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Waiting for You | 14 de dezembro de 2006

Todo dia ela faz tudo sempre igual. Eu me debato na cama às seis da manhã, tentando encontrar o despertador que não pára de tocar no criado-mudo. Ela e o menino acordam antes do sol nascer. São duas conduções na vinda e uma na volta para casa. Eu tomo algum suco e curto a preguiça antes sair de casa. Eles precisam vir logo, senão o sol esquenta demais e queima a pele do menino.

A mesma cena durante semanas, mas só há três dias eu pude entender. Esperando a condução para o trabalho sempre com os ouvidos absorvidos pelo som alto que sai dos headphones o mundo parece distante demais. Até que as pilhas do mp3 player acabaram e o mundo aproximou-se sagazmente dos meus olhos.

Em frente à parada de ônibus está a delegacia de plantão da cidade. Uns dias com maior movimento, outros com menos. Dois ou três soldados conversando na calçada, umas viaturas quebradas e as armas sempre em punho. Umas grades que dão para a avenida, onde do outro lado me mantenho em pé e quase sempre em silêncio, quebrado pelas poucas vezes que alguém não percebe que não uso relógio e pergunta das horas.

As grades são da cela da delegacia. Os braços para fora denunciam que está lotada. Um pouco mais adiante, cerca de cinco metros, um muro e um portão de ferro vazado separam a cela do resto do mundo. Por causa da música sempre alta nos ouvidos, nunca havia me dando conta dos gritos. Do menino sim, de sua mãe idem, mas apenas a imagem que não diz muita coisa. Todos os dias bem cedo o menino “visita” o pai, preso na delegacia.

A visita de fato só acontece aos domingos. Mas o menino quer ver o pai. É um direito seu e quando não atendido ele definha e chora. Então a mãe não encontra muitos argumentos contrários convincentes. E o menino faz assim, todos os dias em que não pode ver o pai: vê o braço do pai pelas grades que dão pra rua e se comunica por meio de gritos finos, já que o trânsito é sempre barulhento.

Não demora muito e a mãe precisa ir. O menino chora, balbucia algumas coisas que do outro lado da rua, na parada onde estou, percebe-se pelo tom que são palavras lamuriosas. O pai acena do outro lado, do seu mundo de quatro metros quadrados. Umas vezes com a mão, outras com a camiseta branca, meio encardida.

Tento pensar nalguma cena de cinema semelhante. Não encontro. Uma música? Vasculho a mochila apressadamente, o meu ônibus já acelera como um touro feroz no sinal de trânsito a poucos metros. Pouco tempo. Encontro uma pilha no meio dos papéis, reponho, ligo, ouço. O menino atravessa a rua segurando forte a mão de quem lhe protege e cumpre o seu desejo diário.

Os dois vêm em minha direção. Chet Baker me livra de todo mal, “Waiting for You” no volume máximo. O ônibus passa e eu fico, preciso fazer algumas perguntas. O menino a cada dez segundos olha novamente para a delegacia. O braço do pai já não pode ser visto, ele chora. Sete anos de idade, desde os cinco visitando o pai numa cela.

Não é forte demais e doloroso além da conta? Ela diz que ele acostumou, além do mais não quer vê-lo chorando pelos cantos nos dias em que por algum motivo ela não pode trazê-lo. Ele toma os últimos soluços do choro rotineiro, me olha curioso. O moço da TV? Sim, sou eu.

Não gosta de filmes com tiros, lembra do pai. Inocente, claro, como todos os seus colegas de cela. Estuda à tarde. Outra viagem. A escola do bairro só dispõe de horários pela manhã, coincide com o horário da “visita”, por causa disso são obrigados a atravessar a cidade novamente. A mãe sustenta a casa com ajuda da avó, aposentada. À tarde aproveita que o menino está na escola e faz uns bicos de faxineira.

Não sei se o menino é parecido com o pai, deste só consegui ver o braço através da grade. Lá vem mais um ônibus, já não tenho tempo para mais perguntas. Despeço-me rapidamente, aumento o som do mp3 player apressado. Chet Baker no repeat, “Waiting for You”. Eu esperando digerir tanta coisa forte em tão pouco tempo, o menino espera apenas o dia em que possa ver do pai não apenas o braço através das grades. Chet Baker me livra de todo mal. O mal do mundo parece ser levado nas costas do menino, que faz todos os dias tudo sempre igual.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Tati em 19 de dezembro de 2006

Ah, como eu gosto de ler você!
:)


Tato Pedrosa em 15 de dezembro de 2006

Por um instante, lembrei também de "Widow of a living man", de Mr. Ben Harper.


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