Todo dia ela faz tudo sempre igual. Eu me debato na cama às seis da manhã, tentando encontrar o despertador que não pára de tocar no criado-mudo. Ela e o menino acordam antes do sol nascer. São duas conduções na vinda e uma na volta para casa. Eu tomo algum suco e curto a preguiça antes sair de casa. Eles precisam vir logo, senão o sol esquenta demais e queima a pele do menino.
A mesma cena durante semanas, mas só há três dias eu pude entender. Esperando a condução para o trabalho sempre com os ouvidos absorvidos pelo som alto que sai dos headphones o mundo parece distante demais. Até que as pilhas do mp3 player acabaram e o mundo aproximou-se sagazmente dos meus olhos.
Em frente à parada de ônibus está a delegacia de plantão da cidade. Uns dias com maior movimento, outros com menos. Dois ou três soldados conversando na calçada, umas viaturas quebradas e as armas sempre em punho. Umas grades que dão para a avenida, onde do outro lado me mantenho em pé e quase sempre em silêncio, quebrado pelas poucas vezes que alguém não percebe que não uso relógio e pergunta das horas.
As grades são da cela da delegacia. Os braços para fora denunciam que está lotada. Um pouco mais adiante, cerca de cinco metros, um muro e um portão de ferro vazado separam a cela do resto do mundo. Por causa da música sempre alta nos ouvidos, nunca havia me dando conta dos gritos. Do menino sim, de sua mãe idem, mas apenas a imagem que não diz muita coisa. Todos os dias bem cedo o menino “visita” o pai, preso na delegacia.
A visita de fato só acontece aos domingos. Mas o menino quer ver o pai. É um direito seu e quando não atendido ele definha e chora. Então a mãe não encontra muitos argumentos contrários convincentes. E o menino faz assim, todos os dias em que não pode ver o pai: vê o braço do pai pelas grades que dão pra rua e se comunica por meio de gritos finos, já que o trânsito é sempre barulhento.
Não demora muito e a mãe precisa ir. O menino chora, balbucia algumas coisas que do outro lado da rua, na parada onde estou, percebe-se pelo tom que são palavras lamuriosas. O pai acena do outro lado, do seu mundo de quatro metros quadrados. Umas vezes com a mão, outras com a camiseta branca, meio encardida.
Tento pensar nalguma cena de cinema semelhante. Não encontro. Uma música? Vasculho a mochila apressadamente, o meu ônibus já acelera como um touro feroz no sinal de trânsito a poucos metros. Pouco tempo. Encontro uma pilha no meio dos papéis, reponho, ligo, ouço. O menino atravessa a rua segurando forte a mão de quem lhe protege e cumpre o seu desejo diário.
Os dois vêm em minha direção. Chet Baker me livra de todo mal, “Waiting for You” no volume máximo. O ônibus passa e eu fico, preciso fazer algumas perguntas. O menino a cada dez segundos olha novamente para a delegacia. O braço do pai já não pode ser visto, ele chora. Sete anos de idade, desde os cinco visitando o pai numa cela.
Não é forte demais e doloroso além da conta? Ela diz que ele acostumou, além do mais não quer vê-lo chorando pelos cantos nos dias em que por algum motivo ela não pode trazê-lo. Ele toma os últimos soluços do choro rotineiro, me olha curioso. O moço da TV? Sim, sou eu.
Não gosta de filmes com tiros, lembra do pai. Inocente, claro, como todos os seus colegas de cela. Estuda à tarde. Outra viagem. A escola do bairro só dispõe de horários pela manhã, coincide com o horário da “visita”, por causa disso são obrigados a atravessar a cidade novamente. A mãe sustenta a casa com ajuda da avó, aposentada. À tarde aproveita que o menino está na escola e faz uns bicos de faxineira.
Não sei se o menino é parecido com o pai, deste só consegui ver o braço através da grade. Lá vem mais um ônibus, já não tenho tempo para mais perguntas. Despeço-me rapidamente, aumento o som do mp3 player apressado. Chet Baker no repeat, “Waiting for You”. Eu esperando digerir tanta coisa forte em tão pouco tempo, o menino espera apenas o dia em que possa ver do pai não apenas o braço através das grades. Chet Baker me livra de todo mal. O mal do mundo parece ser levado nas costas do menino, que faz todos os dias tudo sempre igual.
Ah, como eu gosto de ler você!
:)
Por um instante, lembrei também de "Widow of a living man", de Mr. Ben Harper.