“Sabem, este país já foi muito bom. Não entendo o que está acontecendo com ele”. A frase de Peter Fonda, na pele de George Hanson em Easy Rider, conseguiu ultrapassar o tempo moldando-se a qualquer reclamação anti-americana, inclusive, como no caso do personagem, dando suporte a uma auto-crítica patriota.
O certo é que a sentença parece bem maior do que pretendia o personagem. Para não ficarmos na previsibilidade da reclamação contras os ianques malvados que adoram sangue, melhor estender o que apontam de mediocridade e culpa neles, para todos nós.
Sabem, este mundo já foi muito bom. E pior, entendemos o que está acontecendo com ele e não fazemos absolutamente nada. Que ele, o mundo, está para acabar desde que foi criado, isso é fato. No entanto, nós terráqueos, não cumprimos sequer a missão de auto-piedade que é estender um pouco a sobrevida de nossa casa, coincidentemente minha e sua.
As manchetes nos últimos meses estão sendo varridas por alertas dos mais variados tipos, relatórios e dados que apontam para uma luz no fim do túnel que mais parece um trem na contramão. O preço do nosso conforto será pago em caos, num cenário que nem Mad Max quiçá alcançou. E o que fazemos? Nada.
Afloramos em plena era da tecnologia absurdamente desenvolvida, um primitivismo assustador de medo, puro e simples. Ao invés de instigar, as manchetes surtem um efeito contrário, como um agente paralisante. Nós, os que dominamos o fogo, acuamo-nos nas cavernas agora que a floresta inteira foi incendiada. Por nós mesmos, diga-se.
Mesmo dispondo de meios modernos de convivência político-social, não somos capazes de cobrar suficientemente dos nossos representantes medidas realmente eficazes contra a poluição, o desmatamento, a emissão de gases, grãos que um por um encherão o papo desta galinha velha, gorda e cansada, prestes a explodir. Queremos o pão e circo, embora a lona velha e gasta esteja em chamas.
Governantes para ficarmos ainda no campo da culpa transferida. E o nosso descaso sagrado de todos os dias? O nosso lixo jogado nas ruas sem a menor cerimônia, o vício de não conseguir ir até a padaria sem o carro, que emite num percurso de cento e poucas calorias, cento e poucos metros cúbicos a menos na camada de ozônio?
Ao menos no caso de Peter Fonda, uma bela Harley Davidson e um mínimo espírito de rebeldia aliviavam a dor de viver num lugar que piorava a cada instante. O problema é que no nosso caso, daqui a pouco não haverá estrada, muito menos Harley Davidson e rebeldia mesmo vai ser continuar sem fazer nada, nesse niilimo viciante de poltrona, jornal e novela em seguida para esquecer do mundo que está acabando.