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Freio de arrumação | 03 de novembro de 2006

Freio de arrumação” é uma das expressões mais curiosas que você pode ouvir pelo Nordeste (agora não tenho certeza se apenas por aqui). A origem remete aos antigos paus-de-arara, onde além de gente, os bichos e as coisas tomavam conta da carroceria num desarranjo assustador, rumo ao El Dorado.

O tal freio, brusco e sem aviso, servia justamente para organizar as coisas da melhor forma possível, mesmo que aos atropelos. Nos espaços mal preenchidos agora a quem os ocupava não era dado sequer o direito de mexer-se. Era a acomodação possível e necessária. Gente no lugar de gente, bicho no lugar de bicho e assim por diante.

Foi-se o tempo das carrocerias, ficaram as coisas e os espaços sempre necessitados de caprichados “freios de arrumação”, tome-se como exemplo a relação entre o poder político e a mídia. O El Dorado? A verdade, a primeira vítima em qualquer que seja a guerra, até a da informação.

De Chateaubriand a Roberto Marinho, a galeria de prováveis vilões da liberdade de imprensa, aliados aos interesses dos mandatários do país, nunca deixou de ter os seus quadros preenchidos. Uma relação de amor e ódio, onde interesses, boataria e sentimentalismo muito mais que racionalismo assemelham-se ao desarranjo das citadas carrocerias.

A gritaria existe em qualquer dos lados. Clama-se – e na maioria das vezes quem ainda não teve a chance de ter o seu quinhão de poder – por imparcialidade, como se fosse algo possível quando se lida com fatos e visões sobre os mesmos. A forma como se vê um acontecimento já exclui a possibilidade de imparcialidade, a reprodução então, amplifica ou a simples opinião ou os interesses escusos. Coisas diferentes, portanto.

Agora, diante de um governo que chegou ao poder em parte por ter suas idéias partidárias e ideológicas (?) propagadas por uma mídia que não necessariamente dominava, a imprensa vê-se diante de mais um conflito, uma gritaria algumas vezes descabida, exagerada. Na outra ponta uma hostilidade sem razão, que não entende a diferença entre informar e ser conivente.

É injusto dizer que as tentativas do atual governo de regular a produção de informação, que acabaram não vingando, são um atentado à democracia. Bobagem. Ela move-se por muitas outras engrenagens, algo mais profundo – embora seja a imprensa parte dela – do que um punhado de regras sobre a produção cinematográfica, por exemplo.

Da mesma forma é descabido que o Presidente venha a público hostilizar a chamada grande imprensa, como se o papel da mesma não fosse incomodar. E se não, qual será? Ainda mais depois de uma eleição atípica que revelou as entranhas de uma mídia falida, que não soube dialogar com o público e mais, assistiu a derrocada de todas as análises políticas, desmistificando a imagem do formador de opinião, um pitaqueiro com nome elegante.

É preciso mais uma vez, dentre tantas outras registradas pela história, que a democracia brasileira, jovem e ainda com um caminho árduo a cumprir, dê o seu “freio de arrumação” nessa carroceria de jornalistas revanchistas e alarmados, e políticos e militantes acostumados à máquina sindical, viciada em afagos.

No meio disso tudo, que se ache um lugar não menos digno para os chamados intelectuais. Essa classe oportunista, tão imparcial quanto a imprensa, revestida pela aura do academicismo covarde, que se cala na hora de falar e fala quando não há mais razão. Um cantinho apertado a Rose Marie Murano, outro mais ainda a Marilena Chauí.

De quem deve ser o pé no “freio de arrumação”? Do povo. A quem é dado o direito de cair ou não nas armadilhas e bravatas do poder – vide revisão das concessões públicas dos veículos de comunicação -, assim como na falta de limites da imprensa. Que decidam por si só a quem ouvir. E as últimas eleições são uma prova disso. Certo ou errado, essa coisa que desagrada a tantos tem o mérito de ser livre e atende pelo delicado nome de democracia.

Que o governo entenda o limite entre imprensa e assessoria de comunicação. Que a imprensa deixe de ser cavilosa e contenha os ataques histéricos, assumindo não veladamente sua posição política. Os intelectuais? Que permaneçam nas salas de aula, afinal, de holofote, quem precisa mesmo é o povo.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Gilmara em 08 de novembro de 2006

Teus comentários na tv são bem nonsense.


Evelyne em 03 de novembro de 2006

Muito lúcido, Rodrigo! Valeu!


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