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Como estava | 10 de janeiro de 2007

Deixou tudo como estava. Porque só assim há beleza no partir. Quebrando apenas o intocável, os encantos que levamos entre os dedos. Os móveis? Que fiquem lá, se permitindo cobrir com as finas camadas de poeira do tempo que não tarda em chegar. A toalha de caprichados bordados onde com a ponta dos dedos ela costumava ajustar a arestas e acomodar as xícaras para o café. Tudo como estava. Ela deixou.

Deixou as malas. Todas. Vazias como devem ser as malas em cima dos guarda-roupas. Deixou as roupas, retiradas na urgência do desejo quando as escadas eram extensões da cama. Outras despidas com preguiça, às vezes pela metade, quando o sono assaltava as pálpebras pesadas de ambos. Os botões por serem costurados. Tudo como estava. Ela deixou.

O silêncio se contorcendo pelos cantos da sala querendo ser grito na boca que partia fechada, não encontrava rumo. Deixou os retratos. As fotos que prometeram amarelar na parede e daqui a pouco penitenciadas por não o fazerem, seriam amontoadas em velhas caixas de papelão. E foram.

Os discos, livros, as páginas feridas de tão lidas e repetidas em voz alta quando ainda havia o que agora era deixado. O Neruda que ela não leu, mas ouviu de capa a capa recitado pela voz cúmplice de quem já não tinha rosto. O fim tomando todas as brechas. Mesmo as dos brincos de delicada feição, dos colares postos pela mão alheia, descobrindo a nuca, rasgando a intimidade.

Os cigarros, os copos, todos sujos, a pia idem. Alguma coisa no forno, o gás para me matar. Quando chegar basta esquentar o jantar. O recado na geladeira. A garrafa quase vazia, dois dedos de vinho. Os discos, por exemplo. A lavanda, as reticências, tudo que de alguma forma tivesse seu nome mesmo que escrito com ralos fios. Tudo como estava.

Sem lágrimas. Que sentido haverá quando não se tem a devida consciência de que o partir é tão precioso quanto o permanecer? Deixou no criado-mudo as pequenas festas que dava dentro de si quando ouvia os passos apressados atravessando o corredor. O amontoado de pequenos recortes do que chamam lembranças.

Os pés, os papéis, as coisas guardadas, o mundo que invade as gavetas. Ela deixou. Enquanto se penteava aumentou o volume da música para fazer o silêncio vibrar quando ele abrisse a porta da casa vazia. Alta, alta, alta. Era um tango de sangue manchando as paredes já mortas.

Deixou as explicações no que não disse. No tempo que agora atrasava e derretia os ponteiros como os relógios surreais de Dali. No que não disse. Porque só assim faz sentido. Quando nada é dito. Quando não há motivos. Quando se parte simplesmente. Deixando assim. Tudo como estava.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
lenamaria em 16 de janeiro de 2007

rodrigo de janeiro continua escrevendo lindo!


Tato Pedrosa em 11 de janeiro de 2007

Talvez esta seja a maneira de se partir, quando a partida já é iminente.


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