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Das cinzas | 22 de fevereiro de 2007

Largam-se os discos do Pixies pela sala. Lá vem a troça. É carnaval, todos fazem barulho. E assim a vida segue durante cinco dias, sempre ao lado, atrás e no passo das orquestras que se multiplicam pelas ladeiras de pedras antigas sustentando os pés que pulam.

“Hey! Be trying to meet you” ainda ecoa nos tímpanos vagamente, o disco é Dolittle e de repente entre um gole e outro de algo que alivie o calor, pensa-se que há alguma relação entre isso e aquilo. Entre Pixies e carnaval. Afinal, o que ou quem estamos tentando encontrar atrás da troça? Ou melhor, do que fugimos?

Quando o riff de guitarra jaz sob a batida forte dos tambores e o agudo dos metais, apenas seguimos o roteiro da fuga imediata, da rua estreita que toma outra rua estreita e assim por diante. No fundo, todos nós queremos fugir atrás de uma troça, de algo que tome de assalto os nossos ouvidos, que pareça fácil de cantar e que a nossa única preocupação seja justamente manter os pés no chão, mas sem metáforas existenciais.

O carnaval legitima a fuga, seja lá do que for, do que é dor, do que se imagina ser e nem entendemos direito, mas fugimos. Atrás da troça só não vai quem já morreu, ou quem morreu há tempos e tenta negar para si mesmo. Atrás da troça vão os pedaços, os retalhos, que unidos aos retalhos dos outros que nos seguem tão apertadamente, nos dão a falsa ilusão de que ali somos inteiros.

Enquanto fazemos de jacas pantufas a consciência perde o rumo junto com o suor que invade o corpo. É tudo fácil, como deveria ser, afinal, por que exatamente a vida precisa ser algo mais complicado do que tocar tarol numa troça de frevo?

Simples assim, um compasso, dois tons, uma rua, alguém que nos siga e enquanto não encontramos, procuramos com os olhos no meio da multidão, entre o cordão e a calçada, sentada nalguma varanda, pulando no meio da multidão. Alguém que fuja conosco, ou melhor, alguém do qual fugimos num lapso momento de covardia e esteja ali, com as mãos que te puxem da troça e diga venha, a casa é sua pode morar.

Das luzes de mercúrio da volta para casa nos ônibus lotados da nossa rotina aos ar-condicionados que nos tapam o sol das janelas, passando pelas contas, amores e família, há em tudo um motivo, uma covardia, algo que nos faça querer a ilusão simplória de que atrás da troça só não vai quem já morreu e que mesmo mortos, ainda podemos renascer.

Cumprimos assim o destino dos cinco dias de fugas e suor, tentando quem sabe, renascer no destino que é de toda quarta-feira: o de ser cinzas e apenas isso. Cinzas. Renascer é muito mais difícil do que fugir.

"Ao meu redor balões explodem
espalhando lantejoulas sobre minhas vestes
tudo está lerdo e acinzentado
todos perdidos com seus dentes arreganhados
e um sorriso a margem do descaso
de pé choro, danço sobre os corpos
Doces serão os fatos narrados
na manhã seguinte
"

Bugs - Quarta de Cinzas

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
diego em 01 de março de 2007

O problema é que, se eu fujo PARA o carnaval, DE lá quero fugir.


kamila siqueira em 22 de fevereiro de 2007

Carnaval é o reveillón do brasileiro. Quase uma semana de festa pra "começar o ano de fato". A trilha sonora do meu foi: "quem é o gostosão daqui? sou eu, sou...". Dá pra tu? Ainda bem que a quarta feira da fumaça foi ontem, hehehe

=*


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