Clique aqui para entrar na Página Principal do Portal
Veja os sites do Portal
Conheça nossos parceiros
topo
Você precisa de Bob Dylan | 06 de setembro de 2006

Não são raros os dias em que a provocação de Norman Mailer, ao dizer que não tem nenhum respeito pelo jornalismo como profissão, pode ser ratificada, seja “passando os olhos” no telejornal ou sujando as mãos nos impressos, antes de sair de casa pela manhã.

Um olhar um pouco mais atento pode conferir o quanto o leitor brasileiro está à mercê de um jornalismo de texto pobre em referências e construções, parcial, viciado nas assessorias de comunicação e nos releases-quase-coleção-de-adjetivos.

Para não atolar no movediço campo da cobertura política – e isso tem me entediado deveras – e por profundo desinteresse na manipulação de números dos cadernos de economia, prefiro me deter não no que entendo (não tenho essa pretensão) e sim no que me afeiçoa.

Então abro o caderno cultural da Folha de São Paulo e me deparo com a seguinte pergunta: “Quem precisa de Bob Dylan?”. Ok, deve ser apenas uma brincadeira, um trocadilho com a matéria que rendeu um Pulitzer a Lois Lane e a obrigou por força dos fatos, a corrigir adiante sua opinião. Riso nervoso. Começo a ler.

Não tem piada, a não ser o próprio texto e sem nenhuma graça. Não tem trocadilho e sim um acinte, uma opinião de um reacionarismo assustador, um descompromisso em formar e dar opiniões realmente embasadas, como se o leitor fosse um mero detalhe e agradar os “seis amigos da coluna” uma meta solitária.

E assusta não pela coragem de enfrentar um ícone – pelo contrário, acho que é esse mesmo um dos papéis do jornalismo, quem quiser simpatia que ligue para o Disque-Amizade – mas pela justificativa frouxa e pobre: Dylan é antigo e repetitivo, já o Be Own Pet (o famoso quem?), uma banda que não suporta uma enxurrada de downloads no MySpace, é “mais a cara da nossa geração”.

Que geração cara pálida? A que Dylan ajudou construir os hábitos e ideário há quase meio século atrás, desaguando no rock que ouvimos hoje e chamamos de “up”?

No fundo, o descontentamento não é por mim, nem pelo que gosto. Eu acho mesmo que a obra de alguém não o redime nem o torna cristalizado – foi-se o tempo, por exemplo, que Caetano fala algo que não seja só merda – mas penso nos leitores jovens, dispostos a exercitar a massa cinzenta e que correm o risco de terem como alicerce uma opinião deste naipe.

Como se ler já não fosse um esforço hercúleo diante das comodidades dos jogos eletrônicos e toda sorte de artifícios que apenas divertem sem estimular nenhuma reflexão, os jornais seguem olhando para o umbigo, cortejando o próprio velório e muitas vezes sem entender o porquê de despertarem quase nenhuma atenção da maioria das pessoas.

A crítica deve existir sempre - jornalismo de elogios não é jornalismo, é assessoria de comunicação ou resenhas que não escondem que “o jornalista viajou a convite do evento” - mas depois de Lester Bangs, Cameron Crowe, Pedro Só e Ana Maria Bahiana, não há espaço para falsas frases de efeito em crítica musical, sem justificativa alguma apenas para soar chocante, quando na verdade não passa de patético (Alguém chama o Forestieri para ensinar a essa criança como se faz uma polêmica, faz favor!).

Escutem Bob Dylan! Ouçam “Modern Times”, seu mais recente disco! Saibam como as novidades de cinqüenta anos atrás foram determinantes para o que vivemos hoje e que apesar do título, Dylan continua fiel ao que aprendeu no seu passado: narrativas cotidianas, crônicas maduras e observações dos modos que disseram naquele presente, o que ouvimos neste pobre futuro. Mesmo que este futuro seja por um download apenas, mesmo que não dure até o próximo festival “descoladinho”.

Modern Times” não é um disco de rock “garageiro”, nem vai mudar o mundo. Dylan já o fez outrora. Não é sequer um disco de rock, é um trabalho que beira o conceitual: a mistura que deu origem ao rock pode ser ouvida nele em todos os seus detalhes.

Depois disso, você pode até dizer que não gosta de Dylan ou que o conhece pouco. Mas experimentando-o, mesmo com pouca dedicação, tenho certeza que vai saber do que não precisa. Por exemplo, dos jornais que ando lendo.


Baixe aqui a trilha sonora do post

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Chr!sk em 12 de setembro de 2006

O Dylan e seu legado...
Certos ditos jornalistas (!) escrevem sem consciência de causa. Nem de efeito.


Kamila Siqueira em 08 de setembro de 2006

Deve ter sido a música para Alicia Keys e o clipe com Scarlet Johanson (desculpa, não sei como escreve)que desagradou tal jornalista...
Brincadeira.
Posso agradecer em nome dos leitores jovens?


Alex em 07 de setembro de 2006

Você está escrevendo cada vez melhor, parabéns. Acho que o cara devia tá puto porque ganhou o DVD do Roberto Carlos e ele queria mesmo era o No Direction Home


Eduardo em 07 de setembro de 2006

Legal. A matéria da Folha é realmente lamentável... O Arnaldo Branco também comenta o caso aqui ó: http://gardenal.org/mauhumor/ E o Modern Times é muito, mas muito bom.


Milena Azevedo em 06 de setembro de 2006

Rodrigo, cheguei agora da GHQ, abri meus e-mails e quando vi que você escreveu sobre Dylan, de pronto corri para ler a coluna. Já havia lido outras de suas colunas aqui, mas essa está muito boa (até o cinismo corrosivo de Dylan encontra-se nela!). Endosso toda a sua preocupação para com a falta de leitura dos jovens e a aceitação quase inquestionável do que lêem ou baixam pela Internet. Um texto desses, escrito na Folha de S. Paulo, macula, mais do que os dedos, a nossa inteligência. Bod Dylan já mudou o mundo quando teve peito para usar uma guitarra elétrica num festival folk. E viva o bardo, sempre!!!

Um abraço,
Milena


Erick Nobre em 06 de setembro de 2006

Conheço pouco do Bob. Mas entre jornais do tipo que você anda lendo, prefiro o Dylan, mesmo.

Parabéns pela matéria.

:)


ARQUIVO DA COLUNA
© 2006 Casa da Matriz Produções Ltda | Todos os direitos reservados | Todas as mensagens enviadas pelos visitantes do site são de responsabilidade dos mesmos
Todos os preços estão sujeitos a alterações sem aviso prévio