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O medo da fila | 30 de novembro de 2006

Não é de hoje. Quando eu menos espero lá está ela me espreitando feito bicho selvagem. E eu morro de medo, confesso. Não é tão fácil dizer seu nome, aliás, o nome da cadeia de reações a partir do momento que sou o primeiro da fila. Qualquer fila, juro.

Eu entro no banco/supermercado/padaria ad infinitum e a fila lânguida não deixa muitas saídas. Para quem geralmente atrasa as contas, vale o dia que por milagre divino se dispôs a enfrentar o monstro. Desistir da imensa fila e voltar atrás é assumir duplamente o fracasso. Enfrento o problema de frente e com os olhos até que consiga contar quantas pessoas estão à minha frente.

A “síndrome da fila” - vulgo explicação e debate de todos os males do universo - logo atinge um vizinho mais afoito. Na fila, enquanto a humanidade caminha a passos de formiga e sem vontade todo mundo entende de tudo.

Eu acho isso uma sacanagem, um banco deste tamanho com um caixa apenas!”, “e tem mais, soube pelo jornal que bateu recorde de lucro este ano, quer dizer, com tanto dinheiro e com dó de contratar mais gente!” Daí para entrar na política econômica do governo é um pulo. Ou dois passos. Mais um foi atendido.

Você apenas preenche as lacunas com a palavra supermercado ao invés de banco, ou qualquer instituição pública e estamos quites. O mundo sendo discutido e solucionado até que você esteja na “boca do caixa”. “Viram só a gostosa da novela? Soube que já está dando pra outro!”, “Política é uma merda mesmo!”

Ao brasileiro, execrado por ser “gentil”, cairia bem a indignação que toma conta das filas que consomem meio dia para pagar um simples papel, pegar um necessário remédio etc. Indiana no nome e no flagelo. Coisa daquelas castas paupérrimas das bandas de lá.

Quem pode esnoba a fila. Tem Personalitè, Uniclass, Ouro, VIP ou só grana mesmo, pura e simples. Em qualquer parte. Melhor: alguém que tome as filas por você. Calado como um criado-mudo de mim mesmo, concordo com todas as observações ao meu redor. Estão muito além da minha mediana compreensão do mundo.

Política, sexo, novela, segurança, dinheiro, emprego, falta dele. A fila anda. Cristo, o dilema se anuncia. De vinte e poucos, quinze já se foram. A essa altura, pedir para retornar ao último lugar me custaria o emprego. Não tenho tempo. Um cordeiro seguindo para o abate, suando frio. É a fila chegando ao fim.

Não sei se consigo explicar. E mais ou menos assim: chega a minha vez e o pavor sussurra ao meu ouvido “tá dominado, tá tudo dominado”. Olho para trás, confiro quantos ainda esperam a sua vez, como se eu agora fosse o algoz do que acabou de entrar na fila.

E se eu tiver esquecido a conta em casa? E se o dinheiro não der? E se o cartão não passar? E se quando chegar a minha vez eu estiver distraído e alguém já emputecido com a fila me der um cagaço, “caixa livre porra”? E se eu cair e esparramar no chão frio? E se eu for parar no caixa errado?

Vocês já prestaram atenção no som dessas máquinas que avisam que é sua vez na fila? Qualquer coisa de aterrorizante pode-se aguardar dali. Letrinhas vermelhas passando, anunciando a temperatura, os pacotes, as benesses que o banco/supermercado/padaria/governo tem a oferecer e de repente, não mais que de repente: Caixa 34 Livre!

Lá vou eu. Com o número das pessoas que esperam a sua vez, conferindo em poucos segundos o dinheiro, a conta, as compras, o mundo, as opiniões mais loucas que ouvi ao longo da fila num caleidoscópio sem lógica e umas gotas de suor frio. Ufa! Consegui. Mas tive medo, confesso. Medo de ser o primeiro da fila e de dar tudo errado. Preciso me tratar, tem algo de freudiano nisso...

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
tamara em 07 de dezembro de 2006

fobia social, isso sim.


Laís em 01 de dezembro de 2006

Nananina, Internet banking não vale... hahahaha!
Mas fila realmente é algo muito chato... mas sabe? Não gosto de fila, claro, mas elas me lembram muito minha infância... eu lá com meus três anos de idade me exibindo com meu vô nos Bradescos da vida... eu lembro que eu organizava e reclamava porque as pessoas não estavam nelas direito ou qualquer outra merda... depois nos tempos escolares eu torcia pra ser a menor das meninas pra poder segurar a mão da professora na hora da fila... hahahahahaha! Será que essa minha mania de querer controlar as filas e de ser a primeira dela também, é freudiana? Se é, o resultado é que eu gosto muito de ser controladora e primeira: ou seja, sou egoista? Ai meu Deus... hahahahahahhaa

Beijos pra você,
Laís


Mila em 01 de dezembro de 2006

ahahah
internet bank e desmprego... e o futuro!


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