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Ideologia: eu quero uma pra morrer | 31 de janeiro de 2007

Quando o historiador inglês Eric Hobsbawn, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo há dez anos atrás, disse que não gostaria de prever, mas arriscaria dizer que o século XXI seria o século das guerras religiosas, de certa forma prenunciou o fim das ideologias políticas.

Ora, se a guerra é a morte da razão, a que é alavancada por motivos e objetivos metafísicos – muito embora por uma instrumentalidade banalizadora da violência – conterá algum naco de racionalidade?

A partir da tese de Arendt, de que a violência se contrapõe ao poder, nos é permitida a analogia: a violência dessas guerras, pura e simples, não é nada além da desorganização dos sistemas onde nos últimos dois séculos, a humanidade conseguiu estruturar seu pensamento político e os sistemas de poder, no caso, a ideologia.

As cruzadas high techs movidas a petróleo e novos lançamentos da bilionária indústria bélica, transmitidas ao vivo pela TV, disfarçam uma primariedade de instintos que se afoga na estupidez. Não seriam os ideais capitalistas de liberdade americana apenas uma variável das intenções católicas medievais, contra mouros, bárbaros e incivilizados?

Se a visão maniqueísta capitalismo-socialismo (que Deus a tenha) produziu motivações tão torpes quanto, em determinados aspectos - principalmente no que diz respeito aos conflitos em territórios periféricos levados adiante por essa visão -, conseguiu forçar de alguma maneira o valioso ato da reflexão. Teses, explicações, contrapontos e coisas do tipo.

Hoje, ao abrirmos os jornais, nos deparamos com fatos sintomáticos da completa ruína da reflexão ideológica. Globalizada, como pede o figurino.

Em Nairóbi, no Quênia, o Fórum Social Mundial chegou ao fim sem chegar a lugar nenhum. Uma espécie de spa ideológico onde todos elegem um inimigo em comum e bradam contra a ordem vigente, mas não têm noção do que fazer com a colcha de retalhos que leva tantas pessoas ao mesmo encontro e voltam para casa com graus a mais de ódio contra o mundo mau. Não há instrumentalização da idéia. Ela morre, portanto, por inanição. Gritar apenas, às vezes não basta.

No lado rico e frio do mundo, em Davos, a Organização Internacional do Trabalho apresenta um relatório minucioso atestando que o capitalismo nunca produziu tanta riqueza, e, por conseguinte acumulou-a. No entanto, foi e continuará sendo incapaz de preencher uma lacuna básica para a sua própria manutenção: o trabalho. Nunca houve tantos trabalhadores de braços cruzados no mundo inteiro.

No que se sustenta a ideologia e forma de poder que, em tese, venceu a estatização socialista? Nos derivativos dos especuladores internacionais? O risco é assustador. Calcula-se que cerca de U$ 300 trilhões (oito vezes mais do que a riqueza produzida de fato na Terra anualmente), sejam negociados nas bolsas de valores do mundo inteiro, em títulos, marcas e transações tão abstratas quanto a racionalidade de um palestino que se explode numa padaria israelense.

Encerrando os sintomas, a Erent, uma empresa alemã que há décadas trabalha com aluguel de mão-de-obra qualificada, decidiu abrir mais um posto em suas opções e assim atrair mais clientes: a mão-de-obra ideológica.

Estudantes universitários, com boa formação intelectual e conhecedores dos diversos meandros do que ainda resta de ideologia (ao menos teórica), podem ser alugados para os mais variados fins, desde animar passeatas a participar de discussões políticas em sindicatos, ONGs e sepultamentos.

A ideologia assim, transforma-se apenas num serviço terceirizado, parte de uma engrenagem que como disse antes, sustenta-se em alicerces abstratos pelas bolsas de valores mundo afora.

O que nos resta? A guerra tão somente. A barbárie desalentadora de Ahmadinejad e Humsfeld. O fim da racionalidade, da reflexão, o desmantelamento da ideologia pelas mãos de um Aiatolá ou de um falcão (isso para não dar atenção ao “socialismo ou morte” de Chávez, coisa que devemos nos negar a fazer).

No vazio das ideologias que não conseguem se estruturar, ou quando conseguem não vêem como se manter, a barbárie constrói um futuro promissor, tornando inócua a reflexão diante de um simples poço de petróleo ou na lógica niilista do pensamento terrorista. Sendo assim, a idéia transforma-se em variações de atacar e defender, seja lá o que for, afinal, motivos não precisam necessariamente de razões. A ideologia? Cazuza a essa altura só iria querer uma para morrer.

seta Rodrigo Levino

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