Deixou tudo como estava. Porque só assim há beleza no partir. Quebrando apenas o intocável, os encantos que levamos entre os dedos. Os móveis? Que fiquem lá, se permitindo cobrir com as finas camadas de poeira do tempo que não tarda em chegar. A toalha de caprichados bordados onde com a ponta dos dedos ela costumava ajustar a arestas e acomodar as xícaras para o café. Tudo como estava. Ela deixou.
Deixou as malas. Todas. Vazias como devem ser as malas em cima dos guarda-roupas. Deixou as roupas, retiradas na urgência do desejo quando as escadas eram extensões da cama. Outras despidas com preguiça, às vezes pela metade, quando o sono assaltava as pálpebras pesadas de ambos. Os botões por serem costurados. Tudo como estava. Ela deixou.
O silêncio se contorcendo pelos cantos da sala querendo ser grito na boca que partia fechada, não encontrava rumo. Deixou os retratos. As fotos que prometeram amarelar na parede e daqui a pouco penitenciadas por não o fazerem, seriam amontoadas em velhas caixas de papelão. E foram.
Os discos, livros, as páginas feridas de tão lidas e repetidas em voz alta quando ainda havia o que agora era deixado. O Neruda que ela não leu, mas ouviu de capa a capa recitado pela voz cúmplice de quem já não tinha rosto. O fim tomando todas as brechas. Mesmo as dos brincos de delicada feição, dos colares postos pela mão alheia, descobrindo a nuca, rasgando a intimidade.
Os cigarros, os copos, todos sujos, a pia idem. Alguma coisa no forno, o gás para me matar. Quando chegar basta esquentar o jantar. O recado na geladeira. A garrafa quase vazia, dois dedos de vinho. Os discos, por exemplo. A lavanda, as reticências, tudo que de alguma forma tivesse seu nome mesmo que escrito com ralos fios. Tudo como estava.
Sem lágrimas. Que sentido haverá quando não se tem a devida consciência de que o partir é tão precioso quanto o permanecer? Deixou no criado-mudo as pequenas festas que dava dentro de si quando ouvia os passos apressados atravessando o corredor. O amontoado de pequenos recortes do que chamam lembranças.
Os pés, os papéis, as coisas guardadas, o mundo que invade as gavetas. Ela deixou. Enquanto se penteava aumentou o volume da música para fazer o silêncio vibrar quando ele abrisse a porta da casa vazia. Alta, alta, alta. Era um tango de sangue manchando as paredes já mortas.
Deixou as explicações no que não disse. No tempo que agora atrasava e derretia os ponteiros como os relógios surreais de Dali. No que não disse. Porque só assim faz sentido. Quando nada é dito. Quando não há motivos. Quando se parte simplesmente. Deixando assim. Tudo como estava.
rodrigo de janeiro continua escrevendo lindo!
Talvez esta seja a maneira de se partir, quando a partida já é iminente.