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Do som nascem as palavras. | 27 de novembro de 2006

Etimologia é uma coisa sui generis. Ao menos para mim. Quando leio sobre os significados das palavras imagino-as despidas, com todos os segredos resguardados durante séculos caindo um a um em explicações na maioria das vezes bem curiosas. De qualquer forma ver a palavra viva, pulsando, evoluindo é mesmo um tesão.

Como isso na maioria das vezes acontece em processos longos e “invisíveis” - algo como a teoria da sobreposição dos fatos sociais, de Peter Burck – não nos damos conta que as palavras nascem, crescem, morrem, mudam. Algumas que ontem marcaram nossas vidas hoje não fazem sentido algum para a geração adiante. Um mistério. Nós findamos e elas continuam. Outras morrem antes de nós.

O que dizer então da oportunidade de vermos algumas palavras tomando novas formas diante dos nossos olhos e ouvidos? Coisa que os escafandristas encontrarão não em cartas ou poemas, quiçá em pequenas caixas cibernéticas de música que eles chamarão fineza, classe, talento, mas não em separado, e sim numa só palavra que tome em si todos os sentidos acima. Uma evolução.

Meninos, eu vi e ouvi Roberta Sá cantando. Eu vi uma coisa que não ousa dizer o nome ainda, mas esboça algo grandioso. Eu vi a evolução da palavra, cantada que seja. A fineza de um repertório impecável; a classe de uma voz afinadíssima, imponente mesmo delicada; vi o talento no corpo da jóia de quilate mais alto que a música popular brasileira produziu desde “...cor de rosa e carvão”, de Marisa “chata aos montes”, no distante 1994.

E quando eles, os escafandristas, chegarem com seus instrumentos futuristas talvez não sejam capazes de imediatamente sentenciar com adjetivos simplistas, o tesouro encontrado em depósitos de lixo atômico, caixas e caixas de discos de Marina Elali, Wanessa Camargo, Kelly Key.

A menina é um achado. Resgatada de “uma academia de formar Emílios Santiagos em série”, o reality show Fama, Roberta não se ateve aos vícios de uma indústria fonográfica falida de talentos, impositiva nos timbres, no repertório, oferecendo aos mais incautos uma temporada de sucesso que acaba quando o verão se for.

Roberta está há anos-luz disso, o carnaval dela é delicado, doce e versátil. Não é mulata tipo exportação para estante de world music. É preciso um pouco mais de atenção para enxergar que não é fácil para uma intérprete colocar lado a lado num disco uma composição do Marcelo Camelo e uma do Chico Buarque, sem correr ou o risco do clichê ou patinar na (in)definição do que realmente quer cantar. Você consegue me ouvir, Maria Rita?

É isso que ela faz numa versão surpreendente e minimalista de “Casa Pré-fabricada”, de Camelo. Antes disso, mesmo com a possibilidade de ousar um pouco mais nos arranjos, não desmerece Buarque em “Pelas Tabelas”. Uma digressão é necessária e explica bem como a moça tem personalidade ao avisar na primeira faixa do disco Braseiro que não samba para copiar ninguém, samba sim, com vontade de sambar. E isso basta.

E por falar em classe, o Paulinho da Viola estava a duas cadeiras de mim e não teve reação diante de sua “Valsa da Solidão”, parceria com Hermínio Bello de Carvalho. Aplaudiu, sorriu tímido como é do seu feitio. Sorriu de quê Paulinho? Do bem que é ver a menina cuidando bem de suas jóias.

E quando está prestes a deixar o palco, depois de tantas outras que fazem este que vos escreve esquecer as regras dos poucos adjetivos e ser imparcial – ah, mas que se dane – ela parece tirar da manga uma carta que fecha o jogo, com sua performance pontual, nunca além do necessário, que “felicidade é um bem natural, que pelo menos dure enquanto é carnaval

Aí ela se vai, leve como entrou e deixa no ar muito mais do que uma sensação gostosa de que nem tudo está perdido nesta porca música brasileira, que o seu carnaval é feito assim a felicidade, um bem natural, sem quarta-feira de cinzas nem ressaca. Uma página aberta num livro qualquer de etimologia, onde os escafandristas catalogarão uma nova palavra, feita de classe, fineza e talento, por nome RobertaSá.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
kamila em 30 de novembro de 2006

Roberta é linda. Queria bem poder ta lembrando da apresentação ao ler sua crítica, mas fico só com a voz dela aqui no Media Player. E esperando que a próxima vez não seja numa véspera de prova ou coisa do tipo.
abraço, Rodrigo.


Laís em 29 de novembro de 2006

Não conhecia Roberta (aliás, ando completamente alienada de tudo nesse cu de mundo)... abri agora o site dela e achei muito mimosa a voz dela. Se a primeira impressão é a que fica, acho que vou gostar da menina... hehehehe!

Beijos pra você,
Lala


Marcos Sá de Paula em 28 de novembro de 2006

ô menino para escrever bem!!!
quando eu fundar meu jornal, vou contratá-lo.


Felipe Gaúcho em 28 de novembro de 2006

Imparcialidade? Meu amigo, ninguém é imparcial depois de assistir a um show da Roberta Sá.

Rodrigo, parabéns pela crítica. Seu texto só seria melhor se estivesse em forma de música. E cantada por ela, claro. Abraço!


Xian em 28 de novembro de 2006

Tenho lido pouco esses dias. Tenho tido pouca vontade de ler. Mas o "Roberta Sá" do seu recado chamou minha atenção e precisei vir aqui pra encontrar qualquer coisa em suas palavras que me fizesse escrever sobre como Roberta é melhor ainda. Confesso, fiquei satisfeita com o que li.
Mas Roberta é melhor ainda. =)


Lenamaria em 28 de novembro de 2006

Salve Roberta!
Salve Rodrigo!
Salve, salve...


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