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Feliz ano novo! | 19 de novembro de 2006

Adeus ano velho, feliz ano novo e coisa e tal. Por que não jungle bells em vez de jingle? A correria típica que se aproxima não é selvagem? Para falar a verdade – e isso não tem motivações ideológicas – festas de fim de ano não me atraem de forma alguma. Não que eu ainda não ria dos clichês ou queira mostrar novos mundos, parafraseando o Antônio Cícero, mas é puro tédio social. Não tenho saco.

Prefiro fazer minhas listinhas perpetuando as manias de Rob Fleming. Por causa delas, as que eu comecei fazer esta semana, cheguei a conclusão que este ano já era. Sim, acabou, quase dois meses antes do dia 31 de dezembro. E posso justificar, of course.

É que fica complicado esperar algo novo e maior até retirarmos a última folhinha do calendário, quando ao menos em se tratando de arte e cultura pop já fomos presenteados com cositas bacanas de encher olhos e ouvidos quase aos 47 minutos do segundo tempo.

Antes de retirar os headphones e pôr a cara na telona, uma pilha de bons discos compensou um ano morno em se tratando de música, que foi 2005 (vade retro!). Bob Dylan à toda com “Modern Times”, Arctic Monkeys com seu rock tosco de garagem desbancando os “despenteadinhos da Estrela”, vulgo Strokes, já poderiam manter a pecha de ano muito bom.

Mas não. Com o time quase saindo de campo, aparece a bicha louca do Jarvis Cocker fodésimo, num disco lindo e sem novidade nenhuma (e precisa?), fazendo apenas o que consagrou a moçoila de lentes grossas como uma das figuras mais influentes do rock inglês recente. E para dizer que não falei das flores e já que estamos falando de bichinhas, Morrisey deus as caras, sinfônico, mais melódico do que “You Are The Querry” e de brinde você ainda leva Enio Morricone. Quer mais?

Sim, eu tenho: “The Greatest”, da Chan Marshall disfarçada de Cat Power, no disco mais delicado do ano, competindo em pista oposta com o “Go To Mexico”, da Cassandra Wilson (a negona ta podendo). Na raia paralela o Razorlight para ser cantado em estádios lotados. Basta babies, vamos falar dos nossos conterrâneos, afinal de contas o Cansei de Ser Sexy é international faz tempo.

Pelas terras quentes de onde escrevo, viu-se uma pá de festivais bem estruturados, bandas novas que tendem a crescer e qualquer dia desses você ate me manda um e-mail dizendo: “Bah, acabei de ver o Jane Fonda no Faustão!” e antes disso, pode conferir no YouTube a passagem do DuSouto pelo Jô Soares. As coisas mais finas que surgiram no Nordeste há um bom tempo, não tenha dúvidas. Ouça-os. Com certa urgência.

E o danado é que eu vi pela primeira vez e a poucos centímetros de distância um Modigliani, original, imponente. Então não posso tecer muitos comentários. A coisa é pessoal. Vê se gostas e me diz. Mas confesso que me emocionei. Gosto dele, pela história, pelo traço. Então andando pelo MASP e achando que só encontraria um deus, digo Renoir, que me fizesse tremer, dei de cara com dois belíssimos quadros do italiano junkie que competia com Picasso para ver quem comia mais mulheres.

Deixo os discos e os quadros e me deparo com 24 quadros por segundo. “Cinema, Aspirinas e Urubus” passando de 40 prêmios aqui e lá fora. Que coisa, não? Ou você achava que "Zuzu Angel" iria para algum lugar além do merchandising da Globo? Sem muitas delongas, até porque o último realmente importante do ano é colossal e deixa pouco espaço: "Os Infiltrados".

Sabe quando você sente vergonha alheia? Foi isso que aconteceu quando vi “O Aviador”. Deus do céu, para onde tinha ido o Scorcese que eu conheci numas das melhores seqüências iniciais de todos os tempos, “The Goodfellas”? O boêmio voltou. E para ficar, porque o crime é o seu lugar (que trocadilho infame). Cruel, frio, perfeito em roteiro, direção, trilha e tudo que Jack Nicholson pode nos oferecer com toda a devassidão que exercitou a vida inteira. De quebra tem Leonardo Di Caprio calando todas as bocas. Ele é um grande ator. Mas só Scorcese poderia arrancar leite daquela pedra.

Os livros? Não muitos novos. Umas descobertas bacanas e a principal delas, que virou até resolução de ano novo (né, Nina?): publicar um livro. Um filho, um parto doloroso, natural, um suor frio e depois alguém chegando e dizendo “está tudo bem com ele, é um belo filho”. Consegui editar o meu primeiro livro. Nada que mude os rumos da literatura, mas é bom saber que podemos. E qualquer um de nós. É isso. Não tem melhor livro de 2006, tem só um conselho sincero: tem algo escondido aí na gaveta? Mostre a cara à tapa e faça o seu livro. Você pode. Feliz ano novo.

seta Rodrigo Levino

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