Eis um dilema que me assaltou esses dias: quando exatamente eu tive noção do mundo que me cerca, amplo, todo, além dos limites da família e da escola? Não sei. Mas sei da seqüência de fatos e descobertas que foram se amontoando até que eu pisasse firme no chão e quisesse chegar ao fim do horizonte.
Descobertas, a maioria delas, ligadas às inúmeras formas que a arte nos oferece de enxergar o mundo, à liberdade de interligar (há quem chame isso de metalinguagem) sons com palavras, cores com sons, palavras com sensações, criar histórias dentro de histórias, ad infinitum.
Criar linhas imaginárias que entrelaçam filmes, por exemplo, sempre foi um ofício que ocupou minhas divagações. Achar que Siryana, Senhor das Armas e O Jardineiro Fiel fazem parte de uma mesma história, involuntária, e o mesmo de Felicidade, Beleza Americana e Magnólia é até compreensível, penso eu.
Só não consegui entender até hoje os motivos que me fizeram ter certeza que O Profissional, de Luc Besson, e Os Sonhadores, de Bertolucci, são capítulos do mesmo livro. Quando eu montar o quebra-cabeça prometo compartilhar a resposta.
Histórias. Às vezes um detalhe ínfimo de como são narradas, bastam para que possamos interligá-las, com laços afetivos, diretamente ligados ao que vivemos. Uma trilha sonora que se encaixa direitinho no livro que acabamos de ler e nos perseguirá como um monobloco, uno, inteiro, os dois, o livro e a música por tempos afora.
Agora mesmo tenho a atenção voltada para duas histórias com centenas de outras histórias dentro, que não me deixam saída a não ser pensar que Salman Rushdie e Nei Leandro de Castro são membros da mesma ordem secreta de escritores, siameses, confrades, mesmo que nunca tenham se conhecido.
Do primeiro, leio “Haroum e o mar de histórias”. Uma fábula belíssima, com os traços fortes da cultura indo-islâmica que forjaram Rushdie. A maneira poética de contar como Rashid, um senhor que pela tamanha imaginação, passou a ser chamado de “Mar de Histórias” é deliciosa.
Mas como nem tudo são flores, mesmo no mundo das fábulas, o tirano que governa a terra do sem fim não admite o descontrole sobre as histórias imaginadas e contadas por Rashid, por isso decide tirar-lhe a voz. Trabalho perdido.
A partir daí Haroum, seu filho, inicia uma viagem por todos os contos, mitos e palavras que um dia saíram da cabeça do pai, com o intuito de reuni-los novamente, devolvendo assim a inspiração perdida.
E já que estamos em pleno século 21 e podemos ir até a Índia partindo até de Natal, se for o caso de deixar a fantasia ao lado, Haroun nos oferece em sua viagem um pequeno tratado sobre a liberdade de expressão.
A mesma liberdade usada por Nei Leandro em “As Pelejas de Ojuara” (terceira releitura). Da Índia de Rushdie para o sertão do Seridó, Caicó Arcaico, familiar aos meus sentidos, a história verdadeira do homem que “virou bicho”.
Mitologia grega, literatura de cordel, trovadorismo medieval e lendas do sertão profundo, contando uma história lírica com humor e ação impagáveis. É a história de Ojuara, que um dia parte da vida modorrenta para conhecer a Mãe de Pantanha, o Pavão Misterioso, enviados do Tinhoso ao redor de uma fogueira baforando em três cachimbos velhos e tantos outros personagens que não se prendem aos traços regionais. São universais, interligados.
E assim vou conectando xilogravuras com Dalí, Elomar Filgueira com Afro Celt Sound System, Ghandi com repentistas, num caleidoscópio de imagens, sons, lendas que atravessam tempos e terras, que vão da Índia ao sertão em dois livros. A arte é capaz disso tudo. E de mais um pouco que você sugira.
Baixe aqui a trilha sonora do post.