pior: reincidente. Não esqueçamos das charges dinamarquesas que quase põem o mundo abaixo, caindo todo em direção a Meca. Não entenderam. Aliás, quem manda os chargistas não colocarem um aviso “isto é uma ironia”, não é mesmo?
Por causa disso lembro de Fábio Trummer, do Eddie, cantando que “só poderia crer num deus que sacudisse” (uma corruptela de Nitxie (sic) é verdade, mas não importa. Ficou melhor assim).
É justamente isso que falta – ou se não falta, os islâmicos escondem em atitudes truculentas – em Alá: humor, uma sacudida básica de vez em quando. Rir um pouco mais e até de si mesmo. Afinal... Imagem e semelhança e tal... Sacou? (É. Tentei fazer uma ironia... Esquece.).
Óbvio, a declaração do Papa foi pinçada de um contexto que amenizaria e muito o sentido dado à frase. Um diálogo entre o imperador Paleologus e um sábio grego, no qual o imperador pergunta qual a novidade trazida pelo Maomé além “de coisas más e desumanas como a ordem de espalhar sua fé pela espada”.
Óbvio também que moral nenhuma a Igreja Católica tem de exaltar a razão e apontar o indicador contra os islâmicos esquecendo assim o quanto utilizou a força para impor seus preceitos. Os dois lados, como o sapateiro grego, foram além das sandálias.
O Papa agora está em maus lençóis. Até porque além de “guia espiritual” (não meu, diga-se) é chefe de Estado. Diplomacia avante! Só não chamem o Marco Aurélio Garcia.
O problema é fazer com que os radicais islâmicos entendam que o ocidente, por ser majoritariamente cristão, não deve muitas satisfações aos seus princípios e crenças. Aliás, quase nenhuma, afinal, para tudo há limites impostos pelo respeito. E o humor é uma forma de, caso eles tivessem um mínimo, até aproximar os dois lados. Não é o caso.
O irônico nisso tudo é assistir a reação violenta de um povo que, quando dono do pedaço na Península Ibérica, soube em boa parte das vezes conviver com as diferenças e mais, acrescentar e muito os seus avanços culturais e científicos à sociedade européia.
Perderam-se por lá. O catolicismo conseguiu, ao menos na propagação de sua fé, sair da escuridão medieval. O mundo islâmico não. A expulsão ibérica e o consequentemente isolamento do mundo moderno e suas transformações podem ter influído deveras na questão. Freud e Hobsbawn devem explicar.
Enquanto isso, tanto fundamentalismo acaba passando uma imagem errônea do que é o islamismo. Pena. Desse jeito eu vou ter sempre meu interesse preso ao cinema e a culinária médio-orientais.
E como se não bastassem tantas ironias, o islamismo é a religião dos filhos de Ismael, netos de Abraão. Este o grande pai dos judeus. Os judeus, a galera que inventou o ocidente tal qual o conhecemos.
Beixe aqui a trilha sonora do post.
“só poderia crer num deus que sacudisse” *Ele é o cara da propagada da Skol???*
Mas ironia é quase que nem Stilo e Luxus: ou você têm, ou você não têm. E realmente acho que essas religiões deveriam ser mais flexíveis... sabe uma coisa que seria maravilhoso se acontecesse? Se eles cortassem suas barbas! Sério, mesmo... parece até meio fútil isso, mas os remoçariam, e isso, pra uma religião tão antiga, seria ótimo... Mas eles que se entendam né não?
E as trocas de delicadezas entre Churchill e Lady...Astor[eu acho]?! Um dia ela disse: "Você é um bêbado!" e ele respondeu: "E você, minha querida, é feia. Amanhã eu estarei sóbrio."
Ironias são lindas. Às vezes nem tanto...
Ôh, menino bom com as palavras! Parabéns pelo texto. Muito bom! Concordo plenamente com suas palavras, meu caro Rodrigo. Rsrrs...