Pequenos cactos, delicados, frágeis, sustentando a própria existência sob a aridez do pedregulho. Não seríamos pouca coisa além disto? Fora a acintosa obrigação que a cultura ocidental nos imprime quanto a demonstração de felicidade, sendo ela verdadeira ou não, o que resta de nós são os percalços, as quedas e o doce e efêmero sabor das pequenas conquistas.
Quando envolvidas nalguma expressão artística, tais conquistas amplificam os seus sentidos – e talvez só assim façam sentido – tanto dos dolorosos sonhos atrofiados, quando das vezes em que se manter de pé é uma vitória e tanto.
Esta crueza da vida, mesmo que refinada em determinados momentos, é o que de melhor nos é oferecido no filme “Sob o Efeito da Água” (Little Fish, Austrália/2005), recém-chegado às locadoras nacionais. Uma produção recheada de grandes nomes, que obviamente causam certo estranhamento quando verificamos os blockbusters dos quais os protagonistas já foram partícipes. Darão conta de um bom roteiro que exige além de efeitos e maquiagem uma ótima atuação?
Preconceito bobo. A começar por Cate Blachett, todos eles despem um a um (e nem precisamos esperar muito para isso) as fórmulas plastificadas dos dramas hollywoodianos. Ela particularmente, e como de costume, aliás, presenteia o espectador com uma atuação brilhante, exata, como se a essa altura da carreira não houvesse arestas a serem aparadas. Arestas que levarão um tempo, apesar do bom serviço prestado, a deixar as queridinhas do momento, vide Scarlet Johansson.
O título original do filme, traduzido porcamente, remete à embalagem onde a heroína líquida é transportada. Pequenos frascos em forma de peixe, tonificados pela cor da droga. E é em torno dos conflitos gerados pelo vício que o enredo se desenvolve. Tema batido? Esqueça Kids e Spike Lee, por favor.
O mérito do diretor, o desconhecido Rowan Woods, é utilizar-se da pouca pressa, da trama entrecortada que demora, sem ser cansativa, pelo menos 45 minutos até que todos os personagens apresentem suas armas, ou melhor, suas perdas.
O mérito (e não será esse o do cinema independente?) é descolar-se um pouco da realidade pretendida do comercial de margarina, onde no final tudo dá certo de uma maneira patética, ou o que é pior, tornar o dilema caricato, estereotipado, ora das mazelas subdesenvolvidas, ora da esperança comprada pelo consumismo lowbrow.
O filme não levanta nenhuma bandeira, não vem com nenhuma mensagem de ajuda a drogados nos créditos finais e por isso mesmo é de uma dignidade cortante. Está tudo ali, nu, cru e apesar de tudo sorridente, afinal a esperança é a primeira que morre, na verdade nos alimentamos mesmo é do seu espectro.
Tracey, na pele de Blanchett é a gerente de uma locadora de DVDs. Ex-viciada em drogas - ao contrário do irmão Ray (Martin Henderson) que ao invés de largar o vício mete-se no tráfico com ajuda de Jonny (Dustin Nguyen), ex-namorado dela – vive a estranha sensação de caminhar sobre navalhas. A possibilidade latente de uma recaída é repassada ao espectador em pequenos detalhes, derrota amiúde, cansativas um como suplício.
Quando mais uma vez o empréstimo requisitado ao banco é negado, adiando assim o sonho da emancipação, pensamos de imediato que a melhor coisa para aliviar a pressão será mesmo uma boa dose de heroína, facilmente acessível através de Lionel (Hugo Weaving), o melhor amigo de Tracey.
A câmera desfocada reforça a idéia de caos interior, alicerçada numa trilha sonora contida, mas forte. A proximidade e empatia com o espectador se dão sem apelos baixos; a história é simplesmente palpável, rotineira, muito embora nas nossas contrições pequeno-burguesas, façamos questão de muitas vezes fingir cegueira.
Guardadas as devidas proporções temáticas, os melhores momentos de tensão do filme são tão sufocantes quanto a boléia de “Cinema, Aspirinas e Urubus”. Ao invés do calor e do sol forte deste, em “Little Fish” o ar que dá suporte a alguns segundos embaixo da piscina azul-fortíssimo quase nos leva a mergulhar no vazio, enquanto estamos diante da tela.
O desfecho não oferece soluções. E que bom. É aí que os quatro personagens principais tornam-se vivos, reais, com os problemas deles e não nossos, como se metafisicamente a história que, por causa da empatia, nos deu a impressão que interviríamos de alguma forma, escapasse dos nossos olhos e seguisse adiante. Cada um no seu mergulho, seja na morte ou tentando mais uma vez sobreviver.
Os nossos atropelos, por mais que precisemos e até recebamos o consolo noutro, carregam as marcas e as feridas que resolveremos sozinhos. Mesmo que a fuga nos pareça uma solução, quando na verdade é mera capitulação, vale a mínima força de vontade. No caso, que seja de viver, como um belo peixe azul. Dessa vez sem metáforas ou remetentes. Um peixe. Simples assim, livre assim.