Maria Bethânia não pode, nem deve, ser a mesma de mais de 40 anos atrás, cantando “Carcará” com toda força da uma menina baiana recém saída do sertão nordestino. O tempo modela, afeiçoa, acalma os cabelos revoltos – como aqueles no espetáculo “Opinião” – tornando-os brancos, carregados de experiência.
Os muitos anos de asfalto e fama pontuaram a carreira da diva da MPB com muitos acertos, alguns erros vergonhosos, concessões idem. Ossos do ofício. Na senhora de muitos discos, vê-se pouco a menina de Santo Amaro da Purificação. Mas vê-se.
Da Bahia ao Pajeú, interior do Pernambuco, é um pulo. Duas carreiras distintas, dois sons mais ainda. O que o Cordel do Fogo Encantado tem a ver com Bethânia? Muita coisa. Acredite.
Egresso de uma cena que há muitos anos pulsa, numa terra onde poetas florescem como juazeiros em plena seca, o Cordel deixou Arcoverde como um espetáculo teatral assustador aos ouvidos de quem vagava pelos escombros do Mangue Bit, o movimento da capital a algumas centenas de quilômetros, a quem se uniu quando os tambores africanos falaram mais alto do que a encenação em si.
O lirismo apocalíptico – e quem conhece o sertão entende que o sebastianismo é apenas um dos muitos movimentos místicos que se dão por aqui – unido a uma percussão aterradora de tão forte, fundiu-se num dos espetáculos musicais dos mais interessantes da música brasileira contemporânea.
A teatralidade mambembe fez do Cordel, desde o início da carreira, quase um recital dos resquícios mouros na cultura sertaneja profunda, uma apresentação contemplativa muito mais do que um disco que se ouça no trânsito, voltando para casa.
O primeiro deles, produzido pelo mago Naná Vasconcelos, mostra bem isso. É a anunciação, o universo sertanejo em “chegança”. O canto dos violeiros das feiras livres e, como o nome aponta, as narrativas da literatura de cordel em profusão. A percussão festiva e de baque solto levam desde sempre, um estado de transe à platéia, bem comandada por Lirinha, o vocalista e líder do grupo.
A saga continuou em “O Circo do Palhaço Sem Futuro”. Era a mudança. De casa, de rumo, o mundo se abrindo assim, do nada, em questão de dias. De Arcoverde para a Europa, da Europa para a paulistéia, fazendo a alegria da burguesia folclórica, dos hippies chiques, mas sem perder a ternura.
No entanto, na história de vida e morte de Stanley, e não de Severino, já havia uma mudança de caminho, marcada pela inventividade, é verdade, mas pelo tempo também.
Aí veio o cinema, de Cacá Diegues a Guel Arraes, mais e mais público agregado em cada show, uma rede de divulgação longe da grande mídia, percorrendo os mais longínquos lugares desse país alicerçados em poucas notas de grandes jornais, mas em cavalares doses de carisma e autenticidade.
O Cordel passou a ser um fenômeno, com uma agenda concorrida e esse ar marginal de quem consegue o que quer sem vender a alma a preço de banana, a major que oferecer uns trocados. Tanto é que o DVD que registrou – sem muito brilho, diga-se de passagem – a energia da banda no palco, ainda tem distribuição independente.
Chegaram ao terceiro disco, “Transfiguração”, amadurecidos, melódicos e até arriscaria: céticos. Há um reflexo de quartos de hotéis e luzes de mercúrios, uma solidão dos olhos que se põem não mais sobre o chão torrado do Pernambuco, agora derramados no frio das grandes cidades.
É um belo trabalho. Melhor lapidado que os anteriores, com letras mais palpáveis para quem não se habituou ainda com esse universo de onde emergiram. Delicado às vezes até. É a adaptação à nova vida. Os pés fincados e provavelmente, sem perspectiva de volta a Arcoverde.
O que Bethânia tem a ver com tudo isso? Muito. É que o tempo – tão cantado pelo Cordel – parece ter corrido com mais agonia. Ponteiros acelerados, o deslumbramento brejeiro – como aquele de quem cantou “Carcará” com os pés descalços – se perdendo na frieza burocrática da agenda apertada.
Não se ouve, como antes se ouvia, as declamações impecáveis na voz de Lirinha. As homenagens-aula a Manoel Filó, Sebastião Leite, Fabião das Queimadas, Chico Antônio, Gilmar Leite, os mitos de pedra desse sertão rico, apesar de seco.
Ainda há transe na platéia. Ainda há fogo no palco, nas mãos de todos eles. Mas há menos poesia nessas almas que cruzaram a Ipiranga com a Avenida São João e ficaram por lá. É a poesia estúpido! É isso que não se ouve o eco como há dez anos atrás.
É como se a distância de décadas entre Maria Bethânia substituindo Nara Leão em 1965 e cantando Zezé di Camargo, tivesse passado para o Cordel assim, num estalo de dedos, ou no toque de um atabaque. Não na forma de uma concessão tão constrangedora, mas sem a paixão de outrora, mesmo com a carreira consolidada.
Os pés descalços de Bethânia estão lá. A força de antes não mais. É como o Cordel, que agora, depois do mundo novo e da cidade grande, não parece tão encantado assim.
Na literatura popular brasileira quem muito se destacou foi o Poeta Fabião das Queimadas, nascido em 1848 na Fazenda Queimadas - Lagoa de Velhos/RN. Fabião, embora iletrado como a maioria dos grandes poetas populares, mas sua obra foi registrada em uma boa escala. Ele nao foi autor de nenhum cordel, mas hoje seu nome é tema de cantorias, estudos em universidades, filmes, livros etc. Suas obras mais conhecida sao: A morte do boi mão de pau, Vaquejada na fazenda Belo Monte entre outras.
Cordel do fogo Encantado é um "fenômeno musical brasileiro", disto creio eu na minha inocência, o termo "aspado", anterior a este, já é até clichê de tanta verossimilhança da onda lírica reverberada por Lirinha e a confusão existencialista do Ser e das culturas brasileiras que capengam no limbo pelo o compressor da globalização, do pós-modernismo e da pós-modernidade. Vejo cordel passando por um momento reflexivo em sua própria arte que o faz e está fazendo o grupo transcender as tradições de modo que os encantados não renegam o seu encanto que cativa o público (raízes, ou melhor, tradições e arte), mas a universaliza.
É uma genealogia poética do seco vindo ao concreto. Um concreto que é lindo e híbrido, mas não escapa do vazio árido, soprados entre as linhas dos excessos de desejos e modinhas que fingem tornar pessoas em pessoas, sendo assim, tão árido e existencialista quanto o sertão de Guimarães Rosa. Transfiguração é uma transitada pós-modernista que a cada dia vem potencializando os significados ao que é representado, não quero aqui dizer que Cordel alienou, pelo contrário, mostrou estar mais lúcido que nunca, brincam com o potencial interpretativo de visões de mundo e símbolos e representações ambivalentes. De uma forma ou de outra interagem entre a natureza x o concreto e nos traz esta estesia que muito incomoda os fãs tradicionalistas, mas que ao mesmo tempo recebem uma tapa na face para acordar que o mundo gira. É claro que temos que ter a tradição explicita, mas não podemos impedir seus novos desenhos.
Cordel ameniza os tons, e mostra a agressividade abraçada a sensibilidade invertendo tudo e não invertendo nada ao mesmo tempo. Dão-nos um aviso para caminharmos em busca das mudanças abençoados e guiados pela essência que fixa uma semente identitária que dão frutos. Que hora caem hora nascem. Que Hora nascem, hora caem. Ciclo para um novo sempre depende do velho. Bela encantada máscara de fogo, cordel!
Se você fizer uma leitura mais apurada vai ver que a poesia popular no Cordel foi se juntar a outras referências literárias. Desde o primeiro disco o Cordel já falava de raízes caminhantes. Mudar caminhos sem perder as referências é uma arte para poucos. Ler o cruzamento de referências (de João Cabral a Ana Cristina César) de Transfiguração, é arte para pouquíssimos. O grande X da questão é que o Cordel tem uma ala de fãs tradicionalistas, conservadores mesmo, caretas de verdade, para quem as mudanças são assustadoras. Aí ficam nessa de sertão puro, de tradições intocadas e não percebem (ou não querem perceber) que o tempo passa, que a cultura popular não é uma virgem intocada, que as pessoas ampliam os horizontes culturais, literários e musicais e que o sertão tá mesmo é cheio de parabólica e os carcarás andam morrendo à míngua. om uma leiturica de nada não se constrói um crítico.
Rodrigo, não vou tecer comentários a respeito da "transfiguração" do Cordel, pois você e Gilmar já os fizeram da forma mais clara e concreta desta nova "vida" do grupo...!
Na realidade quero deixar registrada a minha gratidão e imenso prazer em ter conhecido uma pessoa tão inteligente e expressivamente "gente"!!!
Verdadeiramente, não houve exagero nas palavras do Poeta, quando afirmou seu dom nas palavras escritas, deixo um sincero abraço...Prazer!
Meu amigo Rodrigo, só uma alma como a sua para perceber a mudança do cordel. Conheço Lirinha desde quando ainda adolescente declamava nos festivais de poetas repentista pelas ribeiras do Pajeú . Vi o cordel na fase embrionária, e foi um susto assistir Lirinha cantando, pois o mesmo na rodas de música e poesia(boemais) em São José do Egito, nunca abriu a boca para cantorolar nenhum trecho de alguma música qualquer. Sempre se fazia presente para declamar algo dele ou dos poetas da ribeira pajeusense. Com a explosão do cordel foi uma dádiva para os repentistas e poetas de bancada (escritores), porque todo mundo tinha a certeza que o nossa literatura estaria rompendo fronteiras e alcançando lugares onde ela ainda sofria(sofre) algum tipo de preconceito, por ser feita por pesssoas simples para pessoas humildes. Mas ao assistir o show "transfiração" sofri uma certa decepção, ao sentir que o show do cordel está caminhando para ser apenas um espetáculo musical. A poesia declamada interferindo nos momentos musicais foi a porta de entrada do cordel por onde ele passou, e infelizmente o cordel não está tendo consciência disso. Digo, porque em entrevista, a banda fez questão de dizer que a nova fase do cordel está mais para a parte musical,a poesia ficaria em segundo plano. Fico pensando que daqui há 10 ou mais anos, quando essa geração que vai pra frente do palco ficar pulando ao som do cordel estiver com seus seus 30 a 45 anos,comcerteza não estará com a mesma disposição física e auditiva. Ouvi depoimentos de várias pessoas adultas que disseram não irem mais a um show do cordel.Ouvir só o barulho pelo barulho não vale o sacrifício. Ainda iam por causa da poesia.A decisão do cordel um caminho perigoso o que a banda está trilhando agora. Artistas como Fagner, Zé Ramalho, Belchior, Amelinha, Chico Cesar,Elba e outros, que se perderam nessa estrada de negar ou mudar, todos eles não tem a mesma credibilidade que tinha quando começaram as suas carreiras musicais. Fica aqui a pergunta. O cordel voltará a ser como antes? Ou será um Marcelo D2 ou um Rapa da vida? Acredito que não ´´e preciso ser o outro para ser alguém na vida. Milton Nascimento até hoje canta Minas e é o artista brasileiro mais conhecido do mundo. Nunca vi um artista do eixo São Paulo e Rio buscar na arte nordestina o único caminho para se firmar nos palcos do Brasil. Mas foi não foi alguém daqui esquece as "águas" que se banhou, que deu vida a sua história de arte, e procura as "águas" de outros eixos com discurso do novo, de outras alternativas, de novas experiências, e joga de lado tudo que o consolidou. Infelizmente isso tem acontecido.Essa é a minha opinião.Abraços amigo Rodrigo, caba de bom papo. Poeta Gilmar Leite
"Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, dizia Heráclito de Éfeso. As águas passam, a pessoa muda e, ao banhar-se no rio de mesmo nome, trata-se de uma outra pessoa em novas águas."
Diga-se o mesmo das chamas. Sempre serão novas labaredas e olhar renovado (ou envelhecido) a mirá-las.
Com um aperto no coração concordo com você. Estou ouvindo "transfiguração" direto e, a meu ver, é excelente depois de ouvir uma terceira vez.
Mas é inegável que Lirinha perdeu algo na "selva de pedra". Talvez um pouco do lirismo sertanejo. Talvez.
Estão atribuindo esse novo trabalho mais "civilizado" do Cordel ao sucesso no eixo SP- RJ...O show de sexta passada foi muito bom, mas também senti falta de declamações e de improvisos. Como diz Lirinha, "não se ensina a ser palhaço" assim como não se ensina a se relacionar com poesia. E não devia desaprender também, muito pelo contrário!