Eu devia ter uns dez, doze anos no máximo. Saltei da cama e com passos lentos e calculados consegui sair de casa sem que meus pais percebessem. Era madrugada. Entre cacos de um coronelismo de relações quase tribais e a liberdade vigiada de uma democracia pouco mais velha que eu à época, cheguei eufórico ao último comício daquela campanha política.
Era o que ainda chamam por aqui de vigília. Varando a noite pelas ruas da cidade. Um mar de gente em pleno sertão do Seridó e tudo, segundo o último coronel Teodorico Bezerra, que é bom: música, foguetão, baile, passeata, dança, flores e aplausos.
Fazia pouca idéia do que era o mundo. Mas sabia de que lado eu estava e que cor eu defendia. A política para mim era, até então, a ansiedade que antecede o pleito que depois iria ser, ou a alegria de quem vence ou o amargor do derrotado.
Simples assim. Da minha vida e do meu futuro meus pais cuidavam. Político tinha que discursar bonito e incendiar o povo. Inclusive eu. Mesmo usando palavras que não entendesse bem e de dois em dois anos.
As mãos geladas, feito moleque embasbacado pela menina mais linda da classe, denunciavam a paixão. Cresci assim: apaixonado, louco por política. Com o tempo veio o que chamam de “ver o mundo com outros olhos”. Finquei os olhos nos livros, danei-me a ler o que passava pela frente, sobre o tema.
Biografias, relatos históricos, análises, a página três de todos os jornais. Então, como é de praxe, o senso crítico modelou o sentimento passional, nascendo assim um ponto de vista, uma forma de pensar que fatalmente se afeiçoou a uma agremiação partidária, que em tese, pensava como eu. Um desperdício, hoje sei.
Daquela paixão restou apenas a lembrança boa, pueril. Os olhos arregalados da minha mãe me achando no meio do povo e vindo, vindo, vindo – óbvio que com a sede de dar uma boa sova no filho fujão – até que não resistiu e parou para ouvir o discurso. Ficamos lá. Juntos. A sova que queríamos dar era de votos (mesmo que eu nem votasse ainda) no “povo do lado de lá”.
Bons tempos que não se assemelham em nada ao que trago hoje nos olhos. Uma descrença sem fim. Um dissabor de não conseguir unir o que sonhei com a emoção do que vi tantas vezes, desde menino. As teses roubaram minha inocência, a prática dilacerou minhas vontades.
Eu queria levar apenas o fogo daqueles comícios que vi quando criança, junto com o idealismo escandaloso que ousou não pender para lado nenhum, anos mais tarde, no auge da adolescência rebelde e esclarecida. Não houve como.
Não há teorema que explique a política no Brasil. Foi aí que me perdi. Do que li, nada serviu, a não ser para não sucumbir na verdade dos fatos. Do que vi, ficou a desilusão da demagogia e do lodo quando descobertos. Um nó.
Desisti ao perceber que aqui nada se encaixa como em qualquer lugar do mundo. Direita e esquerda se confundem, em teorias pouco lidas e muito gritadas, práticas siamesas apesar das negativas de ambos os lados.
Comemora-se a derrocada de uma oligarquia ao mesmo tempo em que se vota na mais nojenta das aristocracias paulistas. Um paradoxo? Não. Por aqui não. É assim que caminha a humanidade de acordo com os olhos brasileiros. E por isso mesmo, vai dar em lugar nenhum. Não há conformidade. O caos impera.
Assim com muita coisa nesse país, a política não é séria. E vai continuar não sendo. Primeiro porque nem os seus operadores têm a mínima noção do que se trata em tese (a ser aplicada concretamente). Depois porque o povo, no fim das contas, quer ser um eterno menino, assim como eu, anos atrás, embasbacado com o que a política tem de bom: música, foguetão, baile, passeata, dança, flores e aplausos.
Ps.: Eu preciso agradecer profundamente a todos que de alguma forma tornaram possível o lançamento do meu primeiro livro, "Aos Pedaços", em São Paulo. Especialmente a Carlos Fialho, Marcelino Freire e Nando Reis.
Caso se interessem em comprar o livro, basta escrever para rodrigolevino@yahoo.com.br e darei um jeito de entregar em mãos. Obrigado!
Ah, eu quero!!!!!
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Beijos pra tu,
Laís
Meu querido Rodrigo,
Outro dia ouvi alguém dizer que de sincero só existem dois tipos de pessoas: os bêbados e as crianças. Hoje você lança uma semiexceção (justamente porque lembra da infância ou adolescência como tempos gloriosos de sinceridade e inocência).
Eu já vi muita coisa (e sobre as que não vi eu li) na política. Não espero mais nada do que aí estão, no dos que cá estão (nós). Já concluí que o senso de história, algumas pílulas antiamnésia e um punhado de autoavaliação são boas armas pra pensar em mudar.
No mais é crer, chorar e esperar. Viva a infância!