A notícia em si bastou para que minha atenção fosse assaltada. Convenhamos, não é todo dia que nos deparamos com uma galinha que pões ovos enriquecidos com proteínas contra o câncer. Mas quem duvidará? As dúvidas, diante do que a ciência vem progredindo nos últimos tempos, serão daqui a pouco consideradas falhas na nossa matrix.
Mas a culpa – se culpa houver – não reside no experimento em si. Ciência não é desafiar o impossível? Além dos limites exeqüíveis que se ponha a fé. A verdade é que a manchete vende-se pela chamada. Só ao fim da matéria é que o repórter faz o favor de informar que na verdade os testes dos tais ovos, em humanos, só acontecerão dentro de cinco anos no mínimo. Ah, bom.
O problema é que não é a primeira vez que uma notícia dessas invade a nossa sala. Um mínimo esforço de memória vai ressuscitar quase curas da AIDS, vacinas contra o câncer, remédios infalíveis, café contra infarto, tomate contra cegueira ad nauseum. Mas em ratos! Não houve feedback, ninguém deu mais notícias. Pelo menos com o mesmo destaque.
É como se os experimentos científicos, pesquisas longas e complicadas, pusesse os seus objetivos à frente da eficácia, o carro na frente dos bois, trocando em miúdos e com uma ajuda e tanto da imprensa.
Daqui a cinco anos, quando a galinha com ovos contra o câncer der lugar ao chá de samambaia contra o ebola, alguém por acaso irá cobrar ao menos um esclarecimento público, seja da imprensa ou dos cientistas? Não, né?
As manchetes, transformadas em fatos pela pressa estarão para sempre protegidas numa espécie de limbo, um mundo paralelo para onde vão as canetas Bic e os guarda-chuvas.
Contra isso há remédio? Indignar-se por tão pouco? Mas eu pergunto, pouco quanto? Se lida no caso com esperança alheia e ela não deve custar uma bagatela, uma manchete de jornal, como mínimo sinal de respeito a quem se interessa a espera que a notícia seja verdadeira, consistente.
Agora mesmo, poderia até ficar sentado no meu apartamento esperando a morte chegar, mas diante de tantas coisas novas e elixires da juventude e de todas as curas possíveis que pululam nos jornais, será mesmo que ela se atreverá a vir?
Certifico-me de ter um bloco de papel com uma caneta Bic ao alcance da mão. Preciso anotar a próxima cura no Jornal Nacional. Se a caneta sumir, deve ter ido junto com alguma salvação de uns cinco anos atrás.