Pela primeira vez em alguns anos – e perdoem-me o delay de comentar isso só agora – a escolha do filme brasileiro que pode concorrer ao Oscar, parece ter tido como critério de escolha a qualidade. Depois do trauma dos dois filhos gasguitos de Seu Francisco, é de bom tamanho ver “Cinema, Aspirinas e Urubus” assim, todo pomposo.
“Cinema...” me deixou bastante emocionado. Não é exatamente a cor. Apesar de familiar, assim como o calor. Tem algo no filme que me toca significativamente e vai além do traço regionalista. Mais até do que “Abril Despedaçado” (sim, eu conheço todas as críticas que fizeram ao filme).
No caso de “Abril...”, talvez porque o engenho de cana movido à tração animal, igualzinho ao do filme, estivesse muito mais no campo da minha imaginação, tentando dar forma às histórias contadas por minha avó. Já o mar, da última, confusa e bela cena, eu não demorei tanto para conhecer.
Há algo que une os dois filmes, além claro das áridas locações, e eu diria que é a universalidade do tema, no caso, a amizade. Entre Tonho e Menino, entre Johan (Peter Kenath) e Ranulfo (João Miguel). O que por si só, já suplanta a conotação pejorativa que se lê na palavra “regional” algumas vezes.
É bom lembrar que “Abril...” tem como alicerce, apesar de transferida a história para o sertão, o texto original de Ismael Kadaré. Mais albanês impossível. A prova, portanto, que a arte e os sentimentos interligam-se de tal forma que desconhece distâncias, sejam geográficas ou culturais.
No caso de “Cinema...” o que me tocou foi a palpabilidade dos personagens, das suas paixões. Todos próximos do que ainda se pode conhecer nesse chão torrado, aqui pertinho, mesmo com os acontecimentos datados de 50 anos atrás.
Ranulfos e afins para todos os lados. Assim como moças lindas e amarguradas, presas que estão no conservadorismo de alguns costumes, que a modernidade tem aplacado. Poucas, bem poucas, mas ainda existem.
A ótica invertida utilizada por Marcelo Gomes, o diretor, de mostrar um nordestino ácido com seus próprios conterrâneos, além de um alemão cheio de paz em plena II Guerra Mundial, fazem de “Cinema...” algo bem distante do que geralmente se produz de caricato no cinema, quando ousa-se aproximar personagens tão díspares. Um mérito e tanto.
O calor é mesmo infernal dentro da boléia do caminhão que busca Triunfo. A fotografia estourada às vezes passa a sensação de sufoco. Mas não é essa a intenção? Um filme como deve se fazer música: tensão, tensão, para enfim resolução.
E a resolução, ou alívio, são os olhos cheios de brilho de alguns anônimos, maravilhados com o mundo da Aspirina a 24 quadros por segundo, num lençol branco estendido entre dois varões. Singelo, para ficarmos num eufemismo. Poético, para encerrarmos os adjetivos.
“Cinema, Aspirinas e Urubus” festeja qualquer coisa de fantástico, a amizade celebrada entre dois mundos completamente distintos, carregados de muitas angústias e pequenos prazeres. Os deletérios da fornicação, de alguns goles de cachaça para estancar a dor de não saber o que fazer da vida, por exemplo.
O cenário quase sempre minimalista dá ao espectador uma sensação de proximidade com a história, que é cativante. A cena em que Johan e Ranulfo se encantam por Jovelina merece um quadro. Eu vi “Jules et Jim” ali. Adiante eu vi Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e até Spike Lee.
Com tantas boas referências assim, o cinismo e a justificativa teriam que ser realmente aterradores, caso o filme não tivesse sido escolhido para tentar a sua estatueta dourada. Porque, na boa, com aqueles concorrentes, ou urubus para pousar na sorte dos diretores e atores, ou muitas aspirina para ter que agüentar tanto mal assombro.
Hello people! Nice site!
Eita, dormi no ponto, deixei passar...
Agora vou ter que esperar em dvd.
abraço
Muito bom!
Fiquei morrendo de vontade de ver o filme. Depois de uma crítica tão positiva, deve valer o Oscar...
abraço, moço
Esta foi uma das melhores resenhas sobre filme que li nos últimos tempos, Rodrigo. Conseguiste me deixar com água na boca de tanta vontade de ver "Cinema...".
Obrigado.