Spam, só pode ser. Deletei sem nenhuma cerimônia os dois primeiros e-mails. Além do texto fraco, a idéia central – ao menos nos dois parágrafos que me dispus a ler – pareceu mais um dos incontáveis protestos-quase-lendas-urbanas que aportam todos os dias no meu correio eletrônico.
Lista só a de presença. E como há meses não ponho os pés na faculdade, permaneço abstêmio dos manifestos, cartas de apoio, o escambau. Não sou bom, não quero ser justo nem dono da verdade e não assino embaixo de quem quer que seja.
No entanto, a coisa foi tomando corpo. Em pouco mais de três dias as listas de discussão das quais participo começaram levantar o tema. Em anexo os protestos, os abaixo-assinados e boicotes. Brasileiros uni-vos! A nossa tão cândida imagem de povo hospitaleiro, alegre e cheio de ginga corre perigo.
Explico: atende por "Turistas" a nova polêmica lowbrow que toma conta de alguns conterrâneos, apaixonados que são por este imenso elefante branco com balangandãs verdes cor de floresta, amarelo de ouro e azul do céu mais cintilante deste hemisfério sul.
Um filme de quinta categoria, desses pipocões americanos do tipo “Eu sei o que vocês fizeram...” anda tirando o sono de ufanistas e enchendo a minha pobre caixinha de e-mails e meu saco idem.
O trailer é “assustador”. Com aquela voz de programas de rádio by night romantic o narrador anuncia: “Num país onde vale tudo...” Pois é nesse país onde vale tudo, vulgo Brasil, que cinco jovens americanos decidem gozar as suas férias. Resumindo (sim, porque esse é mais um daqueles filmes onde o trailer não apenas apresenta como entrega o filme de cara): os cinco mancebos caem no golpe do “boa noite Cinderela”. Daí para o seqüestro e a tortura é um pulo. Num país que vale tudo...
Óóóóóóó! Como assim? Quem esses americanos pensam que são para difamar assim a nossa imagem pelo mundo afora através de um filme? Quem disse que aqui vale tudo? Mas que vão todos à puta que os pariu, que sintam agora nas películas a força do nosso boicote nacional-socialista bronzeado!
E tome vaia, comunidades no Orkut, bandeirinhas flamejantes de “Yankees, go home!”. Um festival de clichês e brados contra o imperialismo americano, o capitalismo selvagem que distorce, compra e adultera nossas pobres matas, moças e dignidade virgens.
Então, eu pergunto: de que nos serve tanto? Aonde vamos chegar com uma indignação tão fácil e certeira, enquanto as nossas bundas não levantam um palmo para perguntar onde diabos o Brasil real – que nem difere em larguíssima escala do que é mostrado no filme – vai parar com tanta falsa crise e falta de rumo?
Eu morava a poucos metros do hotel, onde ano passado a polícia encontrou o corpo de um espanhol. Assassinado a facadas, depois se descobriu um plano ardiloso que envolvia drogas, sexo e extorsão por parte de um casal de brasileiros contra o agora defunto. Tudo isso a poucos metros e, que lastimável, não escrevi um roteiro a tempo de sabotar “Turistas”, contando a mesmíssima história!
De uma das listas de discussão saíram com a idéia de produzir filmes em massa mostrando as mazelas dos EUA e dos países ricos que tanto nos maltratam. Ora crianças, para isso precisaríamos ter aulas com Spike Lee, Michael Moore, Noam Chomsky, De Lyllo e tantos outros que há décadas corroem com suas críticas ácidas o american way of life e seu completo desinteresse em checar os fatos além-fronteiras, preferindo viver de esterótipos.
Enquanto nos preocupamos demais com um filme, abrimos as páginas dos jornais e “Turistas” parece fichinha diante do caos nos aeroportos, da falta de política pública que consiga dar futuro e não apenas comida, onde os nossos jovens consigam ter educação, profissão e futuro, para não caírem no mundo do crime e todos os dias, debaixo das nossas narinas carcomidas de pó, encenarem o mesmo filme que agora causa tanta gritaria.
É que é fácil demais gritar contra quem está longe. Ouvir o que o vizinho diz e o nosso futuro negro grita vai ficando cada vez mais complicado, afinal, o barulho da sala de cinema é grande demais.
Sem contar que é muito mais fácil sair de lá reclamando porque perdeu alguns trocados, do que se indignar de verdade contra os milhões que vazam todos os dias e pagariam dezenas de “Turistas”. Dos nossos bolsos, o que é pior, até chegar ao ponto de que um ingresso de cinema nos será inatingível. Já pensou? Acorda cambada!
Rodrigo Levino, vc é um idiota!
Ser conivente com essa palhaçada hollywoodiana é digno de tapas na cara...
Pergunte aos próprios yankees se eles fazem o "nativos" deles...Não vale citar o Michael Moore, pois não se trata de glamour hoolywoodiano...
Permitir que os palhaços lucrem em cima de nossos problemas, é o mesmo que permitir o uso do seu cartão de crédito por estranhos...
Seu burguesinho de m.!
VC EH UM LUXO...AMEI O TEXTO FALANDO DO "TURISTAS"....
PERFEITO...
hd
Quando comecei a ler teu artigo pensei que tu fôsses rechaçar o filme também, Levino, mas (aê!) não. Que bom que não sou o único realista nestas paragens.
Fora um tal episódio dos Simpsons (eu não vi) em que eles visitam o Rio de Janeiro e, só acontece desgraça. Por que não experimentamos fazer um "Nativos"? Ah, é que tem aquela história de parecermos bonitinhos e amigáveis pros outros nos visitarem, né? 24 quadros por segundo durante horas nem seriam suficientes pra mostrar os quadros absurdos que devem ter por aí.
Brasileiro não sabe brincar. Aliás, a Karina Bacchi também não.